sábado, 27 de dezembro de 2014

Cristianismo: uma religião de fatos

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A primeira coisa sobre o cristianismo que uma pessoa deveria saber é que ele é uma religião de fatos e não de meras crenças desligadas da realidade. Quando ele fala que Jesus existiu, pregou por três anos em Israel, foi crucificado e seus discípulos começaram a afirmar que ele ressuscitou (iniciando uma religião a partir daí), está amparado por mais de trinta fontes independentes do primeiro e do segundo séculos, entre elas apóstolos diretos de Cristo, os primeiros seguidores dos apóstolos, judeus que eram hostis ao cristianismo, pagãos que eram hostis ao cristianismo e historiadores judeus e pagãos. Todas essas fontes atestam esses mesmos fatos.

Nós poderíamos tirar todas as fontes cristãs e ainda sobrariam mais de uma dezena, contando a mesma história. Mas por que motivo tirar as fontes cristãs? Elas são tão ou mais confiáveis quanto as outras, pois se constituem de pessoas que aceitaram viver como miseráveis, sofrerem perseguição e morrerem por conta de sua fé. Nenhum benefício foi ganho por conta do que narraram. Apenas prejuízos. Se alguém se levanta para dizer que eles não podem ser considerados fontes porque eram partes interessadas em sustentar uma mentira, está querendo dizer: "Milhares de pessoas estavam interessadas em sofrer e morrer à toa por uma mentira". Não faz sentido.

Critério básico para análise da veracidade de documentos históricos: "Se quem narra o fato não ganhou nenhum benefício narrando-o, isso aumenta a chance de ele ser verdadeiro. Se quem narra o fato ganhou prejuízos, isso aumenta ainda mais".

Então, nós temos múltiplas fontes independentes, cristãs, judaicas e pagãs, do primeiro e do segundo século, atestando os mesmos fatos sobre um homem chamado Jesus; fontes estas que não tinham qualquer interesse em mentir sobre o que narravam. É o suficiente para provar a autenticidade desses fatos.

Mas há mais coisas. Boa parte das fontes cristãs afirmavam ser testemunhas oculares. E não só isso. Elas instigavam as pessoas a procurarem outras testemunhas. É o que Paulo faz em sua primeira epístola aos Coríntios, capítulo 15, versos de 1 à 8, citando o nome de várias testemunhas que viram Cristo ressurreto e mencionando que além das aparições individuais, Ele também apareceu à quinhentas pessoas de uma vez só, "dos quais a maioria sobrevive até agora", ressalta.

Somente alguém que está muito convicto do que está falando forneceria uma lista de testemunhas, dizendo que a maioria vive. Ninguém inventa uma mentira e diz que centenas de pessoas são testemunhas. A não ser que tal mentira esteja beneficiando a todos esses (podemos imaginar aqui a Câmara dos Deputados). Mas sabemos que não é o caso.

Então, temos testemunhas oculares. Muitas testemunhas oculares. Testemunhas que estão sofrendo repressão, mas continuam sustentando que Jesus ressuscitou. No mínimo podemos dizer que elas acreditam mesmo no que estão falando, seja verdade ou não.

Os fatos estão estabelecidos. Existiu um homem chamado Jesus. Ele pregou em Israel. Morreu crucificado. Os discípulos começaram a afirmar que o viram ressurreto e que iniciaram o cristianismo, estando dispostos a sofrer e morrer pelo que diziam. Eles acreditavam mesmo no que estavam falando.

Resta saber: o que aconteceu para que essa crença na ressurreição surgisse e os primeiros seguidores tivessem tanta convicção nela? Descrentes tentam várias hipóteses para explicar os fatos. Alucinação é uma delas. Mas alucinações coletivas? Pessoas em lugares diferentes viram a mesma coisa? Depois centenas de pessoas juntas viram a mesma coisa ao mesmo tempo? E quem não viu, como veio a acreditar depois? Lembre-se que judeus e pagãos não gostavam do pensamento cristão. Convencê-los de que o cristianismo estava certo não era tão simples assim. E como explicar a tumba vazia? Aonde fora parar o corpo de Jesus? Se ele não ressuscitou, o corpo deveria estar lá, não? Alucinação não é uma hipótese muito forte.

Roubaram o corpo. Está bem. Explica a tumba vazia. Mas não explica a crença nas aparições. Além do mais, quem roubaria o corpo? Os discípulos não poderiam ser, porque eles acreditavam mesmo na ressurreição. Os romanos não teriam nenhum interesse em roubar o corpo de um judeu pobre morto. Pra quê? Romanos nem gostavam de judeus. Iriam se preocupar em roubar um judeu morto?

Os líderes judeus que eram contrários a Jesus não poderiam ser. Além de não terem nenhum interesse em roubar um corpo, se o tivessem feito, certamente o mostrariam ao público quando os discípulos começassem a pregar a ressurreição, a fim de desmenti-la. Mas eles não fizeram isso. Na verdade, a Bíblia diz que os líderes nunca desmentiram o fato da tumba vazia. Eles apenas explicaram o fato dizendo que os discípulos tinham roubado o corpo. Essa era a versão deles para tentar desmentir a ressurreição. Ou seja, a tumba realmente estava vazia e o corpo sumiu. Mas, como vimos, não pode ter sido os discípulos que pegaram.Quem pegou, então?

