domingo, 30 de dezembro de 2012

Destrinchando Zeitgeist - Parte 2: Ignorância Estratégica

Nenhum comentário:
Na primeira parte de Destrinchando Zeitgeist, vimos que as principais alegações do documentário são falsas. Com base em obras clássicas e antigas das mitologias pagãs, tais como O Livro dos mortos, Textos da Pirâmide, Odisséia, O Trabalho e os Dias, Teogonia, Textos do Sarcófago, Mahabharata, Bhagavata Purana e outras, ficou claro que os supostos paralelos existentes entre Jesus Cristo e os mitos pagãos se resumem a comparações forçadas, interpretações subjetivas (e parciais), erros de cronologia, erros de metodologia histórica e falsificações grosseiras.

Só para lembrar, nós analisamos os supostos paralelos existentes entre Jesus e Osíris, Hórus, Dionísio, Átis, Krishna e Mitra, que são os principais do documentário, e ainda alguns que puxei aleatoriamente de uma extensa lista que o documentário passou em alta velocidade na tela (por que será, né?), a saber, Sidarta Gautama (Buda), Odin, Thor, Tamuz e Baal. Se o leitor está se perguntando como os produtores de Zeitgeist conseguiram ser tão mentirosos, picaretas e desonestos, fique tranqüilo; vou explicar em outra postagem.

Nessa postagem, vamos analisar algumas alegações de Zeitgeist que se baseiam no que eu chamo de “ignorância estratégica”. Ignorância estratégica é o ato de ignorar propositalmente partes de um assunto que não são convenientes para o argumento que se está procurando sustentar. Vamos lá?

“A Bíblia é um livro astrológico e Jesus é o deus-sol do cristianismo” 

Segundo sustenta o documentário, a adoração ao sol teria influenciado diversas religiões ao longo dos milênios, dentre as quais se incluem o judaísmo e o cristianismo, este último tendo Jesus como o seu deus-sol.

Entretanto, a alegação esbarra em dois sérios problemas. O primeiro: a Bíblia é clara ao afirmar que a adoração a sol, lua, estrelas e qualquer coisa criada, é abominável a Deus, pois Deus é maior que todas essas coisas, sendo antes o criador. O segundo: a Bíblia enfatiza diversas vezes que o Deus judaico-cristão é o Deus criador. Ele não é um deus-sol, nem um deus-lua, nem um deus-terra, nem um deus-tempestade. Confundi-lo com aquilo que Ele mesmo criou é algo que não pertence e nunca pertenceu à doutrina dos judeus ou dos cristãos. Vamos ver alguns exemplos.

Em Deuteronômio 4:19, podemos ler:
Guardem-se para que não levantem seus olhos para os céus e, vendo o sol, a lua e as estrelas, a saber, todo o exército dos céus, sejam seduzidos a inclina-rem-se perante eles, prestando culto a essas coisas que o Senhor, nosso Deus, repartiu a todos os povos debaixo de todos os céus.
Isso está presente no livro de Deuteronômio, Antigo Testamento, que foi escrito em cerca de 1.500 anos antes de Cristo, quando o judaísmo começava a se formar como uma religião oficial. No mesmo livro, mais adiante, lemos:
Quando em seu meio, em alguma das cidades que o Senhor, seu Deus, lhe dá, for achado algum homem ou mulher que proceda maliciosamente aos olhos do Senhor, seu Deus, quebrando a sua aliança, e que vá, sirva a outros deuses e os adore, ou adore ao sol, ou à lua, ou a todo o exército do céu, o que eu não ordenei; e isso lhe seja denunciado e você ouça; então, você procurará saber se é verdade e sendo verdade e certo que se fez tal abominação em Israel, levará o homem ou a mulher que fez este malefício às tuas portas e os apedrejará, até que morram (Deuteronômio 17:2-5).
Veja que a religião judaica era bem enfática no que dizia respeito à proibição de adorar astros. É ridículo sustentar, como sustenta Zeitgeist, que a religião judaica era baseada no zodíaco. Mas, continuemos. Em Jó 31:26-28, o personagem Jó, afirma:
(...) se olhei para o sol, quando resplandecia, ou para a lua, que caminhava esplendente, e o meu coração se deixou enganar em oculto, e beijos lhes atirei com a mão, também isto seria delito à punição de juízes; pois assim negaria eu ao Deus lá de cima.
Em II Reis 23:5, também existe algo interessante. O então rei judeu Josias, inicia uma reforma religiosa, a fim de fazer cumprir as ordenanças das Escrituras Sagradas que, na época, em grande parte, estavam sendo ignoradas pelo povo. Um de seus atos foi o seguinte:
E destituiu os sacerdotes pagãos nomeados pelos reis de Judá para queimarem incenso nos altares idólatras das cidades de Judá e dos arredores de Jerusalém, aqueles que queimavam incenso a Baal, ao sol e à lua, às constelações e a todos os exércitos celestes.
Então, o que vemos aqui é que muitas pessoas poderiam até se corromper (como, de fato, ocorreu diversas vezes), contudo, a religião judaica jamais ensinou a adoração à astros. Quem o fazia, estava indo contra o judaísmo. Um último texto deixa ainda mais claro essa verdade. Está em Ezequiel 8. Lemos:
E de novo o Senhor Deus me disse: ‘Você os verá cometerem práticas ainda mais repugnantes’. Então ele me levou para a entrada da porta norte do templo. Lá eu vi mulheres sentadas, chorando por Tamuz. Ele me disse: ‘Você vê isso, filho do homem? Você verá práticas ainda mais repugnantes do que esta’. Ele então me levou para dentro do pátio interno do templo, e ali, à entrada, entre o pórtico e o altar, havia uns vinte e cinco homens. Com as costas para o templo do Senhor e os rostos voltados para o oriente, estavam se prostrando e adorando o sol (Ezequiel 8:13-16).
Este é um relato de uma visão do profeta Ezequiel. Na visão, Deus lhe dizia que muitos do povo estavam praticando coisas repugnantes. Entre elas, vemos a adoração a Tamuz, aquele deus da colheita que analisamos, lembra? E há aqui também, a citação da adoração ao sol. Como fica patente, a religião judaica condenava veementemente esse tipo de atitude. Simplesmente não fazia parte da doutrina judaica à adoração a astros.


Ora, o mesmo pode-se dizer da religião cristã, já que o cristianismo veio a surgir do judaísmo. O apóstolo Paulo deixa clara a posição cristã quando escreve sua epístola aos Romanos, dizendo que muitos homens “trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador, que é bendito para sempre” (Romanos 1:25).

Paulo tinha bem clara em sua mente a noção de que o Deus que ele adorava era o Deus criador de todas as coisas. Então, coisas como sol, lua, estrelas, terra, água, fogo, homens, mulheres, animais e plantas eram meras criaturas, não devendo ser adoradas em hipótese nenhuma. Apenas o Deus criador poderia ser adorado. Por isso, o mesmo Paulo diz o seguinte para aos pagãos que pensavam que ele e seu amigo Barnabé eram deuses, em Atos 14:15:
Senhores, por que fazem isso? Nós também somos homens como vocês, sujei-tos aos mesmos sentimentos, e estamos anunciando o evangelho para que destas coisas vãs vocês se convertam ao Deus vivo, que fez o céu, a terra e o mar e tudo o que há neles (...).
Em circunstâncias semelhantes, quando na Grécia, pregando para adoradores de diversos deuses diferentes, Paulo diz, em Atos 17:23-24:
Pois esse Deus que vocês adoram sem conhecer é precisamente aquele que eu estou anunciando. O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas.
O discípulo João mostra que a adoração não era uma contradição a essa noção de adorar a um só Deus, o Deus criador. Ele diz nas primeiras palavras de seu evangelho:


No princípio existia o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele e, sem ele, nada do que foi feito se faria. (...) E o Logos se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai (João 1:1-3 e 14).

O Logos ao qual se refere João é Jesus. Costuma a ser traduzido como “O Verbo” ou “A Palavra”. O importante desse texto é que Jesus era entendido como sendo parte do próprio Deus. Para o cristianismo não há, nem nunca houve mais de um Deus. O Pai, o Filho (Jesus) e o Espírito Santo são todos partes de um só Deus, tal como três pedaços de uma única laranja não deixam de ser uma mesma laranja, embora tripartida. E esse Deus triúno do cristianismo é o Deus criador, como acabamos de ver. 

