quarta-feira, 25 de junho de 2014

Palestra de lançamento do livro "Supostamente Cruel"

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25 personalidades que começaram do zero e se tornaram empresários de sucesso

18 comentários:
Eis uma lista de 25 personalidades que começaram do nada e se tornaram empresários de sucesso. Ao fim da lista, fiz alguns comentários sobre as lições que podemos extrair da mesma.

1) Ralph Lauren 


Hoje bilionário, Lauren uma infância difícil. Filho de um pintor de paredes, nasceu em 1939 e se criou no bairro barra-pesada do Bronx, em Nova York. No colégio, para ganhar algum dinheiro, vendia gravatas para seus colegas. Chegou a sofrer bullying, em função de seu sobrenome, Lifshit (que soa como um palavrão, em inglês), o que o levou a mudar de nome posteriormente. Serviu ao exército de 1962 a 1964. Após o serviço militar, ele trabalhou como balconista e, depois, novamente como vendedor de gravatas. Foi quando percebeu a vaidade enrustida dos homens de negócios, e de como havia uma clientela desejosa de novidades. Em 1967, lançou sua própria linha de gravatas, que se tornou um sucesso. No ano seguinte, criou sua primeira linha completa de moda masculina, mas a famosa camisa polo só seria criada em 1972. Hoje, sua fortuna é avaliada em 4,6 bilhões de dólares pela Forbes.

2) Edson Bueno


Nasceu na pequena cidade de Guarantã, interior de São Paulo. Com 5 anos de idade perdeu o pai. Por isso, teve que trabalhar desde pequeno, como engraxate para ajudar a família. Sua mãe era dona de casa e seu padrasto era caminhoneiro. Com dificuldades na escola, repetiu a quarta série quatro vezes. Sua vida começou a mudar quando sofreu um acidente e foi atendido pelo único médico da cidade. Se encantou pela profissão e, lutando contra todas as dificuldades se formou em medicina. Seu primeiro emprego foi no Hospital São José, em Duque de Caxias. O hospital era pobre e frequentemente deixava de pagar salário. Resolveu tornar-se sócio do hospital então e formou o embrião da Amil. Hoje, a operadora de planos de saúde é uma das maiores do país. Somente no terceiro trimestre de 2010, sua receita foi de 1,9 bilhão de reais. A cifra é 28 vezes maior que o PIB de Guarantã, sua cidade-natal.

3) Chris Gardner


Gardner nasceu em 1954, no Wisconsin. Não teve uma infância fácil. O pai já havia se separado de sua mãe antes de ele nascer, e seu padrasto, homem violento, freqüentemente agredia sua mãe, ele e seus irmãos. Na juventude, quis ser médico e chegou a trabalhar como assistente de pesquisa na Universidade da Carolina. Mas, percebendo que não conseguiria cursar medicina, foi trabalhar como vendedor de equipamentos médicos. Com um filho pequeno, buscou um novo emprego para aumentar a renda e, encontrou um corretor de valores bem vestido saindo de uma Ferrari vermelha. Empolgado com a profissão, inscreveu-se no programa de trainees, viu a mulher abandoná-lo, perdeu sua casa e passou a morar em abrigos para sem-tetos. Contratado, iniciou uma trajetória que desembocaria na sua própria corretora, a Gardner Rich, em Chicago. A história de Gardner inspirou o filme À Procura da Felicidade, lançado em 2006 e estrelado por Will Smith.

4) Sérgio Amoroso


Sérgio Amoroso começou em seu primeiro emprego aos 11 anos de idade, trabalhando como assistente de almoxarifado em uma fábrica de calçados na cidade de Birigui (SP). Seus pais haviam se mudado para a cidade, após sua pequena propriedade rural ter falido. Sete anos mais tarde, Amoroso se mudou para a São Paulo em busca de novas oportunidades. Dividindo o apartamento com alguns conhecidos, conseguiu sobreviver por oito meses, até que o dinheiro acabou. Passou fome vários dias até encontrar um emprego numa fábrica de embalagens de papelão. O futuro empresário cresceu na profissão até que a companhia pediu concordata, abatida pela crise econômica que sacudia o Brasil no início dos anos 80. Em 1981, Amoroso e alguns sócios alugaram um galpão na Zona Leste de São Paulo e montaram sua própria fábrica. Era o início do Grupo Orsa, hoje um dos maiores produtores de papel e celulose do país. O grupo faturou 378 milhões de dólares em 2009, segundo a edição especial MELHORES E MAIORES de EXAME.

5) Larry Ellison


Antes de passar a ter uma fortuna de 28 bilhões de dólares, Larry Ellison também teve seus dias de contar centavos. Ele nasceu em Nova York, de uma mãe solteira que não quis criá-lo e o deu para um casal de tios que morava em Chicago. Em meio às dificuldades, conseguiu cursar dois anos da Universidade de Illinois e apenas um semestre da Universidade de Chicago. Quando sua mãe adotiva morreu, Ellison se mudou para a Califórnia, onde teve uma série de empregos simples durante quase dez anos. Em 1977, fundou uma companhia de desenvolvimento de softwares – sim, nascia a Oracle, hoje uma das maiores empresas de tecnologia do mundo.

6) Thai Quang Nghia


Foi um petroleiro da Petrobras que deu um novo rumo à vida do vietnamita Thai Quang Nghia. Em 1979, com 21 anos, ele foi encontrado à deriva no Oceano Pacífico junto com mais nove pessoas que fugiam da ditadura de seu país-natal. Resgatado pelo navio, chegou ao Rio de Janeiro sem falar português e foi morar nas favelas da cidade para, depois, se mudar para albergues paulistanos. Durante todo esse tempo, sua única renda eram os 50 dólares mensais que recebia da ONU como auxílio a refugiados. Thai aprendeu nosso idioma lendo dicionários de francês-português em bibliotecas públicas. Em 1986, animado com o lucro que obteve ao vender um lote de bolsas que havia recebido como pagamento de uma dívida, contratou costureiras e começou a fabricar suas próprias bolsas. Era o começo do Grupo Domini. A grande virada veio em 2003, quando voltou de uma viagem ao Vietnã com uma lembrancinha – uma miniatura de sandália dos tempos da guerra. O calçado era feito com sola de borracha de pneus usados. Sim, é o mesmo princípio da sandália Góoc, hoje o principal produto do Grupo.

7) Howard Schultz


Schultz cresceu em um conjunto habitacional do Brooklyn, enquanto seu pai trabalhava como operário em sucessivos empregos. O empresário só conseguiu cursar a faculdade porque conseguiu uma bolsa para o time de futebol. Seu primeiro emprego foi na Xerox, em 1979, mas as copiadoras não eram o futuro de Schultz. A virada começou quando ele foi contratado pela fabricante suíça de máquinas de café Hammarplast. Foi ali que ele conheceu uma pequena rede de cafeterias de Seattle – a Starbucks. Em 1987, Schultz comprou a empresa por 3,8 milhões de dólares. Nos anos seguintes, transformou a Starbucks na maior rede de cafés do mundo, com 17.000 lojas em 49 países e um faturamento de 10 bilhões de dólares. Presidente do conselho de administração e da diretoria executiva, Schultz embolsou 130 milhões de dólares apenas em salários e bônus nos últimos cinco anos.

8) Marco Franzato


Até os 16 anos, Marco Franzato havia cursado apenas o ensino fundamental. Sua principal ocupação era ser boia-fria, colhendo café no interior do Paraná ao lado do pai. Quando uma forte geada destruiu as lavouras da região, a família se mudou para Cianorte em busca de emprego. Conseguiu com o padrinho uma vaga como ajudante em um escritório de contabilidade. Depois de voltar aos estudos e já casado, Franzato decidiu abrir uma confecção com ajuda da mulher e de alguns amigos, apostando no seu tino como administrador, no bom gosto da esposa e nas habilidades da cunhada, que era modelista. O primeiro salão que alugaram tinha 80 metros quadrados. Hoje, o Grupo Morena Rosa possui quatro marcas. Somente a sede conta com 5.000 metros quadrados. Em 2009, a empresa faturou 200 milhões de reais.

9) Alberto Saraiva


Nascido em Veloza, uma aldeia simples de Portugal, os pais de Saraiva foram para o Brasil em busca de melhores condições. Morando em uma casa muito humilde, seu pai comprou uma padaria velha e muito ruim. No entanto, com menos de um mes, dois assaltantes mataram seu pai e ele se viu obrigado a assumir o negócio. Teve que mergulhar de cabeça e transformou um lugar quase falido na melhor padaria da região. Nessa época, conseguiu tirar a família do sufoco financeiro em que viviam e aprendeu a estratégia que se tornou fundamental no seu negócio atual – vender a preços “extremamente baratos”. Hoje, no comando de uma empresa com faturamento de 900 milhões de reais, ele é um exemplo da amplitude da mobilidade social no Brasil – termo capaz de resumir o fato de que, apesar do enorme fosso entre ricos e pobres, o país é um dos que oferecem melhores condições de ascensão econômica, mesmo em comparação com nações desenvolvidas.