Eu poderia citar outras tentativas de explicar os fatos. Mas todas elas são inúteis, porque, ou não explicam tudo, ou criam cenários impossíveis ou extremamente improváveis.

Então, temos aqui um conjunto de fatos que precisam ser explicados. Por que a tumba estava vazia? Por que o corpo de Jesus não apareceu? Por que centenas de discípulos diziam ter visto Jesus ressurreto? Por que eles tinham tanta certeza nisso a ponto de aceitarem sofrer e morrer por esta crença? Por que muitos acreditaram neles? Por que essa religião surgida do nada, contando com perseguição de judeus e romanos, conseguiu ir para frente e se tornar a maior religião do mundo?

A única hipótese que explica bem tudo isso é a seguinte: Jesus realmente ressuscitou e seus seguidores o viram.

Qual seria a objeção à aceitação dessa hipótese? Mortos não podem ressuscitar? Quem falou? A Ciência? A sua própria observação de como as coisas acontecem no mundo?

Ora, isso tudo pode dizer respeito a como as coisas normalmente acontecem ou a como a natureza funciona quando não há um intervenção externa. Se eu coloco todos os dias dez reais na minha gaveta, sei que no fim de dez dias vou ter cem reais lá. Por que eu sei disso? Porque é o que me diz a lei da matemática. Porque é o que deve acontecer se não houver nenhuma intervenção. Mas e se meu irmão for lá e pegar dez reais no penúltimo dia? Quando eu for contar o dinheiro, terei cem reais? Não. Terei noventa. O que devo pensar? O que vocês acham que devo pensar??? "Ah! Isso é impossível! A matemática diz que eu preciso ter cem reais!". É claro que não. Eu devo pensar que houve alguma intervenção. Alguém pegou o dinheiro.

Milagres nada mais são do que intervenções em processos que, se fossem deixados seguir seu curso, chegariam a um resultado esperado por nós, normativo, comum.

Então, mortos não podem ressuscitar? Por que não? Se houvesse uma intervenção sobrenatural, será que não poderiam? Por que descartar esta hipótese logo de cara? Se, de fato, existe um Deus que criou todo o universo, e criou as primeiras bactérias, protozoários, fungos, plantas, animais e seres humanos, dando-lhes condições de gerarem novas vidas, seria difícil para Ele ressuscitar um morto? Estamos nos baseando em que para supor isso? Em nossas capacidades humanas? Mas Ele não é Deus? Ele não transcende tudo? Por que então o limitamos?

Talvez você queira brincar com a minha analogia dos dez reais e dizer que seria idiota eu atribuir o resultado diferente no fim dos dez dias a uma ação sobrenatural. Assim, da mesma forma, seria idiota tentar explicar os fatos que expus através de um evento sobrenatural.

Mas eu respondo com uma pergunta: "Por que seria idiota atribuir o sumiço dos meus dez reais à ação sobrenatural?". É porque nós dois sabemos que não é isso que normalmente acontece. É porque sempre vemos os eventos esquisitos do cotidiano terem uma explicação natural. E é isso, justamente isso, que faz do milagre um milagre.

Milagres, se existem, são raros. Raríssimos. Não são norma. São a exceção. Só sabemos o que é um milagre porque ele não faz parte da regra, do comum, do rotineiro, do esperado, do calculado. Para haver milagre, é preciso haver uma rotina, porque o milagre é a quebra da rotina.

Então, por que motivo eu deveria acreditar que algo tão raro ocorreria só para arrancar meu dinheiro? Se já é raro acontecer um milagre (e, por isso, devemos esgotar todas as possibilidades antes de apelar a ele como explicação), qual seria a probabilidade de um milagre ocorrer só para tirar o meu dinheiro? Que interesse Deus teria em interferir em algo tão pequeno e inútil? Que interesse Deus teria em pegar meus dez reais?

Um milagre que ocorresse nesse tipo de situação, na verdade, iria embaralhar o mundo. Se minhas coisas podem sumir do nada, por milagre, sem nenhum objetivo, então, não posso confiar no funcionamento da natureza. Tampouco em Deus. Quem daria crédito a um Deus zueiro desses? Qualquer coisa pode sumir e aparecer. Qualquer coisa pode acontecer.

Mas não é isso que a Bíblia diz sobre Deus. A Bíblia conta sobre um Deus que fez leis fixas para que elas fossem a norma. Fez isso para que através da norma pudéssemos fazer nossas previsões e ter certeza dos resultados naturais. A importância que Deus dá a esse universo ordenado, cheio de leis naturais e que nos possibilita prever o curso natural dos acontecimentos é tão grande que ele compara a fixidez de sua promessa para com o rei Davi e Israel, no Antigo Testamento, com a fixidez dessas leis (Jeremias 33:20-25).