O Deus judaico-cristão sempre foi reconhecido e diferenciado dos demais deuses de outras religiões como o Deus criador. Citamos passagens do Novo Testamento que comprovam isso. Podemos citar também muitas do Antigo Testamento, como a que está em II Crônicas 2:11-12, onde lemos:
Hirão, rei de Tiro, respondeu por uma carta que enviou a Salomão, dizendo: ‘Porque o Senhor ama ao seu povo, te constituiu rei sobre ele’. Disse mais Hirão: ‘Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que fez os céus e a terra’ (...).
Tiro não era uma cidade de Israel. O rei de Tiro não era judeu. No entanto, ele reconhecia que o Deus de Israel não era um deus-sol, ou um deus-lua, mas o Deus que fez os céus e a terra.


O profeta Jonas, ao ser questionado por alguns homens pagãos sobre qual era o deus a que ele servia, respondeu assim:
Sou hebreu e sirvo ao Senhor, o Deus do céu, que fez o mar e a terra. Então, os homens ficaram possuídos de grande temor e lhe disseram: ‘O que é isso que você fez?’, pois sabiam os homens que ele fugia da presença do Senhor, porque lhes havia declarado (Jonas 1:9-10).
Eu poderia citar pelo menos mais uma dúzia de passagens que comprovam que o judaísmo e o cristianismo não apresentam nenhum vínculo com a astrologia, o zodíaco e a adoração a divindades que nada mais são do que criaturas, como o sol e a lua.

O que Zeitgeist faz é forçar comparações, baseado em elementos que não tem a menor importância. Por exemplo, em determinado trecho, o documentário afirma que a prova de que o cristianismo tem a ver com o zodíaco são diversas passagens que usam o termo “era” (no sentido de período). Ora, mas o fato de alguém se utilizar do termo “era” não significa que essa pessoa siga o zodíaco. Somente um babaca que não tem o que fazer, poderia usar um argumento pífio desses.

Aliás, no que diz respeito a esse assunto do zodíaco, o documentário mostra ter sido feito por um bando picaretas sem vergonha de mentir. Por exemplo, há um trecho em que o documentário cita o texto de Lucas 22:7-12, dizendo que nesse texto os discípulos perguntaram a Jesus quando seria a próxima passagem de “era” depois que ele fosse embora (o que seria uma alusão às passagens de “era” do zodíaco).

Mas quando vamos averiguar o que está escrito nesse trecho de Lucas, o que lemos é o seguinte:
Chegou o dia da Festa dos Pães Asmos, em que importava comemorar a Páscoa. Jesus, pois, enviou Pedro e João, dizendo: ‘Vão preparar a Páscoa para que nós a comamos’. Eles lhe perguntaram: ‘Onde quer que a preparemos?’ Então, lhes explicou Jesus: ‘Ao entrarem na cidade, encontrarão um homem com um jarro de água. Sigam-lhe até a casa em que ele entrar e digam ao dono da casa: ‘Onde é o aposento no qual eu irei comer a páscoa com os meus discípulos?’ Ele lhes mostrará um espaçoso cenáculo mobilhado. Ali, façam os preparativos.
Ah! Faça-me o favor! Onde é que nós encontramos nesse texto uma menção à passagem de era no zodíaco? Não está claro que os discípulos estavam perguntando a Jesus onde fariam a festa judaica da Páscoa? 

Como podemos observar, não há limites para as mentiras que os produtores do documentário veiculam como fatos. Aqui já se pode ter certeza de que tudo o que for possível ser distorcido ou até mesmo inventado para criticar a religião tradicional, será feito pelos produtores. Afinal, todos eles estão profundamente vinculados ao ódio contra a religião tradicional.

“A Bíblia toda é um plágio”

Aqui temos a afirmação de que a Bíblia toda é um plágio. As provas seriam as diversas histórias parecidas com histórias bíblicas, que podemos encontrar em outras religiões antigas. O documentário cita a história da arca de Noé e o dilúvio, a história de Moisés sendo salvo do infanticídio em um cesto, a história de Moisés como legislador de um povo e até os dez mandamentos. Vamos analisar.

A começar pela história da arca de Noé e do dilúvio, não é nenhuma surpresa para nós, cristãos, que existam diversas culturas, religiões e tradições no mundo que são muito parecidas com a história bíblica. Há tempos e tempos nós temos usado este fato como um argumento a favor do evento em si. O que se espera de um evento global que tenha ocorrido de verdade? Não são diversos relatos do mesmo?

Ora, encontramos em mais de trezentas culturas espalhadas por diversas regiões do mundo as histórias da criação do mundo e do homem, da queda da raça humana, do dilúvio e da arca. Todas têm aspectos diferentes, mas o básico é o mesmo. Isso é uma boa evidência de que o fato ocorreu e que os relatos foram sendo passados de geração em geração, tendo seus elementos básicos conservados em várias culturas. Trata-se de um argumento sólido porque, de fato, é difícil explicar como todos esses relatos podem ter aparecido em algumas culturas que jamais tiveram comunicação umas com as outras e que, no entanto, têm relatos semelhantes sobre a criação e um suposto dilúvio.

Se os produtores do documentário Zeitgeist tivessem lido livros como O Fator Melquisedeque, de Don Richardson, Escavando a Verdade, do Dr. Rodrigo Silva, The American Indian Mythes, de A. G. Roth, Em busca da Arca de Noé, de Dave Balsinger e Charles Sellier Jr., God’s promise to the Chinese, de Ethel Nelson e Faith of Our Fathers, de Archie Lee, saberiam que esses paralelos são exatamente o que se espera caso os fatos da criação, da queda do homem, da arca e do dilúvio tenham ocorrido de verdade. Ou seja, a Bíblia não é, necessariamente, um plágio dessas histórias, mas essas histórias todas descendem de um fato real.

Com relação à história de Moisés sendo salvo de um infanticídio, Zeitgeist nos presta o desserviço de distorcer a história de Sargão I, rei da Acádia, para torná-la mais parecida com a de Moisés. Este homem foi um rei que teve a história de sua infância registrada em um tablete que data de cerca de 2250 a.C. O relato da história é esse:
Sargão, o rei poderoso da Acádia, sou eu. Minha mãe era humilde. Meu pai, não tive a oportunidade de conhecer. O irmão do meu pai vivia nas montanhas. Minha cidade é Azupanu, que está situada na ribeira do Eufrates. Minha mãe me concebeu em secreto. Em secreto ela me deu à luz. [Ela] me colocou em um cesto de juncos e fechou a tampa com betume. [Ela] me colocou no rio [Eufrates], que não me submergiu. O rio me levou boiando até Akki, o regador das águas. Akki, o regador de água, me aceitou como seu filho e me criou.
Ora, veja. A história realmente tem aspectos semelhantes com a de Moisés. Mas é preciso, antes de tudo, ressaltar que a narrativa de Sargão não diz que ele foi salvo de um infanticídio, como o documentário sustenta. Agora, vamos às explicações. Seria a história de Moisés um plágio da história de Sargão? Não necessariamente.


Em primeiro lugar, devemos lembrar que no mundo antigo, os rios eram tidos como sagrados. Assim, colocar um bebê dentro de um cesto não seria considerado tão incomum como seria hoje. A história de Rômulo e Remo, de Roma, ainda que seja uma lenda, confirma o que eu estou falando. Poder-se-ia colocar um bebê em um rio como uma maneira de oferta aos deuses. Da mesma forma, uma mãe que não tivesse condição de cuidar de seu filho, poderia “dá-lo aos deuses” ou deixá-lo no rio com o intuito de que alguém que estivesse nas margens, visse o cesto e adotasse a criança.

O que estou falando não é absurdo. Por exemplo, todos nós sabemos que igrejas e orfanatos sempre receberam bebês em cestos de mães que os deixavam na porta e iam embora. Isso era muito comum no final do século XIX e início do século XX, quando era considerado um escândalo moças solteiras engravidarem. Em certa época, chegou a se criar nas igrejas católicas a chamada “Roda dos Rejeitados” ou mesmo “Roda dos Excluídos”, um local específico para que mães solteiras colocassem seus bebês.