10) Rolim Amaro


Para conseguir o brevê de piloto, seu sonho, Rolim Amaro abandonou o curso de contabilidade e se mudou para Catanduva (SP). Para bancar as horas de voo necessárias à habilitação, foi mecânico de automóveis, limpou aviões no aeroclube local e trabalhou como taxista. Conquistou seu brevê com 18 anos e tornou-se piloto de táxi aéreo. No final de 1963, foi contratado pela Transportes Aéreos Marília, uma empresa de táxi aéreo fundada por alguns pilotos e que operava aviões Cessna – os populares teco-tecos. Anos depois, Amaro comprou a empresa e a transformou no embrião da TAM, hoje a maior companhia aérea do país.

11) Soichiro Honda


Soichiro Honda iniciou sua trajetória profissional aos 16 anos, como aprendiz, numa oficina em Tóquio, Japão. Poucos anos mais tarde, voltou para Hamamatsu, sua cidade natal, e abriu a sua própria oficina. Aos 30 ele pensou em parar de consertar peças para fabricá-las.Investiu tudo o que tinha nesse projeto e começou a fabricar anéis para pistões. Queria vender seu trabalho à Toyota Corporation e trabalhou dia e noite para isso. Chegou a empenhar as jóias da esposa para permanecer no negócio. Quando finalmente terminou os anéis de pistão e os apresentou à Toyota, disseram-lhe que não atendiam aos padrões de qualidade da firma. Voltou, então, à escola por mais dois anos, até conseguir desenvolver anéis de qualidade, sendo vítima da chacota de seus colegas e de alguns professores durante esse tempo. Quando concluiu seu curso e voltou à Toyota, seu projeto foi aceito. Entretanto, seis meses depois, com o advento da segunda guerra mundial, sua fábrica foi bombardeada por duas vezes. Ele reconstruiu sua fábrica em ambas as vezes, porém um terremoto novamente a arrasou. Vindo o fim da guerra, Honda passou a trabalhar com motores recondicionados do excedente do exército. Com o Japão caótico após da guerra, um dos piores problemas era o transporte; os trens andavam lotados e havia um forte racionamento de combustível. Honda, então, improvisou um motor em uma bicicleta e criou a motocicleta. Passou a trabalhar nisso e seu primeiro lote de motocicletas, com 500 unidades, foi vendido rapidamente. Em setembro de 1948, então, foi criada a Honda Motor Company. Hoje ela é uma das maiores fabricantes de motos do mundo.

12) Samuel Klein


Nascido na polônia, em 1923, o judeu Samuel Klein sofreu com sua família em campos de concentração nazistas até o fim da guerra. Tendo sobrevivido, morou na Alemanha, de 1946 até 1951. Em 1952 foi para o Brasil e estabeleceu-se em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo com a família. Foi quando começou a trabalhar como comerciante. Tornou-se mascate, vendendo roupas de cama, mesa e banho de porta em porta, usando uma charrete. Em cinco anos de dedicado trabalho, conseguiu capital para comprar uma pequena loja, que chamou de Casa Bahia, em homenagem a seus fregueses, em sua maioria retirantes baianos vindo tentar a sorte na região. Hoje são mais de 560 lojas e o maior depósito de distribuição da América Latina. As Casas Bahia tornaram-se uma das maiores redes de varejo do País.

13) Silvio Santos


Filho de imigrantes judeus, Silvio Santos nasceu na travessa Bentevi, no bairro boêmio da Lapa, região central do Rio de Janeiro, além de seus pais, Silvio possuía cinco irmãos. Aos catorze anos já era camelô, trabalhando no centro do Rio de Janeiro, geralmente entre a avenida Rio Branco e a rua Sete de Setembro.Um fiscal de posturas da prefeitura carioca, percebendo o potencial de voz de Silvio, o convidou a fazer um teste na Rádio Guanabara (atual Rádio Bandeirantes do Rio de Janeiro). Silvio conquistou o primeiro lugar no teste da rádio, ganhando de nomes como Chico Anysio e José Vasconcelos, mas se manteve apenas 1 mês como radialista pois como ambulante ganhava mais.

Após servir ao exército, como paraquedista, Silvio decidiu ser locutor de uma rádio em Niterói. Percebendo que as viagens das barcas entre o Rio de Janeiro e Niterói eram marcadas pela monotonia, decidiu montar um serviço de alto-falantes nas embarcações. Nos intervalos das músicas, Silvio fazia anúncios de produtos. Nas barcas para a Ilha de Paquetá, os passageiros faziam filas nos bebedouros após dançarem as músicas tocadas por Silvio. Este então teve outra ideia: fez um acordo com a cervejaria Antártica para vender cerveja e refrigerantes. Na compra, o consumidor ganhava uma cartela de bingo e concorria a prêmios como jarras e quadros.

Após um acidente com a barca em que atuava, Silvio ficou sem poder exercer sua função, pois a barca ficou em conserto. Então, o diretor da Antártica o convidou a passar um tempo em São Paulo. Em São Paulo, Silvio começou a trabalhar em bares, apresentando espetáculos e sorteios em caravanas de artistas.

Logo passou à televisão, adaptando o formato dos shows, espetáculos e sorteios que fazia no circo. Seu primeiro programa, Vamos Brincar de Forca, estreou em 1962 e era transmitido pela TV Paulista, à noite. Um grande sucesso. Em 1964, passou a comandar seu programa aos domingos, das 12 às 14 horas. No decorrer dos anos, o formato seria expandido e aprimorado no Programa Silvio Santos. Paralelamente, Silvio partiu para novos empreendimentos: adquiriu de seu amigo Manuel da Nóbrega e de um alemão o Baú da Felicidade, empresa que vendia baús de presentes de Natal para crianças mediante pagamento em prestações. Depois de reformas no plano de negócios, a empresa ficou conhecida pela venda de carnês e sorteios. Quando a TV Paulista foi incorporada à Rede Globo, Silvio seguiu pagando aluguel pelo seu horário dominical, revendendo o tempo dos anúncios a outras empresas. Silvio também chegou a trabalhar na TV Tupi e na Record.

Em 1981, Silvio Santos obteve a licença para operar o canal 4 de São Paulo, que se tornou a TVS da capital paulista. A partir das emissoras do Rio e de São Paulo, surgiu o embrião do SBT. A rede se expandiu rapidamente através de afiliações, mas o Programa Silvio Santos continuava sendo transmitido simultaneamente pela Record, especialmente para alcançar o interior de São Paulo. A marca SBT passou a ser usada em toda a rede no final da década de 1980.

14) Milton Afonso


Nascido em 1921, em uma família pobre, Milton era filho de uma mãe costureira e um pai aventureiro que tinha problemas com o jogo e a bebida. Após a morte do pai, sua mãe o colocou em um colégio adventista que, com muito custo conseguiu pagar. Esforçado, Milton se tornou um estudante prodígio e terminado o colegial, entrou para a faculdade direito. Em 1951, Milton Afonso se formou. Naquele mesmo ano, criou a Casa Editora de Legislação e sua revista Legislação Federal tornou-se a maior revista sobre impostos de renda no Brasil, alcançando a marca de 50 mil assinantes. O plano de ser um advogado famoso mudou para o desejo de ser rico e poder ajudar os pobres.

Em abril de 1971, motivado pelos amigos João Alberto Persson e José Carlos Elias, Milton Afonso criou a Golden Cross, instituição filantrópica com todo lucro direcionado a projetos educacionais, de assistência social e evangelização. Em abril de 1972, dez meses após sua fundação, a Golden Cross atingiu a marca de mil associados. Três anos depois já havia vendido cinco mil planos de saúde. Não demorou muito para que 70 mil contratos fossem vendidos em um só mês. Em 1984, a Golden Cross tornara-se a maior companhia de saúde na América do Sul e a quarta maior no mundo. Hoje, a Golden Cross emprega 70.000 pessoas — dentre estas 18.000 médicos e 5.000 representantes do seguro de saúde — e provê assistência a mais de dois milhões de associados.