Deste modo, intervenções no curso normal só ocorrem quando a questão é relevante o suficiente. Essas intervenções não são quebras nas leis, tal como a intervenção de meu irmão pegando dez reais da minha gaveta não é uma quebra da lei da matemática. A intervenção é apenas uma quebra na previsão final, pois um elemento a mais, com o qual não contávamos, entrou na equação. Ainda assim, isso só pode ocorrer em uma ocasião ímpar, em algo que carece do milagre para possibilitar o sucesso de grandes planos divinos.

Não há nada de ímpar em intervir na minha economia caseira de dez reais por dia. Mas há algo de muito ímpar, grandioso, estupendo, incrível, fenomenal, importantíssimo na morte e ressurreição de Jesus: disso depende a salvação de bilhões de pessoas. Disso depende a prova de que Jesus é um com Deus e Senhor Supremo. Disso depende o surgimento do cristianismo, a maior religião do mundo. Disso depende a imortalização dos ensinos de Jesus. Merece ou não merece um milagre um evento desse? Necessita ou não necessita? É incoerente acreditar na ressurreição dentro desse contexto?

Some isso ao fato de que o Antigo Testamento já havia dado, centenas de anos antes, dezenas de profecias sobre Jesus Cristo; profecias que foram cumpridas por Ele. Some ainda ao fato de que os mesmos seguidores que afirmavam convictamente que Ele ressuscitou, afirmavam que o viram curar pessoas, fazer milagres e até ressuscitar mortos durante três anos e meio. Então, me diga: por que a hipótese da ressurreição deveria ser excluída, à priori?

Ela não deveria. A ressurreição é uma hipótese perfeitamente plausível e que só pode ser derrubada se provarmos que Deus não existe. Caso contrário, não há qualquer razão para descrer e muitas razões para crer.

Lembre-se disso: o cristianismo é uma religião de fatos. E é isso que deveria ser dito pelos líderes cristãos. Chega de fazer o cristianismo parecer um conto de fadas, uma filosofia emocional para autoajuda, um conjunto de crenças sem evidências ou mera experiência pessoal. O cristianismo é a história de Deus passando pela terra como homem e deixando suas marcas. Isso é cristianismo. E a experiência pessoal com esse Deus se torna mais plena quando entendemos isso.

Se você é cristão, portanto, pregue o evangelho mostrando que você crê em fatos concretos e não em mera lista de doutrinas. E se você não é cristão, entenda que o cristianismo é uma religião de fatos. Sua busca pela verdade precisa começar deste ponto. Se começar a analisar o cristianismo partindo do pressuposto de que esta religião não tem nada a ver com acontecimentos reais que impactaram o mundo e precisam de explicação, não alcançará a essência da coisa.

Tudo o que um líder cristão não deveria fazer

Um comentário:
Passo meus olhos pelo feed de notícias do Facebook e me deparo com um vídeo. Nele, quatro pessoas conversam entre si sobre fé e religião, tendo como mediador e entrevistador o filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé. Os convidados para as discussões são: Ed René Kivitz, um cristão protestante que flerta com aquele irritante evangelho liberal de quem já passou por diversas igrejas e ficou chateado por não achar perfeição em nenhuma delas; Italo Fasanella, um cristão católico do movimento carismático, que pisa em ovos para agradar a todos; Ma Dhyan Bhavya, uma esotérica que não acredita em Deus, mas crê em energias e força interior; e Jaime Alves, um ateu medíocre que certamente nunca leu um único livro de apologética e que repete falácias mais velhas que minha avó contra a religião.

Acho a proposta do breve programa até interessante, mas é difícil esperar muita coisa de convidados como estes. Aperto o play e como as probabilidade já indicavam, o resultado é frustrante. Perco 26 minutos de meu precioso tempo vendo dois líderes cristãos permitirem que a crença em Deus e o cristianismo sejam rebaixados a meras necessidades emocionais, ferramentas de autoajuda e crenças totalmente desligadas da razão.

Como se não bastasse, sou obrigado a engolir uma covardia vergonhosa de um deles em não querer dizer com todas as letras a verdade inevitável de que, se o cristianismo está certo, todas as outras religiões estão erradas. A intensa geração de baboseiras evidentemente dá abertura para que a esotérica também diga as suas e o ateu feche o show de horrores se achando o "Senhor Racional acima de todos esses idiotas" e soltando suas ridículas falácias.

Termino de assistir o vídeo pensando em como os grandes intelectuais cristãos do presente e do passado tem sido amplamente ignorados por nossos líderes de Igreja. Os dois cristãos que participaram deste programa tinham todo o aparato intelectual imaginável para destruir em pedacinhos qualquer oposição ao teísmo e ao cristianismo. Eles tinham tudo para provar da maneira mais clara e límpida que a fé cristã está baseada em fatos concretos e fincada na razão. Eles tinham tudo para mostrar que fora do teísmo cristão nada faz sentido lógico e que qualquer pessoa que queira sustentar o rótulo de racional necessita se curvar à racionalidade da religião cristã. Eles tinham tudo para reduzir o pensamento esotérico e o pensamento ateísta abaixo de esterco.