Se colocarmos as coisas nesses termos, as histórias de Moisés e Sargão deixam de ser uma coincidência tão incrível e passam apenas a expressar uma idéia recorrente e/ou fácil de ser pensada pelas pessoas do mundo antigo. Veja, não é tão improvável que no mundo antigo duas mães tenham posto seus filhos em um cesto num rio com intuito de que alguém na margem os visse e os adotasse. Sobretudo, tendo em mente que um bebê vindo do rio provavelmente seria considerado um presente dos deuses, dado o caráter sagrado dos rios.

Alguém pode alegar: “Ah, mas é muita coincidência tanto Moisés como Sargão terem se tornado homens famosos”. Bem, é muita coincidência se considerarmos que só eles foram postos em rios por suas mães. Mas e se centenas de crianças tiverem passado pela mesma situação ao longo dos séculos do mundo antigo? Entre centenas, dois deles se tornarem famosos não é algo tão improvável. Talvez a idéia de colocá-los em rios tenha partido justamente da observação de que outras mães já tinham feito isso. 

A hipótese é plausível. Não há motivo para jogá-la fora, quando sabemos que os diversos relatos de bebês deixadas em igrejas e orfanatos expressam eventos diferentes (que eram recorrentes) e não cópias de um único evento. Dizer que a hipótese de Moisés ser um plágio é a única plausível não passa de desonestidade.

Ainda uma informação interessante pode ser dita aqui. Quando os estudiosos alegam que a história de Moisés seria um plágio da história de Sargão, afirmam que os israelitas teriam aprendido a história quando foram cativos da Babilônia em 587 a.C. e acoplado à história de Moisés. Se isso é fato, era de se esperar que a história de Moisés estivesse cheia de termos que remetessem à língua babilônica da época do Egito. 

Mas, conforme o egiptólogo James K. Hoffmeier mostra em seu livro Israel in Egypt, as palavras utilizadas na narrativa hebraica não são nem da língua babilônica e nem da língua hebraica da época do exílio. Em vez disso, o relato da história de Moisés está permeado de termos técnicos que eram comuns no Egito, em um período muito distante do cativeiro israelita na Babilônia. Isso evidencia que o autor do relato só pode tê-lo escrito no período em que viveu no Egito, muito antes da época do cativeiro. Isto é, a história não deriva da mitologia babilônica.

Continuando, temos ainda as alegações de que a história de Moisés como sendo um legislador, seria um plágio das histórias de Manou, Minos e Mises. Mas eu não sou idiota para comprar a idéia de que o simples fato de existirem legisladores nos mitos do paganismo prova que Moisés é cópia deles. Se for assim, posso dizer que os deputados que temos hoje em dia na câmara são cópias desses mitos também, pois são legisladores, não é mesmo?

O documentário afirma que Minos, de Creta, teria recebido leis de Zeus em um monte e as deu ao povo. Não encontrei isso, mas se há algo do gênero na mitologia grega, não é de se surpreender. Os deuses, em todas as religiões, sempre moraram nos céus. Havia na mitologia grega o alto monte Olimpo, que era a morada dos deuses. É compreensível, assim, haver histórias de Zeus ordenando algo de algum monte. Até aí, não há nada muito substancial para provar plágio. Algo que vamos abordar mais à frente é o fato de que algumas semelhanças básicas entre as religiões são esperadas; essas não provam plágio, pois são básicas e inevitáveis.

Por fim, temos a alegação de que os dez mandamentos são um plágio do “Feitiço 125 do Livro dos Mortos”. Finalmente, o documentário cita uma fonte antiga! Mas é triste que a alegação seja baseada em uma comparação tão forçada. Tenho um download da obra em meu computador. O tal feitiço trata-se de uma orientação que é dada, a quem morre (pelo que pude entender da fragmentada narrativa). A orientação é chamada de “Confissão Negativa”. Ali, a pessoa deveria saudar cada deus e dizer que não fez um determinado mal. Então, temos frases como: “Eu não roubei”, “Eu não matei”, “Eu não fui violento”, “Eu não menti” e etc.

Dizer que os dez mandamentos são um plágio disso é ridículo. O decálogo é tão somente um conjunto de regras morais que sempre existiram e que todas as nações do mundo conheciam, embora muitas pessoas não praticassem. Sempre foi imoral o ato de matar. Sempre foi imoral o ato de roubar. Sempre foi imoral o ato de mentir. Desde que o mundo é mundo, essas regras existem. Os dez mandamentos são simplesmente a lei por escrito. Então, não há plágio nenhum aqui. As tábuas da lei apenas catalogaram o que já existia há milênios. Veja o quão baixo os produtores de Zeitgeist chegaram...

“A Bíblia plagia suas próprias histórias”

Aqui o documentário alega que a Bíblia plagia até suas próprias histórias. Como exemplo, é citado José, filho de Jacó, um personagem de Gênesis, que teria paralelos com Jesus. Os paralelos citados são os seguintes: ambos nasceram de um milagre; José era um de 12 filhos e Jesus tinha 12 discípulos; Jesus foi vendido e José também foi; Judá sugeriu a venda de José e Judas sugeriu a venda de Jesus; José começou seus trabalhos aos 30 anos e Jesus também.

As informações estão corretas. Encontram-se na Bíblia. Mas dois pontos devem ser levantados aqui. O primeiro: as semelhanças não são tão grandes. O documentário as cita de maneira genérica para gerar uma impressão de que as histórias são praticamente idênticas. Mas não são. Veja: Jesus nasceu de uma virgem. José nasceu de uma estéril. Jesus não era fruto de algum tipo de união. José era fruto da união entre Jacó e Raquel (seus pais biológicos). Jesus mais seus 12 discípulos somam 13 pessoas. José mais seus 11 irmãos, somam 12 pessoas. Jesus não foi vendido, mas sim entregue às autoridades por 30 moedas de prata. José foi vendido para ser escravo e por 20 moedas. Judas era um discípulo de Jesus. Judá era um irmão de José. A sugestão de Judas de entregar Jesus foi feita às autoridades. A sugestão de Judá de vender José como escravo foi feita aos seus próprios irmãos. Enfim, existem muitas diferenças também.

O segundo: embora as semelhanças entre José e Jesus não sejam tão grandes quanto Zeitgeist quer fazer o expectador achar, elas existem. Mas também isso sempre foi de conhecimento dos cristãos e nunca representou um problema. É o próprio Jesus que afirma em João 5:39 que as Escrituras Judaicas (que eram anteriores a ele) falavam principalmente sobre ele. Isso quer dizer que em toda a Escritura existem profecias, simbologias e até histórias reais de personagens que prefiguravam Jesus e sua obra.

O cordeiro sacrificado prefigurava Jesus. O sumo-sacerdote prefigurava Jesus. O templo prefigurava Jesus. O maná no deserto prefigurava Jesus. A água que Moisés fez sair de uma rocha prefigurava Jesus. Os profetas prefiguravam Jesus. A posição de rei de Israel prefigurava Jesus. Davi, Oséias, Jacó, José e Isaque prefiguravam Jesus. 

Deus, como um agente livre em nosso “sistema aberto de mundo” tem toda a capacidade de, sem quebrar o livre arbítrio humano, “mexer os pauzinhos” para que determinados fatos prefigurem um evento vindouro. Então, supondo-se que Deus existe mesmo, encontrar algumas semelhanças entre Jesus e determinadas pessoas da Bíblia é uma confirmação de que toda a Escritura testifica de Cristo.

Antes que alguém diga que estou apenas tentando fugir da lógica, devo lembrar que a Bíblia apresenta mais de 50 profecias e elementos simbólicos escritos centenas de anos antes de Cristo, que dão detalhes sobre a vida e a obra de Jesus. Farei um estudo mais detalhado sobre o assunto em outra ocasião, mas para quem tiver curiosidade, uma leitura de Isaías 53 e de Miquéias 5:2 comprova o que estou dizendo. São profecias bem específicas sobre Jesus escritas centenas de anos antes dele nascer.