No final de 1985, o senador Marco Maciel, então Ministro da Educação, pediu que Milton Afonso fosse a Brasília. Sabendo da ligação de Milton Afonso com o Presidente Tancredo Neves e da escola agrícola que havia fundado em São João Del Rei a seu pedido, o ministro perguntou: “Poderia a Golden Cross assumir a administração da Organização Santamarense de Educação e Cultura? O Governo daria total apoio, menos na área financeira”. Milton aceitou. Entre 1985 e 1994, o Dr. Milton colocou pelo menos 25 milhões de dólares nesse empreendimento, além de ter bancado os estudos de cerca de 60 mil alunos.

Em 1994, a OSEC passou a ser uma universidade plenamente habilitada, conhecida como UNISA (Universidade de Santo Amaro), tornou-se a maior universidade particular na grande área metropolitana de São Paulo, chegando a ter mais de 15 mil alunos, quatro belos campi, e oferecendo 36 cursos superiores. Escolas de medicina, enfermagem, odontologia, veterinária, farmácia, direito, ciência da computação e dois importantes hospitais universitários, são alguns dos investimentos de sucesso da UNISA.

Milton Afonso também se tornou dono de diversas estações de rádio pelo Brasil e pelo mundo, e uma rede de televisão em canal fechado, que hoje é financiado em 50% pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, do qual ele faz parte.

15) Raul Randon


De família humilde, Raul Randon, já cultivava a terra com os avósaos 11 anos. Aos 14, fabricava machados, enxadas e outras ferramentas com o pai e estudava à noite. Avesso à escola, desistiu dos estudos sem completar o ensino primário. Aos 18, foi para o quartel. Quando voltou, o irmão mais velho, Hercílio, que fazia um estágio em uma empresa, a 4 quilômetros de casa, sem remuneração, havia aprendido a montar motores à explosão e, na oficina do pai, fazia serviço de reforma de motores. Projeto a que Raul se incorporou. Um ano depois, com um amigo do irmão, formaram uma sociedade para fazer máquinas impressoras. Foram apenas 12 máquinas fabricadas, porque, um incêndio destruiu a oficina e eles ficaram sem nada.

A fé católica evitou que desanimassem. Ao contrário, voltaram à reforma de motores na oficina de manutenção de uma fábrica de tecidos, enquanto construíam o pavilhão para instalar a própria oficina. Em 1953, um amigo lhes apresentou o italiano Antonio Primo Fontebasso, que deu a ideia de fabricar freios a ar para reboques. Como não é de perder oportunidades, abriu a Mecânica Randon Ltda, sociedade que durou dois anos, porque Fontebasso adoeceu e se retirou. Os irmãos passaram a fabricar o 3º eixo para caminhões e semi-reboques de um e dois eixos, uma revolução na época e o primeiro passo certeiro para o sucesso que viria a seguir.

Lá, no início, quando produzia 700 unidades/mês de sistema de reboque e foi à Itália conhecer outras indústrias do setor, voltou com a ideia de aumentar esse número para 1mil/mês. Quatro anos depois, inaugurou a primeira fábrica de caminhões com três eixos brasileira. O mesmo aconteceu quando, também na Itália, visitou uma fábrica de queijos Grana Padano, conduzido por amigo italiano admirador de sua produção de maçãs. Logo, chegavam ao Brasil dois aviões Boeing cheios de vacas holandesas e eram investidos 3 milhões de dólares, que resultaram na produção do Gran Fromaggio.

Ele reconhece que o sucesso da produção de maçãs, vinhos e queijos está ancorado na saúde financeira do braço de máquinas e implementos. Foi de lá que veio o dinheiro para dar início aos agronegócios. Hoje, orgulhoso, percorre as instalações da fábrica de queijos, onde estão armazenadas 23.500 formas de 40kg cada do único queijo do gênero no Brasil. Expandiu a atuação no mercado vinícola e se tornou, junto com a Miolo e a Lavora, um dos sócios da vinícola Almadén, em Santana do Livramento. E, claro, tem muitos planos de expansão.

16) Guilherme Leal


Apesar de ser filho de funcionário público, Guilherme Leal, com três irmãos, viu que precisaria trabalhar cedo para sobreviver. Assim, começou a trabalhar com 17 anos e resolveu fazer Administração de Empresas na USP, à noite. Chegou a trabalhar numa das superintendências da Fepasa, empresa estatal de transporte ferroviário do Estado de São Paulo. Foi nessa época que conheceu Pedro Passos, que depois viria a se tornar um de seus sócios na empresa de cosméticos Natura. Lá se desiludiu com a corrupção e a ineficiência de algumas instâncias da estatal. Quando foi demitido não quis voltar a uma empresa pública. Então, no fim dos anos 70 resolveu ajudar a construir uma pequena empresa privada. Ela viria a se tornar a Natura. A visão de negócios de Leal, assim como a de seus sócios, Pedro Passos e Luiz Seabra, entende que o papel de uma empresa não se resume à geração de empregos e de impostos e defende que toda organização pode e deve contribuir para a transformação socioambiental. Essa postura imprimiu uma forte identidade à Natura que passou a ser reconhecida como referência em responsabilidade social corporativa e em inovação baseada na sustentabilidade. Leal é hoje um dos homens mais ricos do planeta.

17) Antônio Luiz Seabra


É um dos fundadores da Natura Cosméticos.Tudo começou numa loja pequena na rua Oscar Freire em São Paulo onde ele mesmo formulava e vendia seus cosméticos. Em parceria com Guilherme Leal e Pedro Passos, fez da Natura uma empresa multinacional, atualmente em sociedade anônina no Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru, Venezuela, e França, com planos de extensão para os Estados Unidos da América.

18) Luiza Helena Trajano


Luiza começou a trabalhar com 12 anos como balconista na Magazine Luiza, loja criada pelos seus tios, Luiza e Pelegrino Donato. Passou por diversos cargos até assumir a direção da empresa. Sempre mostrou ser muito competente. Em 1992, antes mesmo da internet chegar ao grande público, ela desenvolveu o conceito de “lojas virtuais”, iniciativa que permitiu a chegada da rede a locais onde ela ainda não tinha presença física – inclusive a São Paulo, o maior centro consumidor do País. Luiza, como gosta de ser chamada, aposta na ampliação do relacionamento pessoal. Sua maior conquista dentro da empresa foi saber oferecer crédito fácil e rápido, com taxas de juros pequenas e prestações suaves, aos clientes, principalmente os de baixa renda. Hoje Luiza é considerada como exemplo de sucesso pelos estudantes de administração, que vêm realizando cada vez mais trabalhos acadêmicos sobre a sua atuação empresarial.

A Magazine Luiza é citada como exemplo em gestão humana. Segundo a empresária: “Quando assumi a direção do Magazine Luiza, procurei alguns bons exemplos em outras empresas. Notei que existiam aquelas que eram muito lucrativas e onde todos pareciam infelizes, e as pouco lucrativas, onde todos pareciam sentir-se bem. Perguntei-me, então: não seria possível juntar o melhor dos dois mundos?“. Ela acredita no potencial de cada ser humano e tem a tecnologia como aliada para aproximar pessoas e simplificar processos. Em suas palestras, ela conta que cada um dos seus funcionários é visto pela empresa como um empreendedor. Isso é uma das receitas para o sucesso da Magazine Luiza, que tem sede em São Paulo e filiais em quase todo o Brasil. Luiza Trajano chegou a ser uma das ganhadoras do Prêmio “As mulheres mais influentes do Brasil” da Gazeta Mercantil e Revista Forbes Brasil. Sua gestão também foi objeto de estudo pela Harvard Business School (EUA) como case de sucesso empresarial e a Magazine Luiza por diversos anos foi eleita a melhor empresa para se trabalhar pelo Great Place do Work/ Revista Exame.

19) João Carlos Paes Mendonça


Nascido na Serra do Machado, em Ribeirópolis, interior de Sergipe, começou ajudando seu pai, dono de uma pequena mercearia, em 1935. O negócio cresceu a tal ponto que João Carlos resolveu trazer as atividades da família para Pernambuco. Foi quando, aos 26 anos, o então dono de mercearia, João Carlos, inaugurou em 1966 a primeira loja da rede de supermercados Bompreço, no bairro de Casa Amarela. A inauguração representou uma inovação no setor. A partir da década de 70, a rede começou a se expandir com novas lojas em Boa Viagem, João Pessoa (PB) e Maceió (AL). Em 81, o Bompreço chegou aos estados do Pará, Espírito Santo e São Paulo.

Em 1982 foi lançado o Hipercard, cartão de crédito que nasceu com a finalidade de diminuir o volume de cheques e fidelizar os clientes. A financeira ultrapassou os caixas do Bompreço e hoje é administrada por um banco privado.