Em suma, eles tinham ao seu dispor os argumentos, as discussões e as respostas racionais oferecidas por gigantes do pensamento cristão como William Lane Craig, Alvin Plantinga, Richard Swimburne, Peter Kreft, Norman Geisler, Alister McGrath, Olavo de Carvalho, Rodrigo P. Silva, F. F. Bruce, N. T. White, W. F. Albrigth, Darrell Bock, Francis Collins, Lee, Strobell, Josh MacDowell, C. S. Lewis, G. K. Chesterton, Francis Bacon, Anselmo de Cantuária, Tomás de Aquino, Agostinho de Hipona e etc., imortalizados centenas e mais centenas intermináveis de obras de alto nível intelectual.

Mas o que eles fazem? Colaboram mais uma vez para que a crença em Deus e o cristianismo sejam, nada mais nada menos que crenças absurdas que sustentamos sem qualquer evidência.

Definitivamente, nossos líderes não andam bem da cabeça.


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O casamento dentro da perspectiva bíblica cristã

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Dentro da perspectiva bíblica cristã, o casamento foi criado para simbolizar uma relação muito maior e mais importante: a relação entre Deus e o ser humano. Não fosse isso, não haveria qualquer necessidade de casamento. Os anjos, por exemplo, são criaturas assexuadas. Não têm órgãos sexuais, nem desejo. Não se casam, não fazem sexo, não sentem falta ou necessidade desse tipo de relação. Anjos não possuem gênero; não há anjos machos e anjos fêmeas. Há apenas anjos.

Deus poderia criar um universo inteiro de criaturas assexuadas e sem gênero. Deus mesmo não tem gênero ou sexo. Gênero e sexo são meras criações dele, as quais Ele, evidentemente, antecede.

Entretanto, aprouve a Deus criar macho e fêmea, casamento e sexo, a fim de expressar, simbolizar, descrever a relação entre Deus e o ser humano.

O apóstolo Paulo, na Bíblia, afirma que o marido deve amar a esposa como o próprio Cristo amou a Igreja, a ponto de se entregar por ela. Quando lemos isso, somos levados a crer que Paulo estava usando o amor de Cristo para com a Igreja como um símbolo para o casamento. Na verdade é o oposto. Paulo sabia que o casamento é que era um símbolo desse amor. E era por isso que deveria ocorrer de acordo com o que representava.

O casamento que não ocorre nos moldes estipulados por Deus, destoa da realidade que ele representa, perdendo todo o seu sentido e propósito.

Quando um marido agride sua esposa, física ou verbalmente, fere a imagem de Deus. Representa-o como um Deus mal, agressor e sem amor, um Deus que não se preocupa com o ser humano. Quando uma esposa humilha seu marido ou lhe é infiel, fere a imagem da Igreja, "a esposa de Deus", representando-a como uma troglodita ou vagabunda.

A santidade dentro do casamento é muito mais do que meramente uma obrigação entre marido e mulher. É uma obrigação para com Deus. Deve haver amor, respeito, carinho, fidelidade e compromisso no casamento não só porque devemos isso ao nosso cônjuge, mas porque devemos isso a Deus, já que o casamento foi criado para representar sua relação conosco.

Qualquer perversão no conceito de casamento criado por Deus é uma representação falsa de sua relação com a humanidade. Se bato em minha esposa, estou dizendo: "Deus nos agride!". Se traio meu marido, estou dizendo: "Nós não queremos Deus".

É por esse motivo que o casamento só é possível, biblicamente, entre homem e mulher, macho e fêmea. Quando um homem "casa" com outro homem, está representando Deus como um Ser que não se interessa pelo ser humano. Quando uma mulher "casa" com outra mulher, representa o ser humano como um ser que não deseja, nem precisa de Deus. E em ambos os casos, o casamento, que é mero símbolo da relação entre Deus e o ser humano, é elevado a uma posição que não lhe pertence, tornando-se mais importante do que aquilo que representa, a realidade eterna e primária: o amor entre Deus e o ser humano.

Isso se estende a tudo o que se relaciona ao casamento. Quando nos casamos e temos um filho, este simboliza o próprio Jesus encarnado. O apóstolo João usa exatamente esta imagem, em Apocalipse. Quando casamos e temos uma filha, esta simboliza a continuidade da Igreja, do povo de Deus. Não há Jesus encarnado se houver só Deus, ou só Igreja. Não há continuidade do povo de Deus se houver só Deus ou só a Igreja. Deus outorgou ao ser humano o poder de gerar descendência através do amor entre um homem e uma para representar o modo como o amor entre Deus e o ser humano geraria Cristo encarnado para morrer por nossos pecados e a continuidade do seu povo para espalhar as boas novas. É por isso que não há geração de filhos e família se não houver a união entre homem e mulher. Tudo o que diz respeito a casamento, família e geração de filhos está relacionado ao grande amor de Deus pelo ser humano.

Se alguém diz que acha ridículo não modificar a concepção de casamento "só" porque isso não representa Deus corretamente, faz do símbolo algo mais importante que a realidade simbolizada. Não é a realidade que deve ser modificada para se adequar ao símbolo, mas o oposto. O símbolo se sujeita ao real.