Bem, podemos parar por aqui. Vimos como os produtores do documentário são extremamente desonestos e ignoram propositalmente partes importantes da discussão a fim de sustentar seus argumentos anti-religiosos. Mas ainda não acabou. Na próxima postagem da série, nós vamos ver um pouco sobre a terrível distorção feita em cima do que os estudiosos chamam de “Jesus Histórico”. Destrinchar é isso: não deixar nenhum detalhe de fora.
______________________
Bibliografia:
1. Richardson, Don. O Fator Melquisedeque. Vida Nova, 2008.
2. Silva, Rodrigo. Escavando a Verdade. Casa publicadora Brasileira, 2007.
3. Roth, A. G. The American Indian Mythes. 
4. Balsinger, Dave e  Sellier, Charles. Em busca da Arca de Noé. Record, 1976.
5. Nelson, Ethel. God’s promise to the Chinese. Read Books Publisher, 1997.
6. Chan Kei Thong  e Charlene L. Fu. Faith of Our Fathers: God in Ancient China. China Publishing Group, 2006.
8. Wikipédia

sábado, 15 de dezembro de 2012

Destrinchando Zeitgeist - Parte 1: Jesus e a mitologia pagã

17 comentários:
Em 2007 saiu o primeiro filme do documentário Zeitgeist. Trata-se de uma obra de cerca de 1h30min de duração e que tem como seu objetivo principal acusar o sistema capitalista de sustentar grandes mentiras globais que possam ser convenientes aos seus interesses econômicos.

O documentário se divide em três partes. A segunda e a terceira parte, que não me interessam muito, falam sobre a teoria de que o ataque às torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, em Nova York, nos Estados Unidos, teria sido arquitetado pelo próprio governo americano (e não por terroristas islâmicos), a fim de ter desculpas para intensificar a luta contra os países muçulmanos e declarar guerra ao Iraque; e sobre a teoria de que existe uma elite, formada pelos sistemas bancários do mundo, que pretende se unir e alcançar domínio mundial.

Já a primeira parte é uma explanação da teoria de que Jesus Cristo, fundador do cristianismo, teria sido apenas um mito formado a partir de personagens de diversas mitologias pagãs. A prova dessa teoria seria a série de características comuns (paralelos) que, segundo o documentário, existe entre Jesus e tais personagens mitológicos. Esta é a parte que gostaria de analisar a partir de hoje.

Infelizmente, eu só vim saber da existência desse documentário em 2010 e não dei muita atenção ao mesmo na época. Contudo, agora que comecei a postar com mais freqüência neste blog, senti a necessidade de escrever uma série de postagens abordando com detalhes o tema. O objetivo principal dessa série é mostrar ao público que a maior parte das afirmações feitas em Zeitgeist é baseada em erros de metodologia histórica, especulações, interpretações forçadas, fontes tardias e até mesmo falsificações.

Na parte final da série, farei ainda uma análise detalhada sobre os motivos pelos quais o documentário comete um número tão grande de erros e explicitarei uma curiosa ironia: o documentário que se propõe a refutar crenças religiosas, tenta empurrar para o expectador uma série de crenças irracionais e extremamente perigosas, provenientes da “religião política” (isso fica mais evidente no segundo filme do documentário: Zeitgeist Addendum, lançado em 2008).

Os paralelos entre Jesus e personagens da mitologia pagã

A primeira parte do documentário, como já dito, se concentra na teoria de que Jesus não existiu, tendo sido, na verdade, uma mistura de mitos pagãos. A teoria alega que há um grande número de paralelos entre Jesus e tais mitos, dos quais os que mais se destacam são: (1) o nascimento virginal; (2) o nascimento no dia 25 de dezembro; (3) a visita dos três reis magos no dia do nascimento; (4) o batismo aos trinta anos; (5) os 12 discípulos; (6) o título e a missão de salvador; (7) a morte na cruz; e (8) a ressurreição três dias depois.

Os principais personagens que supostamente dividem essas características com Jesus seriam os seguintes: Hórus e Osíris (deuses egípcios), Dionísio (um deus grego), Krishna (um deus hindu), Átis (um personagem da mitologia grega) e Mitra (um deus persa). Há também outros, que são citados por alto e que eu analisarei no final. Bem, o que estamos esperando? Vamos às análises.

1) Nascimento Virginal:

O documentário começa seu trabalho a partir do deus egípcio Hórus. A primeira afirmação é de que ele teria nascido de uma virgem. Nada mais mentiroso. O Hórus ao qual se refere o documentário era filho do casal de deuses Osíris e Isis. A história de sua concepção é mais ou menos assim: o bom deus Osíris foi enganado e morto pelo seu irmão Seth (que desejava o Egito para si). Seth cortou Osíris em 14 pedaços e escondeu cada pedaço em um local diferente. Então, Isis, esposa e irmã de Osíris procurou pelos seus pedaços e quando conseguiu reuni-los teve relações sexuais com ele ainda morto, ficando grávida. O filho que nasceu dessa relação foi Hórus.

Minha pergunta é: onde está aqui o nascimento virginal? Ok. Podemos dizer que foi um nascimento miraculoso, pois Osíris estava morto. Mas de forma alguma foi um nascimento virginal. Um antigo hino egípcio encontrado numa estela e datado de cerca de 1400 a.C. afirma que Isis “recebeu a sua semente [a semente de Hórus] e concebeu um herdeiro”. Um antigo relevo retrata Isis em forma de pássaro pousando sobre o pênis ereto de Osíris morto. O que isso tem a ver com virgindade? 

A afirmação de nascimento virginal também é feita sobre Atis, Krishna, Dionísio e Mitra. Mais mentiras. Com relação a Átis, não há nada na mitologia grega de afirme que a deusa Nana (mãe dele) era virgem quando concebeu Átis. O que pode ser visto é que a deusa concebeu a Átis por ter colocado uma romãzeira em seu seio. Embora isso seja um nascimento que não se dá através de relações sexuais, não temos como dizer que Nana não havia tido relações sexuais anteriormente. Afora isso, se a idéia é comparar Jesus a esses deuses, uma deusa que põe uma romãzeira no seio para gerar um filho é algo muito distante da concepção de Jesus por Maria.

Krishna, deus hindu, também não nasceu de uma virgem. Segundo o mito hindu, ele seria o oitavo filho do casal Devaki e Vasudeva. A diferença dele para os irmãos é que ele teria sido concebido por meio de uma transmissão mental de Vasudeva no ventre de Devaki. Um nascimento sem relações sexuais, mas que deixa claro que o deus hindu era filho legítimo de Devaki e Vasudeva. Isso difere bastante do nascimento de Jesus que, na verdade, não adivinha da união de José e Maria, mas provinha diretamente de Deus. 

O que ocorre com Krishna poderia ser comparado, por exemplo, a um nascimento por inseminação artificial, onde o filho nascido é mesmo do casal, mas não foi gerado pela relação sexual desses pais. Como se vê, isso em nada se assemelha ao nascimento virginal de Jesus. No nascimento de Jesus, Maria jamais havia tido relação sexual com homem algum e também seu filho não pertencia nem a ela nem a José. Maria foi apenas, por assim dizer, uma barriga de aluguel para Jesus.

Perceba que aqui existe uma confusão. Quem não é cristão costuma a pensar que Jesus era filho de Deus com Maria. Ao ouvir que Maria concebeu pelo Espírito Santo, o não-cristão é levado a pensar que o Espírito Santo copulou com Maria ou que o “sêmen” do Espírito Santo se uniu aos óvulos de Maria. Mas o que ocorreu não foi isso. Como já disse, Maria foi apenas uma barriga de aluguel. Ela concebeu Jesus, mas Jesus não era resultado de um “casamento” dela com Deus.

Continuando a lista, temos a alegação do nascimento virginal de Dionísio. Como na maioria dos mitos gregos, existem algumas versões diferentes para a história do nas-cimento desse deus. A mais antiga e conhecida é a seguinte: Um rei humano chamado Cadmo tinha várias filhas (também humanas). Uma delas se chamava Sêmele. Atraído pela beleza de Sêmele, o deus Zeus acabou enamorando-se dela. Como resultado, Zeus a engravidou de um filho. Este filho foi Dionísio. 

Em outra versão, menos antiga e já misturada a outros mitos, Zeus tem um filho de Perséfone, chamado Zagreu. A esposa de Zeus, Hera, com ciúmes de sua traição, manda os Titãs despedaçarem Zagreu e comerem seus pedaços. Mas Atena consegue resgatar o coração de Zagreu e entrega-o a Zeus. Este, por sua vez, prepara uma poção com o coração do filho morto e dá a Sêmele antes de engravidá-la (ao que tudo indica, uma forma encontrada de reviver Zagreu através do nascimento de um novo filho). Este filho novo é Dionísio.