Outro artifício para fidelizar o cliente foi o Bomclube, criado em 1995. Cartão no qual os consumidores ganham bônus, à medida que compram, para trocar por mercadorias. Até que em 1996 o grupo famoso pelo “orgulho de ser nordestino” (slogan usado até hoje pelas empresas de Paes Mendonça) abriu parte de seu capital para o grupo holandês Royal Ahold. Em 2000, a venda do Bompreço para o grupo europeu foi consumada. Uma operação que movimentou 115 milhões de dólares. Depois disso, passou a se dedicar ao ramo da Comunicação e ao setor imobiliário, mas os shoppings são o carro-chefe do grupo. Somente no Nordeste, JCPM mantém 10 centros de compras, sendo cinco em Pernambuco, dois na Bahia, dois em Sergipe e um no Ceará.

Quando perguntado sobre o segredo para se alcançar tal trajetória, ele respondeu: “Você tem que focar, ter perseverança, trabalhar muito, economizar e ter paixão pelo que faz”.

20) Antônio Carlos Ferreira


O empresário Antônio Carlos Ferreira, hoje com 48 anos, cresceu na pobreza. Quando criança, vivia em uma favela com sua família, na cidade paulista de São Caetano do Sul. Por muitas vezes não teve sequer o café da manhã. Começou trabalhando como engraxate e depois percebeu que podia ganhar mais catando sucata na rua e revendendo para o ferro-velho. Conseguia o equivalente a trinta reais por semana. Durante a manhã, estudava em um colégio público e à tarde catava sucata. Hoje, passadas mais de três décadas, Ferreira é dono da Neolider, fornecedora de tubos de aço, que faturou R$ 200 milhões no ano passado e tem clientes do porte da Petrobras, Nestlé e Coca-Cola.

21) José Alencar


Nascido no município de Muriaé, em Minas Gerais, José Alencar precisou percorrer um longo caminho até montar seu império têxtil e chegar à vice-presidência da República. De família pobre e com 14 irmãos, não tinha energia elétrica, nem água encanada, o que o obrigava a buscar água no poço todos os dias. Sem acesso à escola, Alencar foi alfabetizado pelos próprios pais. Aos 7 anos de idade, Alencar começou a trabalhar, ajudando o pai na venda, e aos 14 deixou a casa da família para trabalhar como balconista numa loja de tecidos. O trabalho obstinado transformou o menino pobre de Muriaé em proprietário de uma lojinha em Caratinga com apenas 18 anos. Ele ainda seria viajante comercial, atacadista de cereais e dono de uma fábrica de macarrão. Criada em 1967 por Alencar, a Coteminas se tornou uma das maiores têxteis do mundo.

22) Antonio Setin


Começou a trabalhar aos 13 anos como uma espécie de faz-tudo em uma marcenaria. Varria, cortava madeira e ajudava na fabricação. Nesse trabalho, onde permaneceu durante 11 anos, ele descobriu seu gosto por desenho e aprendeu a negociar, pois era quem atendia diretamente a clientela. Aos 25 anos, então, formado em arquitetura, abriu seu primeiro escritório, no bairro da Casa Verde, na capital paulista, e mirou em um público a que poucas pessoas davam atenção: a classe C. Ao lado dos irmãos, com o lucro da marcenaria, começou a comprar terrenos e construir casas populares para depois vendê-las. De casas populares, a construtora passou a construir imóveis para a classe média e depois hotéis.Ele afirma que as dificuldades o tornaram mais paciente e persistente. Também diz que nunca pensou em ganhar dinheiro, mas apenas em fazer o que gostava. Hoje ele é dono da Setin, uma incorporadora que fatura R$ 400 milhões.

23) Salim Mattar


Começou como office boy e com 17 anos colocou na cabeça que um dia abriria um negócio. Conforme o tempo passou, Salim chegou à gerência de uma mineradora. Ali, abriu a Localiza, locadora de carros, com um sócio. No início trabalhavam todos os dias, 24 horas por dia. Revezavam, passando noites no escritório. Hoje a Localiza é uma das maiores locadoras de carros do país.

24) Élio Dávila


Décimo quarto filho de um casal que teve 15 filhos, Élio foi adotado por uma irmã que casou cedo, logo que sua mãe morreu. Como a situação era difícil, ele começou a trabalhar aos oito anos, vendendo pastéis. Seu pai adotivo bebia e o maltratava sempre. Por isso, um dia fugiu e passou a viver na rua. Ficou três meses nessa situação, até que seu pai um dia o achou e levou para casa. Quatro meses depois ele fugiu de novo. Arrumou um emprego como lavador e guardador de carros em frente ao Copacabana Palace. Fazendo amizade com os porteiros, aprendeu conheceu vários guias turísticos. Um deles o levou para conhecer a sra. Stella Barros, com quem aprendeu boas maneiras. Ele trabalhou em sua empresa alguns anos. Hoje é dono da empresa FlyTour, de turismo.

25) Afonso Celso de Barros Santos


Com uma infância pobre, Afonso viu sua família ser despejada diversas vezes de casas por não conseguir pagar o aluguel. Chegou a ser Office boy do Bradesco para ajudar nas despesas de casa. Com muito custo, montou uma pequena locadora de carros. No início era um negócio com 21 carros e quatro funcionários. Hoje, são 18 mil carros e duas locadoras: Avis e Budget.

Alguns comentários sobre essa lista

Há algumas lições que podemos tirar dessa lista de empresários que começaram do zero:

Primeira Lição: Ela detona o vitimismo que a esquerda criou para nos fazer acreditar que quem nasce pobre e oprimido, passará a vida inteira pobre e oprimido. A esquerda quer que acreditemos nisso porque é baseado nisso que ela tenta vender a ideia de que precisamos do Estado para mudar esse quadro. O vitimismo tem como objetivo criar dependência do governo, aumentando suas funções e, obviamente, o seu poder. Ele se torna o responsável por redimir os pobres de seu destino cruel, destino este que eles não poderiam mudar sozinhos, segundo a esquerda.

Alguém poderia dizer aqui que é um número ínfimo de pessoas que consegue a proeza de começar do nada e se tornar um rico empresário e que, por isso, não devemos achar que os outros podem mudar seus destinos sozinhos. Mas há uma falha nesse argumento. Ele presumi que todos tem o perfil necessário para se tornar empresários e só não conseguem porque é muito difícil. Acontece que nem todo mundo tem vontade, aptidão ou coragem para se tornar empresário. Da mesma forma, nem todo mundo tem vontade, aptidão ou coragem para ser médico, jornalista, marceneiro ou professor. Isso vale para todas as profissões. Não podemos simplesmente pegar todas as pessoas do mundo e calcular quantas delas se tornam médicas ou carpinteiras, por exemplo. Se o fizermos, chegaremos à conclusão de que um número ínfimo de pessoasse tornou um desses profissionais e que, por isso, todas as pessoas precisam ser ajudadas pelo governo para se se tornarem médicas, carpinteiras e etc.

O leitor percebe a falha do argumento? O que deve ser levado em consideração aqui é sempre o perfil da pessoa. Ou seja, quantas pessoas com perfil de médico (isto é, que querem, tem coragem e tem aptidão para serem médicas) se tornam médicas? E o mesmo para todas as demais profissões, inclusive a de empresário. Quando limitamos o cálculo a quem, de fato, tem o perfil da profissão, percebemos que o número de pessoas que começa do zero e consegue algo não é tão pequeno assim. E eu não estou falando apenas de ficar milionário, mas simplesmente de ter um negócio bem sucedido.

Há ainda outro ponto que precisa ser ressaltado. Em um mundo em que a mentalidade dos governos é cada vez mais intervencionista, muitas pessoas não conseguem deslanchar em seus negócios por culpa do governo. Altíssimos impostos, burocracia, inflação são alguns exemplos que muitos pequenos empresários enfrentam ao abrirem seus negócios, o que acaba por fazê-los falir. Neste caso, portanto, o que a esquerda diz ser o remédio é justamente o que impede uma pessoa com perfil de empresário mudar de vida.

É óbvio que não estou dizendo que qualquer pessoa com perfil de empresário conseguirá se dar bem na vida ou que existem muitas pessoas com esse perfil. O que estou dizendo é simplesmente que é perfeitamente possível sair do zero e conseguir ser bem sucedido. E eu acredito que isso não é “extremamente improvável”, como querem nos fazer crer os esquerdistas.

Segunda Lição: Os integrantes desta lista fizeram muito mais para melhorar o mundo do que o governo, com suas empresas públicas e seus assistencialismos. Em primeiro lugar, porque quando o governo tem uma empresa e essa empresa consegue bons resultados (o que é muito raro, diga-se de passagem), o investimento gasto para alcançar esses bons resultados é feito com dinheiro público, isto é, o nosso dinheiro. E quando se trata de governo, sabemos que a quantia gasta é sempre astronômica, porque o dinheiro é público, pode ser esbanjado à vontade pelo governo, pois sempre haverá mais. Em contrapartida, os empresários de nossa lista não usaram nosso dinheiro e tampouco tiveram a sua disposição quantias ilimitadas. Todo o dinheiro de investimento que tiveram para chegar até onde chegaram foi dinheiro privado e limitado (como é da natureza do dinheiro privado).