Há muitas pessoas que não creem nisso. Isso não me irrita. O que me irrita é quando alguém se levanta para perguntar qual é o problema de se casar com alguém do mesmo sexo, ou de ter um casamento aberto, ou um casamento poliamoroso. Perguntam isso, dizendo: "Eles não estão fazendo mal a ninguém e é uma relação consensual". Mas a imoralidade desses atos, dentro da visão bíblica, não se baseia na ideia de que "é errado porque causa tristeza ao próximo", ou de que "não é consensual". Baseia-se, sim, no que acabei de descrever.

A pergunta do critico, portanto, revela total desconhecimento do que é o casamento na perspectiva bíblica. Ele pretende rebater a concepção bíblica de casamento sem levar em conta a própria base bíblica para essa concepção.

Em suma, a concepção bíblica de casamento pode ser descrida, mas não pode ser considerada incoerente. Se, de fato, o cristianismo está correto, qualquer casamento que fuja do padrão de casamento estabelecido por Deus é errado. E isso é um fato incontestável.

O que acho interessante nisso tudo é como a concepção cristã de casamento (quando seguida corretamente) tem a capacidade de valorizar o casamento mas, ao mesmo tempo, de superá-lo, no sentido de entender que a realidade que ele simboliza é muito maior do que o símbolo. Em outras palavras, o romance entre Deus e o ser humano é que é o centro de tudo, a grande história do universo, o grande enredo de amor pelo qual vale a pena viver e morrer. É por ele que valorizamos nosso casamento aqui na terra, cuidando de nosso cônjuge e de nossa família com devoção; mas também é por ele que superamos esse casamento ao fim de nossa vida terrena, após o último minuto de respiração, quando entramos no descanso que antecede nossa entrada no reino eterno.

No dia em que todo o mal for extinto e Deus recriar esta terra e povoá-la com aqueles que aceitaram o seu sacrifício supremo, todos os tipos de amores que conhecemos serão absorvidos pelo amor de Deus, o qual é a fonte de todos os outros. E todo o amor que teremos em nós e uns pelos outros será o amor de Deus. Então, o símbolo também será absorvido pelo real e nós entenderemos em sua plenitude que o marido é Cristo, a esposa é a Igreja e isso é tudo o que importa.

O cristianismo nos ensina a não centralizar os romances. Todos os romances são apenas manifestações do Grande Romance. E tudo, absolutamente tudo, gira em torno disso. Nada tem importância, tampouco significado fora do amor entre Deus e os homens. Daí o casamento se revestir de sagrado. Daí o amor e o respeito ao cônjuge se tornar muito mais do que ética humanista, mas devoção ao Ser Supremo que criou o casamento para representar o seu perfeito amor. Daí o casamento não se tornar, contudo, o sentido da vida, mas apenas um estágio do amor a ser completado e superado (como quando, completamos uma fase em um jogo, superando-a e tornando-nos aptos para uma fase superior). O cristianismo nos ensina que o amor de casal e mesmo o de família não é o amor supremo, não é o amor final, não é o amor completo e perfeito. Ele é apenas uma parte e mesmo uma ponte pela qual devemos prosseguir em busca do amor supremo, que é Deus.

Em contrapartida, a concepção de casamento, do mundo secularizado, o mundo não-cristão, nos ensina esvaziar o casamento de todas as suas virtudes e obrigações, banalizando-o; mas, ao mesmo tempo, eleva o sentimento de casal, o amor eros, o romance entre duas pessoas, a um patamar que não lhes pertence, escravizando-nos sob o pensamento de que o sentido da vida é amar perdidamente uma pessoa, e que este amor é o mais intenso, elevado, prazeroso e máximo que se pode encontrar. O secularismo cega os olhos do homem para o amor supremo de Deus, fazendo-o prisioneiro eterno de utopias romancistas mescladas a prazeres falsos que destroem o sentido do casamento e, na maioria das vezes, o fazem sentir infeliz. E aqui cai o homem na ideia de tentar distorcer de todas as formas possíveis o casamento, a fim de tentar tirar dele algo que o faça completo.

A concepção secularista de casamento desumaniza os seres humanos. Torna-os seres dominados pelo sexo, pelo amor utópico, pela busca insaciável pelo prazer próprio, pela visão limitada de amor, pela banalização das relações duradouras, pela adoração irracional (travestida de amor) a certos tipos de pessoas (em geral, tipos de pessoas que lhe causarão prejuízos), pela insensibilidade em relação ao amor de Deus e por uma tendência de enxergar em coisas temporais, efêmeras, breves e fúteis o sentido da vida. O secularismo esfacela o amor, a sensibilidade e o senso das proporções; distorce todos os valores, verdades, prazeres e virtudes; infecta a mente de uma pequenês, de uma brevidade, de uma mentalidade que é incapaz de enxergar mais do que um palmo a diante. Mas, acima de tudo, o secularismo comete o maior dos pecados: apega-se a amores incompletos e os coloca acima de Deus, retirando-o de cena. Ao retirar de cena o amor dos amores, a fonte dos amores, o amor final, o amor supremo, o secularismo assassina o amor e destrói o sentido supremo da vida.