Como se vê, em ambos as versões, não há nascimento virginal. Dionísio é fruto de uma relação sexual entre o deus Zeus e a humana Sêmele. Neste ponto, já é possível entender o motivo pelo qual o documentário entende alguns nascimentos como virginais sem que o tenham sido. A idéia é que um nascimento virginal seria a união entre dois deuses ou entre um deus e um humano. Essa idéia surge justamente da errônea interpretação de Jesus como sendo filho de Deus com Maria. Ora, se Jesus é filho de Deus com Maria mesmo, então quando a Bíblia diz que Maria era virgem, estava querendo dizer que quem tem relações sexuais com deuses é virgem. É por isso que Osíris e Dionísio são vistos pelo documentário como nascidos de uma virgem (ridículo, não?).

A última alegação quanto ao nascimento virginal seria a do deus Mitra. Aqui é constatada mais uma mentira. O deus Mitra sequer nasceu de mulher. Sua concepção se deu através de uma rocha, debaixo de uma árvore sagrada, próximo a uma fonte sagrada, conforme algumas imagens e alguns escassos textos antigos afirmam. Talvez devamos perguntar aos produtores do documentário se esses textos diziam que a pedra era uma pedra vigem...

Portanto, no que diz respeito ao nascimento virginal, o que vimos até aqui em nada se parece com o nascimento de Jesus. O nascimento virginal de Jesus pode ser resumido em três aspectos básicos: (1) uma mulher virgem que dá a luz um filho; (2) este filho não provém de nenhum tipo de união dessa mulher com Deus ou com o homem ou com alguma coisa; é um filho que não provém de união com nada, pois na verdade ele é parte do próprio Deus. Seu nascimento humano não é o começo de sua existência como ser, mas apenas a sua transformação em ser humano desde o primórdio da vida de todo o ser humano; (3) essa mulher simplesmente serve de barriga de aluguel.

Veja que nenhum desses aspectos básicos pode ser visto no nascimento desses deuses citados pelo documentário Zeitgeist. Os deuses Hórus e Dionísio nasceram através de relações sexuais. Krishna nasceu através de uma relação mental entre um casal, o que nós poderíamos chamar de “inseminação mental”. Átis só nasceu porque Nana pôs uma romãzeira em seu seio (ou seja, ele era produto dessa estranha união). Mitra nasceu de uma pedra. Enfim, os nascimentos desses deuses são tão diferentes do nascimento de Jesus que qualquer tentativa de comparação é forçosa.

2) Nascimento no dia 25 de Dezembro:

Um segundo paralelo entre Jesus e os deuses mitológicos seria o nascimento no dia 25 de dezembro. Talvez esse seja o ponto mais ridículo do documentário. O motivo é simples: Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro de verdade. Esta é uma informação tão conhecida por mim e por amigos e colegas meus que eu pensava mesmo que todos soubessem desse fato. Parece que me enganei.

O dia 25 de dezembro é o dia em que se comemorava o nascimento de Mitra no paganismo. Como no terceiro século muitos pagãos cultuavam esse deus, uma estratégia da igreja católica para aproximar os pagãos do cristianismo foi adotar a data como data do nascimento de Jesus também.

Não somente o dia 25 de dezembro foi adotado, mas também costumes, trajes, culturas e artes pagãs. Tudo numa tentativa de unir cristãos e pagãos em uma só fé. É justamente por isso que começam a surgir, nessa época, descrições dos antigos deuses com muitas semelhanças a Jesus. O sincretismo impulsionado pela igreja cristã e aceito pelas religiões pagãs modificou as antigas mitologias, que passaram a agregar aspectos cristãos. Ao mesmo tempo, embora preservando sua fé principal em Jesus, os cristãos também agregaram muitos aspectos pagãos a sua fé. A oficialização do primeiro dia da semana (dia de Mitra) como dia sagrado do cristianismo, foi um desses aspectos. O dia sagrado do Deus judaico-cristão, na verdade, é sábado e não domingo.

Quanto à data verdadeira do nascimento de Jesus, ninguém sabe ao certo. Mas acredita-se que ele tenha nascido entre os meses de setembro e outubro. A razão para isso é que Jesus morrera na páscoa judaica que é comemorada no mês que corresponde a Abril para nós. Como Jesus Cristo tinha mais ou menos 33 anos e meio na época de sua morte, então faltavam cerca de 6 meses para o seu aniversário. Em outras palavras, Jesus teria nascido em outubro. Considerando uma margem de erro de 30 dias para mais ou para menos, então temos que Jesus nasceu entre o início do mês de setembro e o fim do mês de outubro (em nosso calendário).

Portanto, vemos aqui que mais uma vez não existe paralelo entre Jesus e outros deuses. Mais uma vez o documentário mostra sua total falta de conhecimento ou, mais provavelmente, seu total comprometimento com a distorção dos fatos.

3) Os três reis magos:

Um terceiro suposto paralelo mostrado pelo documentário seria a existência de 3 reis adorando cada um desses deuses quando recém-nascidos. Sobre isso, existem dois pontos básicos a serem discutidos. O primeiro é o seguinte: em nenhum local da Bíblia há uma menção a três reis adorando Jesus após seu nascimento. A narrativa bíblica dos magos que foram visitar o menino Jesus Cristo se limita a dizer que “vieram uns magos do oriente” (Mateus 2:1). Em nenhum momento a passagem fala que esses magos eram reis ou que eram em número de três.

Eu não sei ao certo porque a cultura popular chama os magos de reis, mas eu sei que se trata de tradição cultural e não de relato bíblico. Quanto ao número dos magos, a igreja católica sempre presumiu que foram três por associar os magos aos presentes que deram a Jesus (ouro, mirra e incenso – cada um teria dado um desses). Mas a Bíblia sequer afirma que foram três os presentes. É possível que tivessem vários magos (talvez quatro, cinco, seis ou dez) todos eles com ouro, incenso e mirra ou alguns com ouro, outros com incenso e outros com mirra. Não necessariamente havia um presente de ouro, um vaso de mirra e um só incenso (o que seriam três presentes).

Enfim, nada na narrativa garante que eram três magos e que esses magos eram reis. Isso já destrói todo o “paralelo”. Mas não acaba aí. Devemos salientar que a Bíblia também não diz que esses magos seguiam a estrela Sírius, como o filme tenta induzir o espectador a acreditar. A Bíblia deixa claro que a estrela seguida pelos magos era uma estrela nova e diferente. Afinal de contas estrelas não se movimentam e, por isso, não podem guiar ninguém a lugar nenhum. Mas essa guiava. Então, não era a estrela Sírius nem qualquer outra estrela conhecida. Era uma estrela inteiramente nova e diferente.

Outro aspecto interessante é que a narrativa bíblica não fala que os magos foram adorar Jesus logo que ele nasceu. A visão popular dos magos presenteando Jesus em um presépio, no meio de vários animais, algumas horas depois de seu nascimento, é apenas folclore. A narrativa bíblica mostra que os magos vinham de muito longe e que seguiam a estrela a cerca de dois anos (Mateus 2:16). Ou seja, quando os magos finalmente che-garam a Belém, Jesus já tinha dois anos de idade. Isso fica bem claro em Mateus 2:11, que diz que os magos entraram em uma casa (e não em um estábulo).

Portanto, o que temos até aqui sobre o nascimento de Jesus é que ele não nasceu no dia 25 de dezembro, não foi apontado pela estrela Sírius e não teve 3 reis adorando-o momentos depois de seu nascimento. Quer dizer, todos os paralelos alegados entre Jesus e outros deuses no que tange ao nascimento, não existem.

O segundo ponto a ser discutido é o seguinte: não há menção alguma, em relatos antigos, a três reis adorando os próprios deuses pagãos em seu nascimento. Descrições como essas, ou melhor, imagens, só aparecem depois do terceiro e quarto século d.C., quando o paganismo começou a sofrer forte influência cristã. Contudo, estas imagens não nos servem para resgatar as crenças antigas das religiões pagãs. A nós, na função de historiadores, importa-nos somente imagens e manuscritos datados de centenas de anos antes de Cristo e não imagens e manuscritos datados de centenas de anos depois.