Em segundo lugar, porque assistencialismo não resolve problemas. O que resolve problemas é emprego. E para que exista emprego é necessário que haja empresas. E quanto maiores forem essas empresas, mais empregos teremos. Então, as 25 personalidades de nossa lista não apenas mudaram seu próprio destino, tornando-se ricas, mas geraram milhares de empregos.

A verdade é que os empresários dessa lista foram muito mais nobres e honestos do que qualquer marxista sincero ou manifestante revolucionário que tenha passado a vida inteira lutando contra a burguesia. Afinal, nossos “queridos” anti-burgueses desejam melhorar o mundo lutando contra quem gera empregos, a fim de expropriar-lhes os bens e deixá-los mais pobres. Isso, além de ser desonesto, é idiota.

Vamos imaginar uma situação surreal em que um grupo esquerdista põe a cabo um plano magnífico, onde todos os bens de Silvio Santos são vendidos e dados aos pobres. Sabe quais seriam as conseqüências disso? Primeira: poucos seriam os ajudados, pois a fortuna de Silvio Santos não pode salvar todo mundo. Segundo: o dinheiro desses poucos iria acabar logo (pois com tantas pessoas para dividir, ninguém ficaria rico) e eles voltariam para suas vidas miseráveis. Terceiro (e este é ponto mais importante): um número enorme de pessoas passaria por mais privações. Começaria pelos milhares de funcionários das empresas de Silvio, que perderiam seus empregos. Depois os funcionários de empresas que de alguma maneira dependiam das empresas de Silvio. Depois os funcionários de bancos que de alguma maneira ganhavam com as empresas de Silvio. E por aí vai. É uma reação em cadeia. Com isso concluímos que lutar contra empresas é algo cruel. Dependemos delas.

Terceira Lição: A lista nos ensina que o dono de uma empresa pode administrá-la como bem entender. Isso quer dizer que há espaço para pessoas preocupadas com a proteção à natureza ou com o bem estar de seus funcionários ou mesmo com os pobres da sociedade (e, de fato, essas pessoas existem, como vimos no caso de Guilherme Leal, Luíza Trajano e Milton Afonso). Tal constatação me faz, uma vez mais, pensar na desonestidade dos esquerdistas. Eles pregam o ódio às empresas privadas e querem abocanhar todos os seus lucros. No entanto, eles mesmos não incentivam que cada um ponha a mão na massa, criando empresas que trabalhem dentro de seus ideais. Ora, há tantos esquerdistas por aí. Será que ninguém tem perfil de empresário? Será que ninguém consegue montar uma empresa do zero e criar um império? Por que eles insistem em fazer “justiça social” em cima do esforço e do dinheiro dos outros?

Vou mais longe. Se ser empresário é algo tão desprezível, e os funcionários são os únicos que merecem o lucro da empresa (conforme a visão dos marxistas e esquerdistas radicais), devemos concluir que montar e gerir uma empresa é algo muito fácil. Afinal, o empresário não tem mérito nenhum. A coisa deve ser simples demais e qualquer um pode fazer. Seguindo essa lógica, porque os esquerdistas não se formam diversas empresas que façam a tal “justiça social” como eles querem? A resposta é simples: desonestidade. Eles querem distribuir dinheiro, mas o dinheiro de outros.

Quarta Lição: A lista nos ensina que a iniciativa privada é capaz de fazer milagres do nada, ao contrário do governo. Conseguiria o governo gerir uma empresa começando do zero? É claro que não. O governo, para fazer qualquer coisa chegar próximo de dar certo, precisa gastar bilhões e bilhões de investimento, desde o início. Isso me põe a pensar se não seria melhor permitir que a iniciativa privada tomasse as rédeas da economia, deixando para o governo apenas a função de manter a paz, as leis e os contratos.

Quinta Lição: Quando um esquerdista se coloca contra todo o empresariado, está se colocando também contra estes empresários que começaram do nada. Penso que essa atitude é muito grave. Afinal, não são os esquerdistas que lutam para os pobres e os proletários tenham uma vida melhor? Como então eles se posicionam contra aqueles que conseguem vencer as adversidades e mudarem suas vidas? E mais uma vez: eu não estou falando só desses que se tornaram milionários. Há milhares e milhares de pequenos empresários que também começaram do nada e, embora não tenham se tornado sequer ricos, têm hoje uma boa condição e geram empregos.

No bairro pobre onde eu moro há vários exemplos. Há uma casa de doces que já tem uns 5 anos, acredito. A loja é um cubículo. Seus donos são um casal de senhores que começaram trabalhando sozinhos. A loja hoje tem uns três funcionários, além deles mesmos. Há um mercadinho que já tem mais de dez anos. Ele não tem filiais, mas desde que começou, já expandiu bastante seu espaço. Os donos ainda trabalham ativamente no local, juntamente com seus funcionários (que devem ser uns quatro). Ele aproveitou seu lucro e alugou espaços ao lado para outros comércios. Também montou alguns apartamentos logo em cima de sua loja. Gente boa e simples. Há uma padaria que é de dois irmãos. Eles também trabalham lá até hoje, embora a padaria tenha vários funcionários. O pão de lá é gostoso e eu acredito que eles tenham um bom lucro. E por aí vai. Todas essas pessoas são pobres e já foram proletários algum dia. E todas elas, muito embora sejam empresárias hoje, continuam trabalhando em união com seus funcionários. Lutar contra essas pessoas me parece um crime.

Sexta Lição: A evolução do mundo empresarial nos trouxe duas coisas interessantes que os primeiros marxistas e o próprio Marx não poderiam prever: a possibilidade de promoções de cargo e a possibilidade de se tornar acionista da empresa. Sem dúvida isso embaralha toda a teoria da luta de classes, com patrões contra empregados, cada qual em sua função bem definida. Como pudemos ver na lista, alguns empresários alcançaram sua posição atual começando como office boy. Outros se tornaram acionistas, o que cria uma categoria de classe onde uma mesma pessoa é burguês e proletário.

Sétima Lição: Um rico empresário não precisa sair distribuindo dinheiro para melhorar o mundo. Se ele quiser fazê-lo, um tanto melhor. Mas o simples fato de ele ser rico e bem sucedido e continuar sendo rico e bem sucedido, melhora o mundo. É a sua permanente riqueza que gera empregos, que auxilia outras empresas e que move a economia. O dinheiro que um rico empresário tem no banco, por exemplo, já tem uma importância enorme, pois é o que irá alimentar o banco, os projetos do banco, os funcionários do banco e todos os que dependem dos projetos e dos funcionários. Enfim, lutar contra empresários é uma sandice.

Conclusão

Essa lista é um resumo do que pessoas com perfil empresarial podem fazer. O empreendedorismo é uma habilidade admirável e muito importante para a sociedade. Da mente arguta de empreendedores, muitos empregos surgem, muitas pessoas sobem de cargo, muitos talentos são encontrados. Todos saem ganhando. Até o governo, pois quando uma pessoa se torna rica e suas empresas ficam grandes, os impostos sobre ela aumentam. Então, os políticos que querem fazer “justiça social”, ainda podem fazê-la por meio dos impostos arrecadados. Mas se adotamos a postura de lutar contra os empresários e suas empresas, o que nos resta são apenas enormes empresas públicas deficientes e algumas poucas macro empresas privadas que descansam sem competição porque o governo mata a iniciativa privada, deixando-as sozinhas no cenário empresarial. Este é o mundo esquerdista. Este é o tenebroso “capitalismo” de esquerda.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Sobre o livro "Supostamente Cruel"

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O comunismo tal como apresentado em "Manifesto do Partido Comunista"

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O comunismo até hoje é visto como uma teoria político-econômica bem intencionada que só não deu certo porque foi deturpada. Durante décadas, a ditadura e o autoritarismo dos governos comunistas ao longo do século XX foram maquiados por muitos marxistas com o rótulo de regimes legitimamente representantes do povo, de modo que, suas ações aparentemente autoritárias eram da vontade do proletariado e, portanto, democráticas. Na medida em que esta maquiagem foi se tornando cada vez mais insustentável, muitos marxistas passaram a sustentar que estes regimes comunistas autoritários não foram comunistas de verdade; eles deturparam o verdadeiro marxismo.