Esse texto, como é óbvio para qualquer pessoa mentalmente saudável, não tem objetivo algum de inferir qualquer coisa sobre política. Também não tem o objetivo de impedir o leitor de fazer o que quiser em sua vida amorosa. Até porque eu não tenho o poder de controlar vidas através do que escrevo (nem faço questão de ter). Esse texto tão somente discute porque no cristianismo há um padrão de casamento. É porque ele não é um fim em si mesmo, mas um símbolo de algo maior (porque o real é sempre maior que seu símbolo). E, tendo sido criado como símbolo, perde o sentido e o objetivo quando não simboliza adequadamente, distorcendo a mensagem que deveria transmitir e, na maioria das vezes, causando sensação de infelicidade.

Esse é um dos motivos (o mais ignorado, por sinal) pelo qual um cristão não deveria achar correto, nem praticar o adultério, a bigamia, a poligamia, o poliamor, o sexo sem compromisso, o casamento sem amor, o casamento homossexual, a zoofilia, a necrofilia, a pedofilia, a infidelidade, a agressão do cônjuge e etc. Nenhuma dessas atitudes representa bem a relação entre Deus e o ser humano. E isto, para o cristianismo, já seria motivo suficiente para não endossar estas práticas.

A necessidade da morte de Jesus Cristo

8 comentários:
Responda rápido: Por que Jesus Cristo necessitou morrer pela humanidade? À primeira vista, a pergunta é boba e a resposta é simples. Os evangelhos e mais todo o Novo Testamento nos expõem a razão de maneira clara e repetidas vezes. Em suma, todos nós somos pecadores. A consequência de ser pecador é a morte. Portanto, para oferecer ao ser humano o perdão dos pecados e a salvação, Cristo precisava se tornar humano como nós e assumir a consequência máxima dos nossos pecados: a morte. Sua morte era o único jeito de nos livrar de nossa condenação.

A explicação acima é a resposta padrão e todo o cristão minimamente comprometido com sua fé sabe expô-la mais ou menos nesses termos. No entanto (e é aqui que a coisa começa a complicar), quando nos aprofundamos na pergunta, esta resposta simples e rápida já não é suficiente para satisfazer a questão. Dizemos que Jesus necessitou morrer pela humanidade para nos perdoar e dar a vida eterna, certo? Mas por quê? Deus não poderia simplesmente oferecer o seu perdão, sem qualquer sacrifício? Por que um justo precisava morrer para que esse perdão fosse dado aos homens? Por que o simples ato de cada indivíduo pedir perdão a Deus não seria suficiente para ser perdoado? Qual é a necessidade da morte de Jesus nessa equação toda?

Quando paramos para pensar nessas perguntas, o sacrifício de Jesus pode parecer um tanto sem sentido. Não pedimos o sacrifício de alguém para perdoar uma pessoa, não é verdade? Simplesmente perdoamos. E é o que a própria Bíblia nos ensina. Então, por que seria necessário o sacrifício de Jesus? Por que Deus apenas não nos perdoou e esqueceu tudo, sem problemas?

Tais perguntas não são apenas pertinentes, mas imprescindíveis. Apenas uma resposta plausível a cada uma delas é capaz de dar sentido lógico ao cristianismo e demonstrar que Jesus foi bem mais que um simples homem bom. A necessidade da morte de Cristo, alegada pelos cristãos, é o âmago do Evangelho e de todas as doutrinas cristãs. Destrua essa necessidade e todo o cristianismo ruirá. Mas quantos cristãos estão preparados para dar essa resposta racional? Quantos estão cumprindo a exortação do apóstolo Pedro em sua primeira epístola? “Estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (I Pedro 3:15).

O objetivo desse texto, portanto, é oferecer esta resposta racional, demonstrando ainda a importância da questão e como ela é a base para as doutrinas mais importantes do cristianismo, como a divindade de Cristo e a triunidade de Deus. Vamos começar.

O Dilema de Deus

Para entender a necessidade da morte de Cristo, precisamos ter em mente que Deus apresenta duas funções em relação ao julgamento de nossos pecados: a de Pai, no sentido de ser nosso Criador e Mantenedor, e a de Juiz do Universo, no sentido de ter que zelar por um padrão de justiça imutável. Em suma, Deus é Pai, mas também é Juiz.

Nossos pecados, por sua vez, afetam as duas esferas: a esfera relacional (isto é, nossa relação com o Pai) e a esfera jurídica (isto é, nossa relação com a justiça moral). Isso é regra. Qualquer pecado que cometamos, sempre será um pecado contra Deus e contra a Justiça moral. Assim, quando uma pessoa comete um pecado ela precisa acertar contas com Deus e com a Justiça, os dois ofendidos.