4) Batismo aos 30 anos:

Em algumas religiões sempre foi comum encontrar cerimônias de purificação e/ou de iniciação na religião. Por esse motivo, é possível achar em algumas delas rituais que utilizavam banhos de água ou de outro líquido. Ora, nada melhor para simbolizar uma purificação e iniciar uma pessoa em um novo sistema de crenças do que um banho, sobretudo um banho com água. A água é um símbolo de pureza. Assim, não é surpreendente que a cerimônia usada pelo cristianismo para simbolizar a aceitação de Jesus pelo cristão tenha relação com a água.

Isso não prova que o cristianismo é um plágio de outras religiões, mas somente evidencia que a água e o banho sempre foram vistos pelas pessoas como bons símbolos de pureza. E isso acabou sendo refletido em rituais de algumas religiões. Então, pouco importa se antes do batismo cristão existiam rituais parecidos que envolviam imersão e água ou se não existiam.

Agora, nem era necessário eu falar sobre isso. Afinal de contas, não há fontes de centenas de anos antes de Cristo que comprovem a alegação de que alguns deuses do paganismo passaram por uma cerimônia de purificação semelhante ao batismo na idade de trinta anos. Para não me tornar repetitivo, vamos deixar clara uma coisa aqui: textos e imagens de séculos posteriores a Cristo que trazem paralelos entre Cristo e deuses pagãos não nos servem para nada. Se alguém quer insistir nesses paralelos, deve mostrar as fontes antigas, isto é, que datam de séculos antes de Cristo.

Posso dar exemplos: tudo que sabemos sobre a história original de Osíris, Isis e Hórus estão no Livro dos Mortos, nos Textos da Pirâmide e em algumas estelas (tal como a Estela de Matternich, por exemplo). Tudo o que sabemos sobre Zeus, Hércules e Dionísio estão em obras como Ilíada e Odisséia de Homero, Teogonia e O Trabalho e os Dias de Hesíodo e etc. São esses documentos que importam para o nosso estudo, porque são datados de muitos séculos antes do nascimento de Jesus. 

Curiosamente, Zeitgeist não faz citações diretas a essas fontes. Curiosamente, as alegações de nascimento virginal no dia 25 de dezembro, dos três reis adoradores, do batismo aos trinta anos, dos 12 discípulos, da morte na cruz e da ressurreição ao terceiro dia não aparecem nesses documentos antigos. Eu dei os nomes. O leitor pode procurar se quiser. Verá que não há nada disso nas mitologias clássicas. 

5) Os 12 discípulos:

Como já disse, não se encontra isso nas fontes antigas. Tanto que se você fizer uma pesquisa na internet ou em qualquer livro de mitologias egípcia, grega e etc., não encontrará essa informação. Aliás, vale salientar que os deuses dos mitos pagãos jamais foram descritos como mestres, mas sim como deuses. Por esse motivo, seus seguidores geralmente eram guerreiros, ferreiros e semideuses, não “discípulos”. É o caso de Hórus que era, reconhecidamente, um deus guerreiro, que tinha um exército e que lutava para vingar a morte de seu pai, o deus Osíris.

Talvez o único deus que se encaixe na categoria de “mestre” seja Osíris. Antes de ser morto por Seth, ele tinha o costume de ensinar artes e práticas de cultivo para os egípcios, segundo a mitologia. Só que ele ensinou isso para toda a nação e não apenas para um grupo de discípulos. Não há referência a um grupo seleto de 12. E muito menos a descrição de Osíris como mestre. 

Aliás, por falar em mestre, é interessante ressaltar que Dionísio em vez de ser um mestre e/ou de ser conhecido como tal, ele tinha um mestre. Seu nome era Sileno e ele ensinou a Dionísio o cultivo da vinha, a poda de galhos e a fabricação de vinho, o que fez com que Dionísio se tornasse o deus do vinho. Dionísio também tinha alguns companheiros. Não eram discípulos, mas colegas que desfrutavam do vinho juntamente com ele, tais como ninfas e centauros. Não há menção ao numero doze...

Outro ponto importante é notar que boa parte dos deuses mitológicos eram tão ou mais pecadores que nós, humanos. A mitologia grega, por exemplo, oferece um panorama bem feio de como eram os deuses: brigões, beberrões, lascivos, excessivamente ciumentos, injustos e, sobretudo, egoístas. É improvável que eles fossem chamados de mestres com semelhante caráter e com sua indiferença quanto ao ser humano.

6) O título e a missão de Salvador:

O título e a missão de salvador do mundo são aspectos totalmente incompatíveis com estes deuses. Em todas as mitologias pagãs, deuses são apenas seres poderosos que governam o mundo (ou parte dele) e que em algum momento disputam entre si o poder (ou outra coisa em que tenham interesse). A idéia de um salvador e, principalmente, de um redentor que sacrifica sua vida em prol dos humanos não provém dessas mitologias.

Tomemos como exemplo o mito de Osíris. Ele não sabia que iria morrer. Nunca foi sua intenção morrer pela humanidade (ao contrário de Jesus). Sua morte foi um azar em sua vida, um acontecimento inesperado e não o cumprimento de uma missão pré-estabelecida com o fim de salvar o homem. Osíris simplesmente vivia tranqüilamente quando foi pego de surpresa por Seth, que o matou e cortou em 14 pedaços. Não há um plano pré-estabelecido de redenção, salvação e purificação do homem aqui. Há apenas um homicídio inesperado. 

O mesmo pode-se dizer de Hórus, Átis e Krishna. Nenhum desses pretendia dar a vida pela humanidade ou sequer sabia que iria ser morto. Hórus morreu ainda criança, ao ser picado por escorpiões. Átis se matou, após ser enlouquecido pela deusa Cibele, que ficou irada ao saber que ele havia quebrado seu voto de fidelidade a ela. Krishna morreu com uma flechada de um caçador chamado Jara (numa floresta) que o confundiu com um animal.

Portanto, as mortes desses deuses não ajudaram o homem a conseguir renovação espiritual ou salvação. Não houve sacrifício vicário, nem redenção e muito menos uma salvação através da morte de tais deuses. Mais uma vez: as mortes desses deuses foram azares e não o cumprimento de uma missão de salvação da humanidade. E, vale dizer que não se encontra em fontes antigas o título de salvador para tais deuses.

7) A crucificação:

A idéia de que tais deuses foram crucificados talvez seja a maior falsificação que o documentário fez. Em primeiro lugar, não há fontes antigas que afirmem isso e nem poderia haver. Os primeiros relatos de crucificação de criminosos só surgem na Pérsia, quase mil anos após o surgimento do deus Mitra. E ela só chega ao Egito por meio de Alexandre o Grande, quando o mito do deus Hórus já existia há séculos. Como, então, esses deuses teriam sido crucificados, se não havia esse tipo de condenação quando tais mitos foram elaborados? Note que não há citação, por parte do documentário, aos documentos que trazem essas informações...

Em segundo lugar, o documentário ignora a história mitológica clássica desses deuses pagãos. Osíris foi morto por Seth da seguinte maneira: Seth o convenceu a entrar em um sarcófago em uma festa. Tendo ele entrado, Seth fechou o sarcófago e o jogou num rio. Osíris teria sido morto sufocado, portanto. Como Isis encontrou o seu corpo e o levou consigo, Seth foi atrás de Isis, roubou o defunto e o cortou em 14 pedaços para que Isis não o ressuscitasse por meio de algum feitiço.

Hórus, em algumas tradições, é morto ainda quando vivia com a mãe, escondido de seu tio Seth, o que indica que ele ainda era criança, não tendo ainda idade para se tornar o vingador de seu pai. A tal morte ocorre assim: Seth descobre o esconderijo de Hórus e sua mãe e vai atrás deles. Na fuga, Hórus é picado por um escorpião a mando do próprio Seth, vindo a falecer. O seu retorno vida ocorre um tempo depois por meio de um feitiço feito por Isis, Néftis, Rá e Tot.

Em outras tradições, a morte de Hórus só vem a ser narrada quando ele se funde com o deus-sol Rá, passando a “morrer” em todo o pôr do sol (o documentário chega a mostrar isso). Uhn... Átis, como já vimos, cometeu suicídio. Para ser mais exato, ele se emasculou e depois se matou. Krishna foi morto pelo caçador Java, como também já vimos. Bem, não vejo nenhuma crucificação aqui. O leitor vê? 