Mas a verdade é que o comunismo é autoritário e ditatorial por natureza. Não houve uma deturpação. Ele se tornou, na prática, o que foi projetado para ser na teoria. A obra marxista mais famosa do mundo (“Manifesto do Partido Comunista”), que apresenta um passo a passo bem objetivo do que os comunistas pretendiam fazer, comprova isso. O objetivo desse texto é analisar alguns trechos da obra que demonstram isso claramente. A tarefa, como veremos, não é difícil.

Comunismo, ditadura e autoritarismo

Aqui começa nossa jornada:
Vimos acima que o primeiro passo na revolução operária é a elevação do proletariado a classe dominante, a conquista da democracia. O proletariado utilizará seu domínio político para arrancar pouco a pouco todo o capital à burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, ou seja, do proletariado organizado como classe dominante, e para aumentar o mais rapidamente possível a massa das forças produtivas.
Isso naturalmente só poderá ser realizado, no princípio, por uma intervenção despótica no direito de propriedade e nas relações burguesas de produção, isto é, por medidas que parecem economicamente insuficientes e insustentáveis, mas que, no curso do movimento, ultrapassam a si mesmas e são inevitáveis para revolucionar todo o meio de produção [1].
Esse texto começa traçando um objetivo: dar ao proletariado o poder político, de modo que ele se torne classe dominante. Mas é óbvio que Marx e Engels, ao escreverem isso, não achavam que cada um dos proletários existentes iria receber literalmente uma parte do poder político. É claro que nenhum marxista achava que todos os proletários em cada país iriam se tornar políticos e se reunirem todos os dias, aos milhões, em uma câmara maior que dez estádios do maracanã para discutir propostas políticas e econômicas. Isso é inviável! Da mesma forma, seria inviável que cada país comunista adotasse um modelo federalista e descentralizado de Estado, a fim de que em cada pequena região do país todos os proletários pudessem participar ativamente das decisões políticas. Afinal, o comunismo tinha que seguir um único rumo para vigorar.  

Então, o que o texto na verdade pressupõe é que o proletariado alcançará poder político de modo indireto, através da ascensão de uma parte dele, isto é, de alguns representantes da classe, que terão a incumbência de fazer a sua vontade. Esses representantes formam o partido. E é evidente que o partido terá um líder, que fatalmente acabará se tornando o líder da nação quando o partido alcançar a hegemonia política. Em resumo: o poder político concentrado nas mãos do proletariado significa o poder político concentrado nas mãos do partido político, da sua cúpula central e, sobretudo, do seu líder.

Marx e Engels não eram idiotas. Sabiam disso. Só que eles acreditavam (ou fingiam acreditar) que um partido proletário, uma vez no poder, iria inevitavelmente fazer a vontade de sua classe. É por isso que eles diziam que isso era democracia: se o partido faria a vontade do povo, o povo estaria no poder.

Se você entendeu essa relação, então agora entende que quando Marx e Engels dizem que o proletário tiraria pouco a pouco o capital da burguesia, centralizaria os meios de produção nas mãos do Estado, aumentaria a massa das forças produtivas, interviria de maneira despótica e tomaria medidas que “parecem” economicamente insuficientes, estão dizendo, de maneira velada, que o sujeito de todas essas ações é o partido. Tenho para mim que o nome da obra “Manifesto do Partido Comunista” é uma evidência disso. Por que não “Manifesto do Proletariado Comunista”?

Em seguida, o documento começa a enumerar as ações autoritárias que colocaria em prática gradualmente, quando o partido estivesse no poder, até conseguir estatizar toda a economia. Vejamos o passo a passo por partes [2]:

1. Expropriação da propriedade fundiária e emprego da renda da terra nas despesas do Estado.
2. Imposto fortemente progressivo.
A expropriação de terras dos ricos já é, por si só, um roubo. O fato de um proprietário ser rico não dá direito ao Estado de tomar aquilo que lhe pertence. Mas ainda que nós concordemos, para o bem do argumento, que esta ação se justifica, pois visa o bem estar dos pobres, perceba que o governo pretendia usar a renda das terras nas despesas gerais do Estado e taxar, progressivamente, os trabalhadores. Ou seja, o trabalhador, no fim das contas, seria marionete do Estado, que é o partido. 

Os países em que estas duas medidas foram aplicadas de maneira mais rigorosa foram a Ucrânia, entre 1931 e 1933, a China, entre 1958 e 1960 e o Camboja, em 1975. O resultado foi aterrador: cerca de 36 milhões de pessoas morreram vítimas de repressão, fome forçada, miséria causada pela ineficiência do sistema.

3. Abolição do direito de herança.


4. Confisco da propriedade de todos os emigrados e rebeldes.

Olhe que legal: você não tem mais direito de deixar o que conquistou na vida para quem você ama. Se você morre, seus bens vão para o Estado, que é o partido. Isso se você conseguir juntar alguma coisa em um regime comunista, o que é bem difícil, diga-se de passagem. Os emigrados também saem perdendo. Mas o que me impressiona mais aqui é o confisco da propriedade dos chamados “rebeldes”. Neste ponto, Marx e Engels estão dizendo o seguinte: se você discordar do regime, o Estado vai tirar tudo o que você tiver. Amigos, se isso não é a total legitimação da opressão estatal, então eu sou o Napoleão Bonaparte e tomei vinho com Platão ontem, no Planalto Central.

5. Centralização do crédito nas mãos do Estado, por meio de um banco nacional com capital do Estado e monopólio exclusivo.
Quando chegamos neste momento, percebemos que o proletário já não tem para onde fugir da presença do Estado. Ele trabalha para manter os custos do governo, é taxado de maneira cada vez mais forte e o pouco dinheiro que lhe resta fica em um banco estatal, que pode, evidentemente, usurpar seu salário na hora que bem entender.
6. Centralização dos meios de transporte nas mãos do Estado.
7. Multiplicação das fábricas nacionais e dos instrumentos de produção; cultivo e melhoramento das terras segundo um plano comum.
Quando Marx e Engels disseram que as medidas tomadas pelo governo pareceriam economicamente insuficientes e insustentáveis, eles sabiam muito bem do que estavam falando. É preciso muita confiança na capacidade administrativa do governo para crer que o Estado pode gerir todas as empresas e setores da sociedade, conduzindo milhares de segmentos segundo um único e gigantesco plano administrativo. É a mesma coisa que acreditar que uma única dona de casa seria capaz de administrar todas as cozinhas e cozinheiras da cidade de São Paulo ou que o presidente da Google poderia chefiar sozinho todos os setores e funcionários de sua multinacional. Isso é loucura!

Pedagogia Comunista

Pulo para o passo número 10 para mudar um pouco de assunto e falar sobre a pedagogia comunista. Observe o que Marx e Engels afirmam:

10. Educação pública e gratuita de todas as crianças. Eliminação do trabalho das crianças nas fábricas em sua forma atual. Combinação da educação com a produção material, etc.
Na edição que tenho de “Manifesto do Partido Comunista”, há alguns anexos interessantes na obra. Um deles é o texto “Os princípios do comunismo”, escrito por Engels no final de outubro de 1847 em uma reunião da Liga dos Comunistas, onde se discutia um projeto de “Confissão de fé comunista”. Sobre a educação pública para as crianças, Engels afirma que ela deveria ocorrer “a partir do instante em que [as crianças] possam prescindir dos cuidados maternos, em estabelecimentos nacionais e a cargo do Estado” [3]. Em outras palavras, elas deveriam ser doutrinadas pelo Estado desde bem pequenas. 

Um trecho interessante de “O Manifesto” afirma o seguinte sobre a doutrinação das crianças pelo Estado:

“Mas dizeis que abolimos as mais sublimes relações ao substituirmos a educação doméstica pela educação social. E vossa educação, não é ela também determinada pela sociedade? [...] Os comunistas não inventaram a influência da sociedade sobre a educação; procuram apenas transformar o seu caráter, arrancando a educação da influência da classe dominante” [4].
Quer dizer: a educação estatal é importantíssima para o comunismo, nem tanto por uma preocupação com o acesso das crianças aos estudos, mas muito porque o Estado comunista precisa se certificar que você não estará dando uma educação burguesa ao seu filho. Então, você não tem o direito de educar seu filho em casa, mas deve deixá-lo aos cuidados do Estado desde a mais tenra idade.  

Não é à toa que O Manifesto também afirma que uma das medidas básicas do regime seria instituir o trabalho obrigatório igual para todos. Ou seja, a mãe não tinha a opção de só ficar em casa, educando o filho. Ela deveria trabalhar como qualquer outra pessoa e o filho, assim que desmamasse, deveria ser introduzido à educação estatal. Isso é curioso, porque logo em seguida Marx e Engels criticam a burguesia por romperem os laços familiares dos proletários através da exploração que empunham aos mesmos (sobretudo às crianças). O que se está propondo aqui, portanto, é substituir seis por meia dúzia. 