Ora, para Deus é fácil nos conceder perdão relacional. Este perdão não requer qualquer pagamento ou punição pela ofensa. Requer apenas boa vontade do ofendido em perdoar o ofensor. É um perdão que tem a ver simplesmente com o restabelecimento de uma relação de amor entre ofensor e ofendido. Envolve a postura do ofendido de “esquecer” o pecado do ofensor, de não mais acusá-lo pela falta. Esse, portanto, é o perdão de Deus como Pai. É o perdão que restaura uma relação quebrada. Mas, como eu disse, Deus não é só Pai. Ele também é Juiz. É aqui que a coisa complica.

Como Juiz, Deus não pode simplesmente absolver o homem de seu pecado sem ressarcir a Justiça pela ofensa do pecador. Lembre-se: quando nós pecamos, pecamos contra Deus e contra a Justiça. E a Justiça sempre requer o pagamento pela ofensa cometida contra ela. E o Juiz do Universo precisa ser justo. Aqui temos um aparente dilema: ou Deus age como Pai amoroso e Juiz injusto, ou Deus age como Juiz justo e Pai cruel. E então? Amar o filho ou punir o criminoso? O que Deus deveria fazer? Esse é o dilema de Deus causado pelo pecado do homem.

A analogia do pai-delegado

Para entender melhor o dilema em que o pecado do ser humano colocou Deus, vamos imaginar uma situação hipotética. Um delegado recebe em sua delegacia seu próprio filho, que fora pego cometendo alguma infração civil. A infração é leve. O filho pode ser liberto mediante o pagamento de uma fiança. Mas o filho é um vagabundo e não possui meios para efetuar o pagamento. Ele assim é conduzido para cela, enquanto o pai-delegado resolve o que vai fazer com o rapaz.

Agora, reflita na situação do pai. Como pai, ele pode facilmente conceder o perdão relacional ao filho, absolvendo-o pela ofensa pessoal. Já vimos que este perdão não pede qualquer preço ou punição. Mas, como delegado, esse homem precisa acertar as contas do jovem com a Justiça (neste caso, a Justiça Civil/Penal). O delegado não pode simplesmente absolver seu filho, pois estaria sendo parcial e injusto. A Justiça requer um pagamento pela infração do rapaz. E ele, como delegado, não pode fugir a essa obrigação.

Como o pai-delegado pode livrar o filho da prisão, sem incorrer em injustiça? O que ele faz nessa situação? Só há uma resposta que não incorre em injustiça ou desamor: o pai paga a fiança do filho com seu próprio dinheiro, perdoando o rapaz de modo relacional e jurídico. O pagamento da fiança feito pelo pai-delegado absolve o filho-réu por completo, sem transgredir a Justiça.

O que Deus faz é exatamente a mesma coisa. Para agir corretamente como Pai e como Juiz, Ele resolve efetuar o pagamento que a Justiça requer pelo pecado do homem no lugar do próprio homem, a fim de que o mesmo tivesse a chance de ser perdoado não apenas na esfera relacional, mas na esfera da justiça moral.

Então, entendemos que para o homem acertar as contas com a Justiça, alguém deveria pagar o preço da ofensa que fora cometida contra ela. Esse alguém só poderia ser o próprio pecador ou o próprio ofendido – ou o homem, ou Deus. Uma vez que o preço do pecado é a morte do pecador, então o preço a ser pago por Deus em lugar do pecador só poderia ser a sua própria morte.

A Justiça como atributo de Deus

A questão que talvez seja levantada aqui é: como podemos provar que a Justiça aceita que outra pessoa morra em lugar do pecador? Não parece algo justo. Se eu cometo um pecado, eu é que preciso pagar por ele e não alguém inocente, não é mesmo? Como resolver este problema?

É aqui que devemos lembrar que a Justiça Moral da qual estamos falando não é algo independente de Deus. A Justiça é um atributo do próprio Deus. É uma característica intrínseca a Ele. A justiça faz parte da própria essência de Deus.

Quando nós entendemos isso, conseguimos visualizar que Deus é o único ser ofendido dessa história toda. Ele precisa agir em coerência com a Justiça não porque ela seja outro ser distinto dele e a quem deve explicações, mas porque ela é um atributo inerente a Ele. Deus não pode contradizer a sua própria essência. Se a Justiça é parte de Deus, Deus não pode, nem tem como agir de modo injusto. Sua posição de Justo Juiz é absolutamente imutável. A Justiça, de fato, é ofendida quando pecamos (e deve ser ressarcida), mas ela é ofendida como atributo de Deus e não como um ser distinto. Deus é o único ser ofendido aqui.

E daí? Aonde isso nos leva? Aqui faço uma citação de C. S. Lewis que irá nos ajudar. O famoso escritor britânico afirma em sua obra “Cristianismo Puro e Simples”, num dos seus trechos mais célebres, que apenas o ofendido pode perdoar o ofensor. Diz o trecho:

Compreendemos que um homem perdoe as ofensas cometidas contra ele mesmo. Você pisa no meu pé, ou rouba meu dinheiro, e eu o perdoo. O que diríamos, no entanto, de um homem que, sem ter sido pisado ou roubado, anunciasse o perdão dos pisões e dos roubos cometidos contra os outros? Presunção asinina é a descrição mais gentil que podemos dar da sua conduta.       