Mas o que dizer de toda aquela história do zodíaco, do sol “morrer” por três dias na constelação da crux (alpha crucis) e blá blá blá? Tudo enfeite. O que o documentário tenta fazer é uma analogia entre a astrologia e Jesus para poder sustentar o argumento de que a idéia de crucificação advém de um mito. O problema é que isso não encontra suporte em documentos antigos da mitologia e esbarra no problema de que a cruz era uma condenação real e não um mito astrológico. A arqueologia e a história constatam a existência dessa condenação do quarto século antes de Cristo até o quarto século depois de Cristo (aproximadamente).

Aliás, a idéia de que Jesus é um tipo de deus-sol não passa de uma invenção de Zeitgeist. É o próprio documentário que conclui isso de antemão, arbitrariamente, para começar a montar os argumentos. Desfaça a idéia de que Jesus Cristo é o sol e todo o argumento da analogia astrológica cai por terra.

8) Ressurreição (três dias depois):

No que diz respeito à ressurreição desses deuses, duas observações precisam ser feitas aqui. A primeira é que nas religiões pagãs era comum que se adorassem deuses que morriam e reviviam continuamente. Estes deuses eram símbolos de ciclos naturais, como a colheita. Em época de seca, por exemplo, dizia-se que o deus da colheita estava morto e ao término da seca, dizia-se que ele estava revivendo. Isso nada tem a ver com a idéia de ressurreição da Bíblia, na qual uma pessoa de carne e osso morre fisicamente e depois retorna à vida, com o mesmo corpo, só que restaurado. Muito menos tem a ver com a ressurreição de Jesus, que foi um evento único (não um evento que se repete de tempos em tempos em ciclos da natureza).

Ora, mesmo após alguns desses deuses de ciclos naturais ganharem uma história e uma “existência” menos metafórica (o que não anula a metáfora dos ciclos naturais, como pudemos ver na fusão do deus Hórus com o deus-sol Rá), suas ressurreições ainda assim se diferem muito da ressurreição de Jesus. Essa é a segunda observação.

A começar por Osíris, o que temos não é uma ressurreição nos moldes bíblicos, nos quais a pessoa torna à mesma vida, no mesmo mundo e no mesmo corpo físico que ela tinha antes de morrer. Osíris torna à vida com um corpo remendado e mumificado, e não no mesmo mundo e na mesma vida, mas no mundo dos mortos. 

No entendimento pagão a morte não é o fim da existência e da consciência, mas o fim da existência nessa terra com o corpo que se tinha anteriormente. O fato de Osíris viajar para o mundo dos mortos, passando a habitar lá significa, segundo essa linha de pensamento, que ele estava morto. Quem está no mundo dos mortos está morto. Nesse sentido, Osíris não ressuscitou, mas ganhou existência no mundo dos mortos. 

Veja que não estou tentando distorcer os termos, mas simplesmente ser coerente com essa visão pagã de que morrer é “passar a viver” no mundo dos mortos. E se Osíris passou a viver lá, em um estado mumificado, em vez de tornar ao mundo dos vivos, em seu estado anterior, é porque Osíris permaneceu morto. Em contraponto, Jesus torna à vida no mesmo mundo de antes (o dos vivos) e no mesmo corpo físico de antes (embora, restaurado). Não dá para dizer que são duas “ressurreições” iguais. 

Hórus, em sua fusão com o deus-sol Rá, também não pode ter sua “ressurreição” comparada a de Jesus, já que sua ressurreição não é o retorno de um ser humano à vida, mas simplesmente o “nascer” do sol de cada manhã. Se considerarmos as tradições que afirmam que Hórus morreu e foi ressuscitado quando criança, tudo bem, até temos uma ressurreição semelhante a dos moldes bíblicos. Mas ainda assim, compará-la a de Cristo não deixa de ser uma comparação forçada.

Jesus, ao contrário de Hórus, sabia desde o início que iria ressuscitar, porque tal fato era parte dos planos de salvação de toda a humanidade. Jesus era o Senhor de sua morte e de sua ressurreição. Era o Senhor de seu destino. Já Hórus, morreu sem querer, fugindo de Seth, picado por um escorpião. Só voltou ao mundo dos vivos por um feitiço e sua ressurreição nada teve a ver com a salvação da humanidade. Na verdade, a missão de Hórus sempre foi inteiramente pessoal: ele queria vingar a morte do pai. Assim, sua ressurreição não é uma esperança para a humanidade, mas sim uma esperança para a sua vingança pessoal.

Isso mais uma vez deixa claro a diferença entre um “salvador da humanidade” e um deus pagão. Deuses pagãos tinham muito mais interesses pessoais do que interesse na salvação do ser humano. Até porque o conceito de salvação pagão nunca foi parecido com o conceito de salvação cristão. 

Para algumas religiões pagãs, a salvação era questão de mérito: ia para um bom lugar quem fazia boas coisas ou que conseguia convencer o deus que o julgaria. No Egito, por exemplo, os faraós mandavam pintar as paredes das pirâmides com boas obras de sua vida (mesmo que elas não tivessem ocorrido). Acreditava-se que Osíris iria olhar essas obras em seu julgamento. Quando faraó morria, seus sacerdotes procuravam tirar o coração de seu corpo e trocá-lo por um “coração” de pedra, porque também era crença dos egípcios que Osíris pesaria as maldades do coração em uma balança (e um coração de pedra não tinha maldades).

Para outras religiões pagãs, não existia conceito de salvação. Ao morrer, a alma (ou espírito) de uma pessoa podia vagar por aí e/ou “transmigrar” para um novo corpo, nascendo de novo. Gregos e romanos creram nisso durante um bom tempo. Não é à toa que os deuses gregos e romanos pouco se importavam com o homem ou como ele vivia aqui na terra. Não havia conceito de pecado.

Ainda para outras religiões pagãs, tudo o que o ser humano precisava fazer era agradar os deuses com sacrifícios de sangue e a adoração de esculturas representativas desses deuses, bem como construção de templos para os mesmos. Fazendo essas coisas, podia-se viver como quisesse e crer em uma boa vida após a morte.

O cristianismo quebra radicalmente com todas essas crenças. A salvação não se alcança por mérito próprio (embora devamos fazer o bem), mas pelo favor divino que é concedido a quem aceita o sacrifício vicário de Cristo e sua ressurreição. Também não há transmigração de almas (reencarnação) no cristianismo. E embora as doutrinas pagãs da imortalidade da alma e da existência em um mundo dos mortos (leia-se inferno) tenham infectado a religião cristã, a Bíblia também não afirma essas crenças. 

A doutrina bíblica diz: todos morrem e perdem a consciência. A vida volta para Deus, o corpo estraga na terra. Mas para quem depositou sua fé no sacrifício de Jesus e procurou viver segundo seu exemplo, haverá uma ressurreição corporal, tal como a que ocorreu com Cristo. Assim, a morte e a ressurreição de Cristo resumem todo o plano de Deus e seu interesse em salvar o ser humano da morte eterna. Não há precedentes desse plano e desse interesse na mitologia egípcia, grega ou hindu.

O que devemos manter em mente aqui é que o simples fato do deus Hórus ter ressuscitado não é suficiente para compará-lo a Jesus. Por exemplo, eu, Davi, nasci no dia primeiro de agosto de 1993, às 9h da manhã. Este fato consta na minha certidão de nascimento. Mas o simples fato de eu ter nascido nessa data e hora não é suficiente para dizer que qualquer certidão que contenha essa mesma data e hora seja uma mera cópia da minha certidão. É óbvio que outras pessoas pelo mundo também nasceram quando eu nasci. Elas têm outros nomes, outros pais, outra família e outras características. Ignorar tantas outras diferenças substanciais, a fim de igualar nossas certidões seria absurdo, pra não dizer idiota. O mesmo se dá no que diz respeito à ressurreição.

As diferenças continuam com Átis e Krishna. Átis se matou por desgosto. Não pretendia ressuscitar e nem tinha esse poder. Quem o faz ressurgir é a deusa Cibele, que o havia enlouquecido. Em algumas versões, ele ressurge como uma árvore e, em outras, como um ser esquisito que só conseguia movimentar um dedo. Ambas as ressurreições se assemelham muito mais à reencarnação, onde o morto retorna como outro ser, do que à ressurreição bíblica.