A verdade é que Marx e Engels estavam pensando mais em uma estratégia para manter o regime comunista do que nas relações familiares. Então, pouco importava se o regime comunista acabaria mantendo os pais tão longe dos filhos quanto no capitalismo (ou até mais). A questão principal não era resolver este problema. A questão principal era que as crianças precisavam ser doutrinadas pelo Estado desde pequenas.

E o que as crianças aprenderiam na educação estatal obrigatória dos comunistas? Bom, elas iriam aprender principalmente a ter uma concepção materialista da história. Afinal, os comunistas sabiam que os maiores empecilhos para que o próprio proletariado aceitasse o comunismo eram as ideias provenientes dos questionamentos filosóficos e religiosos. Essa era a “educação burguesa” que os comunistas não queriam que o proletariado passasse para seus filhos. Veja o que Marx e Engels dizem:

“As acusações contra o comunismo feitas de pontos de vista religiosos, filosóficos e ideológicos em geral, não merecem uma discussão pormenorizada. Será necessária uma profunda inteligência para compreender que, com a modificação das condições de vida dos homens, das suas relações sociais, da sua existência social, também se modificam suas representações, suas concepções e seus conceitos, numa palavra, sua consciência? O que demonstra a história das ideias se não que a produção intelectual se transforma com a produção material? As ideias dominantes de uma época sempre foram apenas as ideias dominantes da classe dominante” [5].
Aqui Marx e Engels querem que compremos as seguintes ideias: 

(1) objeções religiosas e filosóficas são tão idiotas e desprezíveis que não precisam ser avaliadas pelos seus leitores;

(2) o homem não é um ser inclinado ao mal por natureza. Sua consciência é moldada de acordo as condições materiais da sociedade;

(3) o materialismo é uma obviedade tão grande que seus leitores também não precisam avaliar e que é inadmissível que alguém discorde. A pessoa que o faz é um imbecil;

(4) as ideias filosóficas e religiosas são pura e simplesmente expressões das relações materiais existentes no interior da luta entre as classes. Por isso, não valem a atenção do leitor.

A dupla continua:

Fala-se de ideias que revolucionam uma sociedade inteira; com tais palavras exprime-se apenas o fato de que, no interior da velha sociedade, formam-se os elementos de uma sociedade nova e a dissolução das velhas ideias acompanha a dissolução das velhas condições de existência [6].
Se as ideias não têm valor, antes são apenas meras abstrações que expressam a condição material da sociedade e as relações opressor/oprimido, sendo dissolvidas cada vez que alguma coisa muda no contexto material, então questionamentos filosóficos e religiosos não podem jamais fazer frente ao comunismo. Como se torna claro, a importância do materialismo residia nisso: em destruir argumentos contrários.

O leitor atento vai perguntar: “Ora, mas o comunismo também não era uma ideia? A crítica ao valor das ideias é um tiro no pé”. Ah, mas Marx e Engels sabiam disso. E é por isso que eles fazem questão de dizer:

As proposições teóricas dos comunistas não se baseiam de forma alguma em ideias, em princípios inventados ou descobertos por esse ou aquele reformador do mundo. São apenas a expressão geral das condições efetivas de uma luta de classes já existente, de um movimento histórico que se desenrola sob nossos olhos [7].
Notou a estratégia? Nossos amigos pregavam que o comunismo não era uma ideia, nem era composto por elas. O comunismo era como uma ciência exata, para Marx e Engels; algo como “2 + 2 = 4”. Era uma doutrina baseada em fatos brutos e concretos, que poderiam ser perfeitamente conhecidos através do empirismo. 

Marx e Engels ensinavam que o comunismo era um “socialismo científico”. Isso significa que com as lentes do comunismo você conseguiria olhar claramente para a história do mundo, observar “fatos incontestáveis” da história e prever “cientificamente” o que exatamente iria acontecer (da mesma forma como, por exemplo, um cientista observa objetos distintos caindo milhares de vezes, em tempos e lugares diferentes, e conclui que há uma força que puxa os objetos para baixo, e que, se ele jogar uma pedra agora do quinto andar de seu prédio, ela também será puxada para baixo por essa força).

Com essa estratégia, a dupla podia criticar todas as ideias contrárias ao comunismo, taxando-as de expressão material e, ao mesmo tempo, afirmar o comunismo como uma ciência exata, e a revolução proletária como uma inevitabilidade. O comunismo, assim, tornava-se uma profecia e todas as outras ideias, heresias da burguesia.

Eram essas coisas que Marx e Engels desejavam que todas as crianças aprendessem na escola. A preocupação com a educação estatal para crianças pequenas se justificava por um fato incômodo: muitos proletários tinham crenças e hábitos que se constituíam empecilhos para a aceitação plena do comunismo. Essas crenças e hábitos encontravam-se, por vezes, arraigadas naqueles que passaram décadas de sua vida aprendendo-os, reproduzindo-os e cultivando-os. 

A crença na religião cristã, por exemplo, fazia com que o proletário visse o ser humano como um ser pecador, o paraíso como uma esperança extraterrena e Deus como sendo mais importante do que o partido, o Estado e a revolução. E o que dizer das restrições morais, do maior apego à família do que a sindicatos, do respeito à autoridades eclesiásticas, da visão espiritual da história mundial e etc. 

Esses hábitos e crenças travavam o comunismo, que via o ser humano como um ser perfectível, o paraíso como uma inevitável realização terrena, o partido, o Estado e a revolução como o sentido máximo da vida, a moral como subordinada aos interesses da revolução, a vida como fruto de materialismos históricos e dialéticos. É por isso que Marx e Engels afirmavam, por exemplo, que a religião é o ópio do povo. Eles sabiam que se não convencessem os proletários de que a religião era um ópio com que o povo se drogava para agüentar a pressão da vida, teriam dificuldades de pôr em prática um regime comunista.

A doutrinação estatal para crianças, portanto, era algo primordial para que o comunismo lograsse algum êxito. O que Marx e Engels não conseguiram perceber é que essa doutrinação deveria começar antes mesmo do partido subir ao poder. Mas o que eles não perceberam no século XIX, ideólogos como Antônio Gramsci, Herbert Marcuse e Theodor Adorno perceberiam no século XX, entre os anos 20 e 60. Eles seriam os precursores de uma nova estratégia comunista: a “Guerra Cultural”. Tal estratégia pretendia doutrinar crianças e jovens dentro das escolas e faculdades de modo sorrateiro, com linguagem simples e cotidiana, introduzindo no senso comum ideias que pudessem corroer a imagem do cristianismo, da moral judaico-cristã, da vida familiar, da cultura tradicional do ocidente e tudo o mais que pudesse afastar as pessoas do comunismo. 

Marx e Engels podem não ter enxergado tão longe no que se refere à doutrinação de crianças e jovens, mas enxergaram muito bem. Eles entenderam que era preciso criar uma cultura comunista nas crianças, para que as novas gerações de proletários não se prendessem a nenhum tipo de crença conflitante com os interesses do Partido/Estado.

Em suma, no regime comunista que Marx e Engels projetavam, seu filho aprenderia na escola que Deus não existe, que todas as grandes religiões são histórias da carochinha, que objeções filosóficas ao comunismo são indignas de crédito, que ideias são fruto das relações materiais, que muito da nossa moral e cultura são invenções burguesas, que o comunismo é uma ciência exata, que o ser humano é perfectível, que o mundo pode ser transformado em um paraíso, que isso efetivamente irá acontecer, que o sentido máximo e único da vida é buscar esse paraíso terreno, que isso inevitavelmente irá acontecer, que o Partido/Estado é o representante supremo do nosso sentido da vida e que devemos apoiá-lo incondicionalmente na transformação do mundo. Tudo isso seria obrigatório na educação estatal. 