Krishna, após ser acertado por uma flecha pelo caçador Java, sobe para a morada celestial. Em algumas versões, o caçador vai até Krishna e pede perdão por acertá-lo, ao que o deus hindu responde que não havia problema, pois em uma encarnação passada, ele (Krishna) havia matado o caçador Java (que se chamava Vali) e agora Java podia se vingar de sua morte passada. Outras versões ainda enfatizam que Krishna é inteiramente espiritual e que apenas se diverte vindo a terra com aparência física. Assim, Krishna não nasceria nem morreria fisicamente, mas apenas pareceria nascer e morrer.

Mais uma vez não há aqui nada que se pareça com a ressurreição de Cristo. Não há, em nenhuma dessas mitologias, um deus que definitivamente apresenta um plano de salvação e redenção da humanidade pré-estabelecido, no qual sua morte já é conhecida por ele e no qual sua ressurreição é um retorno à mesma vida, ao mesmo mundo e ao mesmo corpo físico (embora restaurado), sendo este um evento único e de importância crucial para a ressurreição do ser humano.

Bem, quanto à ressurreição três dias depois, isso não existe em nenhum registro antigo dos deuses pagãos. Isso é apenas reflexo da própria influência do cristianismo no terceiro e quarto século, sobretudo, após a conversão de Constantino. Muitos rituais do paganismo passaram a agregar elementos cristãos. Por exemplo, a ressurreição de Átis se populariza como um ritual de comemoração após o ano 150 d.C. E é após o ano 300 que surge a tradição de se enterrar a árvore que representava Átis e retirá-la à noite para que pela manhã fosse comemorado o “túmulo vazio” e a “ressurreição”. É baseado nesse tipo de descrições tardias, repletas de sincretismos evidentes, que o documentário apóia muitos de seus argumentos.

Outras comparações:

Zeitgeist não pára por aí. Ao terminar de detalhar esses paralelos principais, o documentário ainda menciona de maneira bem rápida alguns outros e depois afirma com as seguintes palavras: “O que importa salientar é que existiram inúmeros salvadores que preenchem essas mesmas características”. E então aparece no vídeo uma lista com dezenas de nomes. Eu fiz questão de pausar o vídeo e anotar cada um dos nomes. Entre eles, se destacam Buda (Sidarta Gautama), Odin, Thor, Baal e Tamuz.

Uma pesquisa rápida sobre esses cinco personagens revelam fatos interessantes para o nosso estudo. Buda não foi um salvador, pois o budismo não apresenta qualquer doutrina de salvação. Para o budismo, sequer existe o conceito de um Deus ou de deuses, mas sim o de um universo ateísta revestido de um sentido espiritual. A encarnação é um pilar do budismo, o que já torna desnecessário qualquer doutrina de salvação. 

Buda também não nasceu de uma virgem. Maya, a mãe de dele, era casada com Suddhodana, seu pai, e ele nasceu como uma criança normal. Buda não começou seu ministério com 30 anos, mas com 29 (puxa vida!). Buda não tinha doze discípulos, mas apenas cinco. Buda não foi batizado. Buda não era um deus. Buda não morreu na cruz e também não ressuscitou quando morreu. Ele morreu com oitenta anos e seu corpo foi cremado por seus amigos, à pedido de Ananda, seu discípulo favorito.

Odin e Thor são deuses nórdicos. Odin não é filho de uma virgem, mas procede da união dos deuses Borr e Bestla. Thor é filho de Odin com a deusa Jord. Ambos são deuses guerreiros e não “salvadores da humanidade”. Em uma luta épica contra deuses maus, Thor morre tentando matar uma serpente gigante e Odin é morto e devorado por um lobo de nome Fenrir. Não há crucificação nos relatos.

Baal foi um deus adorado por cananeus, filisteus, sumérios e acádios. Também foi chamado de Adad, Sin, Ishtar e Shamash. Ele era o deus da fertilidade, de maneira que seus sacerdotes e sacerdotizas costumavam ter relações sexuais dentro do templo como parte do culto. Pouco se sabe sobre a história desse deus, mas um fato curioso é que a adoração desse deus era comum nas imediações de Israel, o que diversas vezes fez com que os alguns israelitas se desviassem, adorando-o também. Por isso, sua adoração é condenada em diversas passagens da Bíblia.

Tamuz foi um deus de origem síria, que posteriormente foi adotado na Grécia com o nome de Adônis. Ele era um deus da colheita que representava todo o ciclo de vegetação e as estações do ano. Ao ser acoplado pela mitologia grega, sua história foi incrementada. Segundo esta, Adônis nasceu de uma relação incestuosa entre um rei de nome Cíniras e sua filha Mirra (ou seja, ele não nasceu de uma virgem e, na mitologia grega, não era nem um deus). Tendo um caso com a deusa Afrodite, Adônis foi morto por Ares, deus da guerra, que era outro amante de Afrodite.

Indo para o mundo dos mortos, Adônis tem um caso com a deusa Perséfone, que era esposa de Hades, deus dos mortos. A partir daí, Afrodite e Perséfone disputam entre si o rapaz. A disputa tem fim quando Zeus intervém e estabelece que Adônis ficaria em parte do ano com Afrodite e em outra parte com Perséfone. Assim, no inverno, Adônis descia para o mundo dos mortos para ficar com Perséfone e na primavera ele subia para ficar com Afrodite (o ciclo de vegetação e estações, lembra?). 

Fato curioso é que a Bíblia também cita a adoração ao deus Tamuz, no Antigo Testamento, e a condena da mesma forma como faz com a adoração ao deus Baal. Isso é curioso, já que o documentário afirma que todos esses deuses foram copiados. De fato, as religiões pagãs acoplavam os deuses de outras religiões, mas não é isso que se vê na Bíblia, quando outros deuses são citados. Nenhum deus pagão é acoplado à Bíblia e a adoração a eles não é permitida.

Mas, enfim, como o leitor pode perceber, nenhum desses personagens pode ser chamado de “salvador da humanidade”. Nenhum deles nasceu de uma virgem. Nenhum deles sabia quando e como iria morrer. Nenhum deles foi crucificado. Nenhum deles ressuscitou no terceiro dia. Nenhum deles salvou a humanidade. A enorme lista é posta no vídeo apenas para enganar gente imbecil. 

Bem, o documentário ainda faz muitas outras alegações estapafúrdias que irei refutar nas próximas postagens. Por hora, a gente fica por aqui. Espero não ter deixado nenhuma alegação de fora de nossas análises. Na continuação da série, vamos continuar destrinhando Zeitgeist.
_________________________________
Bibliografia:
1. Groger, Renato. Osíris e Hórus: Protótipos do Jesus da fé? -Artigo presente no seguinte link:
2. Craig, William Lane. Jesus e a mitologia pagã - Artigo presente no seguinte link:
3. Garner, Marina. Jesus Cristo: um plágio? - Artigo presente no link:

http://www.perguntas.criacionismo.com.br/2010/06/jesus-um-plagio.html

4. Born, Guilherme. Jesus: um plágio? - Artigo presente no link:

http://www.dc.golgota.org/estudos/plagio.html

5. J. P. Holding. Andando como um Egípcio - Artigo presente no link:
6. Rodrigues, Zwinglio Alves. O Cristianismo e as Religiões de Mistérios Pagãs - Artigo presente no link:
7. Nash, Ronald. O Novo Testamento foi influenciado pelas religiões pagãs? - Artigo presente no link:
8. Mitologia egípcia. O Livro dos Mortos. Presente no link:
http://www.4shared.com/office/6mHXxVeg/O_Livro_dos_Mortos__Papiro_de_.html
9. Mitologia egípcia. Textos da Pirâmide. Presente no link:
10. Mitologia egípcia. Textos do Sarcófago. Presente no link;
11. Homero. Ilíada. Presente no link:
12. Homero. Odisséia. Presente no link:
13. Hesíodo. Teogonia. Presente no link:
14. Hesíodo. O Trabalho e os Dias. Presente no link:
15. Wikipédia
16. Moraes, José Geraldo de. Caminhos das Civilizações. São Paulo: Editora Atual, 1993.
17. Cáceres, Florival. História Geral. São Paulo: Moderna, 1996.
18. Burns, Edward McNall. História da Civilização Ocidental. Porto Alegre: Editora Globo, 1978.
19. Costa, Flávio Moreira da. Os Grandes Contos Populares do Mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.