A destruição da sociedade

Aqueles que acreditam que o comunismo pretendia apenas mudar o sistema econômico do mundo e, consequentemente, a vida econômica das pessoas, ainda não entenderam nada sobre o comunismo. Esta doutrina, na verdade, jamais objetivou tão-somente fazer uma reforma econômica. Seu objetivo era destruir todas as bases dessa sociedade que conhecemos e construir uma sociedade inteiramente nova e diferente. Há pouco nós líamos sobre o que Marx e Engels achavam das “ideias”. A continuação daquele texto desemboca no objetivo comunista de destruir tudo. Eles começam descrevendo uma acusação pertinente feita ao comunismo já àquela época:

“Sem dúvida”, dir-se-á, “as ideias religiosas, morais, filosóficas, políticas, jurídicas, etc., modificaram-se no curso do movimento histórico. Entretanto, a religião, a moral, a filosofia, a política e o direito sempre sobreviveram a essas mudanças. Além disso, existem verdades eternas, como liberdade, justiça, etc., que são comuns a todas as condições sociais. O comunismo, porém, acaba com as verdades eternas, acaba com a religião e a moral, ao invés de lhes dar uma nova forma, e isso contradiz todos os desenvolvimentos históricos anteriores” [8].
Exposta esta acusação, a dupla inicia uma resposta baseada na concepção da luta de classes, uma resposta que se torna aterradora conforme chegamos ao seu final:

A que se resume essa acusação? A história de toda a sociedade até os nossos dias movimentou-se através de antagonismos de classe, que assumiram formas diferentes nas diferentes épocas. Mas qualquer que tenha sido a forma assumida por esses antagonismos, a exploração de uma parte da sociedade por outra é um fato comum a todos os séculos passados. Portanto, não é de se espantar que a consciência social de todos os séculos, a despeito de sua multiplicidade e variedade, tenha-se movido sempre dentro de certas formas de consciência que só poderão se dissolver completamente com o completo desaparecimento dos antagonismos de classe [9].
Deixe-me ver se entendi. Quer dizer que as formas de consciência social comuns a todos os séculos, que englobam a religião, a moral, as noções de liberdade e justiça e etc., se dissolverão completamente quando a revolução comunista alcançar seu objetivo supremo? Vamos continuar lendo para ver se é isso mesmo:

A revolução comunista é a ruptura mais radical com as relações tradicionais de propriedade; não é de espantar que no curso de seu desenvolvimento ela rompa da maneira mais radical com as ideias tradicionais [10].
Incrível! Marx e Engels realmente estavam dizendo que as ideias mais tradicionais sobre a moral, a religião, a justiça e etc., iriam ser destruídas pela revolução juntamente com a propriedade privada! O mais incrível é que depois de dizer isso descaradamente, a dupla dinâmica ainda acrescenta a frase: “Mas deixemos de lado as objeções da burguesia ao comunismo”. Como se o que eles acabassem de falar fosse uma objeção bobinha e que dizia respeito apenas aos interesses de uma pequena parcela da sociedade! 

A corrosão das ideias tradicionais de moral, religião e justiça não poderia ter resultado em outra coisa que não opressão, perseguição e genocídios décadas mais tarde. Vários livros dão conta das atrocidades que foram infligidas ao mundo pelo comunismo. Um dos melhores e mais completos é “O Livro Negro do Comunismo”, que indico ao leitor para mostrar o resultado prático (e inevitável) dessas ideias loucas de Marx e Engels.
  
A destruição da religião

A destruição da religião merece um tópico à parte. Certa vez ouvi uma professora dizer que Marx não tivera muito interesse em falar contra a religião na sua vida. Quando ouvi isso pela primeira vez, achei que, para ele e seu amigo Engels, a religião era algo indiferente, que eles apenas não acreditavam, mas respeitavam. Assim, as perseguições religiosas infligidas pelos comunistas teriam sido uma deturpação do marxismo. 

Acabei descobrindo mais tarde que não foi bem assim. Já vimos que as crenças e hábitos da religião eram obstáculos para o comunismo, que eles eram tidos como frutos das relações materiais exploratórias e que Marx e Engels pretendiam que eles fossem suprimidos com a revolução. Isso já seria o suficiente para termos certeza de que a religião não seria bem tratada em um regime comunista. Mas na edição que tenho em casa de “Manifesto do Partido Comunista”, há uma informação suplementar. No “Projeto de confissão de fé comunista”, sobre a relação dos comunistas ante as religiões existentes, é dito: 

Todas as religiões até agora foram a expressão de estágios do desenvolvimento histórico de povos singulares ou de grupos de povos. O comunismo, porém, é o estágio de desenvolvimento que torna supérfluas todas as religiões existentes e as suprime [11].
Exatamente como pensava, por exemplo, o ditador comunista chinês Mao Tsé Tung, que criou e desenvolveu a Revolução Cultural Chinesa, e oprimiu duramente milhares de religiosos, destruindo seus templos e símbolos e condenando-os a penas civis. 

Mais autoritarismo

A leitura dos documentos da Liga dos Comunistas é ótima para tornar ainda mais claro como o autoritarismo estava no DNA comunista. No “Estatuto da Liga dos Comunistas”, na seção I, artigo 2, existe uma série de condições para que uma pessoa entrasse na Liga. Entre elas encontravam-se duas bem interessantes: “Profissão de fé comunista” e “Submissão às resoluções da Liga”. Ao fim há a seguinte frase: “Quem não preencher mais essas condições será excluído”. Até aqui, nada demais. Mas vejamos o que é dito adiante, na seção VIII, artigos 41 e 42: 

41. O comitê do círculo julga os delitos contra a Liga e assegura a execução da sentença.
42. Os indivíduos suspensos ou expulsos, bem como todos os suspeitos, devem ser vigiados em nome da Liga e postos em situação de não poderem causar danos. As intrigas de tais pessoas devem ser imediatamente denunciadas à respectiva comuna (ênfase acrescentada) [12].
O que essas palavras querem dizer? Ou melhor: o que essas palavras poderiam vir a significar em cada situação? É exagero dizer que elas dão margem para todo o tipo de ação contra pessoas que causavam problemas à Liga Comunista? Antes que o leitor responda, vamos ler um trecho do documento “Princípios do Comunismo”, de Engels. Esse trecho responde a seguinte pergunta: “Será possível a abolição da propriedade privada por via pacífica?”. Engels responde:

Seria desejável que isso pudesse ocorrer e os comunistas seriam, com toda a certeza, os últimos a isso se oporem. Os comunistas sabem muito bem que todas as conspirações são não apenas inúteis, mas até mesmo prejudiciais. [...] Mas vêem também que o desenvolvimento do proletariado é reprimido com violência em quase todos os países civilizados e que, com isso, os adversários dos comunistas nada mais fazem do que trabalhar com todas as forças para uma revolução. E se, nessas condições, o proletariado oprimido for finalmente impelido para uma revolução, nós, comunistas, defenderemos a causa do proletariado com a ação, do mesmo modo como agora a defendemos com a palavra [13].
Em outro trecho, respondendo a outra pergunta, Engels ressalta:

A democracia seria inteiramente inútil ao proletariado se não fosse imediatamente empregada para obter toda uma série de medidas que ataquem diretamente a propriedade privada e assegurem a existência do proletariado [14].
As medidas das quais Engels fala aqui são aquelas medidas despóticas listadas em “Manifesto do Partido Comunista”, que nós analisamos há pouco. Ele volta a listá-las em “Os Princípios do Comunismo”. Ou seja, a democracia dos comunistas é inútil se não for uma ditadura que tome uma série de ações despóticas, supostamente em nome da vontade do povo. Prévias desse despotismo são expressas na própria confissão dos comunistas de que a força poderia ser usada para alcançar seus objetivos políticos e na atitude em relação aos suspensos, expulsos ou suspeitos da Liga dos Comunistas, de vigiá-los e colocá-los “em situação de não poderem causar danos”. 

Considerações finais 

Qualquer pessoa que se proponha a ser honesta perceberá que não houve exageros ou distorções nessas análises. Limitei-me a descrever o pensamento comunista da forma como expresso em “Manifesto do Partido Comunista” e em documentos da Liga, além de destacar os pontos autoritários de sua teoria, mostrando como esses pontos formam a essência mesma do comunismo. 

A conclusão é que o comunismo não se tornou ditatorial e opressivo nos países que se instaurou por mera série de acidentes históricos ou por uma enorme distorção da teoria. Ele se tornou ditatorial e opressivo porque foi projetado para ser uma ditadura. Ainda que Karl Marx e Friedrich Engels acreditassem que essa ditadura seria democrática (por fazer aquilo que o povo queria) e benéfica - se é que realmente criam nesta baboseira -, isso não muda em nada o fato de que o comunismo foi inteiramente projetado para ser uma ditadura. 
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Referências:

1. MARX, Karl e ENGELS, Friedrich; tradução de NOGUEIRA, Marcos Aurélio e KONDER, Leandro. Manifesto do Partido Comunista. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 65 e 66.

2. IBDEM, p. 67-68.

3. IBDEM, p. 102.

4. IBDEM, p. 62.

5. IBDEM, p. 64.

6. IBDEM, p. 64.

7. IBDEM, p. 57.

8. IBDEM, p. 65.

9. IBDEM, p. 65.

10. IBDEM, p. 65.

11. IBDEM, p. 154.

12. IBDEM, p. 115.

13. IBDEM, p. 99-100.

14. IBDEM, p. 101.