Trazendo para o nosso caso, Deus, como sendo o Ser ofendido pelos pecados do homem, é o único que pode dar a eles o perdão. E, se o perdão completo depende do pagamento de um preço (a fim de que a Justiça seja ressarcida e Deus permaneça sendo perfeito Juiz), então Ele é o único que pode pagar este preço.

Talvez o leitor ache estranha essa equação: o ofendido paga o preço pela ofensa cometida contra si. Mas isso ocorre bastante entre humanos. Apresentei o exemplo do pai-delegado que paga a fiança do filho-réu, um exemplo que talvez não seja possível em nossa sociedade por uma questão de ética. Mas é bem rotineiro que pais comuns paguem a fiança de seus filhos infratores para que eles recebam liberdade. Também é comum que pais paguem um bom advogado para que seus filhos sejam absolvidos em julgamentos. Nestes casos, os pais estão pagando o preço por ofensas que foram cometidas contra eles mesmos. Quando cometemos uma infração civil, ofendemos a nossos pais, que sempre nos ensinaram a sermos justos. Os primeiros a serem atingidos por um crime são sempre os pais do criminoso (quando são pais de caráter, é claro).

O conceito de punição moral

Alguém poderia objetar que mesmo Deus sendo o ser ofendido, isso não daria a Ele o direito, dentro da justiça moral, de livrar o ser humano da punição/consequência pelo pecado. Uma pessoa com quem já debati afirmou que justiça se traduz em punição ao autor do ato criminoso. Desta forma, ninguém poderia tomar o lugar do homem na morte. Mas esta objeção se baseia em definições falsas de punição e justiça. Vamos entender melhor.

No nível moral, a punição não é um instrumento cujo objetivo é causar sofrimento, dor, angústia, tristeza e privação a um criminoso, buscando uma intensa sensação de prazer vingativo em ver o criminoso ser torturado. Não. A punição moral tem dois outros objetivos bem mais nobres e úteis que este: valorar negativamente o ato criminoso cometido (isto é, ressaltar que o ato cometido foi um erro) e gerar no criminoso uma postura de arrependimento genuíno que implique na abstenção do crime.

Em suma, para que a justiça seja feita no âmbito moral, a punição pelo ato precisa ressaltar negativamente o pecado e gerar arrependimento no pecador. E o sacrifício de Cristo se enquadra nisso? Perfeitamente. Quando Jesus assume a punição em lugar do ser humano por causa do pecado, ele ressalta sobremaneira a odiosidade do mesmo e o quanto ele precisa ser extirpado do ser humano; bem como oferece ao homem o perdão se o mesmo reconhecer essa odiosidade, arrepender-se e aceitar o seu sacrifício vicário como o único modo de ser salvo da morte.

Como o leitor pode perceber, aqueles que aceitam a Cristo, não podem ser condenados enquanto estiverem em Cristo. O sacrifício vicário de Jesus em suas vidas preenche os dois requisitos solicitados pela justiça, não restando nada que se possa falar contra a salvação dos mesmos.

Resumo da Ópera

Portanto, o sacrifício de Cristo era necessário porque, embora Deus pudesse nos perdoar facilmente como Pai, restabelecendo nosso relacionamento sem cobrar qualquer punição por isso, Ele não poderia fazer o mesmo como Juiz. Como Juiz, Deus precisava agir de acordo com o seu atributo intrínseco da Justiça. Ainda que se cogite que Deus possa agir em desacordo com um atributo que lhe é intrínseco, se Ele o fizesse seria acusado seriamente por Satanás como um Juiz parcial, injusto, condescendente com o pecado, quebrador de regras. Deus se encontrava na mesma situação de nosso pai-delegado, que não poderia simplesmente soltar o filho, sem que a pena devida fosse cumprida. Assim, para manter-se Justo e, ao mesmo tempo, Pai amoroso, Deus resolve assumir a punição em lugar dos homens, ressaltando o caráter odioso do pecado e instigando o ser humano a se arrepender. Um plano perfeito.

Implicações da necessidade do sacrifício de Cristo

Essa compreensão da necessidade da morte de Jesus não só confirma a coerência interna do cristianismo como nos ajuda a entender melhor algumas de suas mais importantes doutrinas: a divindade de Cristo, a triunidade de Deus e a exclusividade do cristianismo como religião verdadeira. Vou falar brevemente sobre como o sacrifício de Cristo leva a cada uma dessas doutrinas. Vamos começar pela doutrina da divindade de Jesus.

1) A divindade de Cristo:

Nós vimos acima que apenas o próprio ofendido pode perdoar o ofensor. Isso é algo bastante lógico. O amigo leitor não poderia perdoar, por exemplo, alguém que cometeu um pecado contra seu pai. É seu pai o único que pode e deve perdoar. O máximo que você pode fazer é perdoar o pecador por ele ter lhe ofendido quando pecou contra seu pai. Mas nesse caso, você não está perdoando propriamente a ofensa contra seu pai, mas apenas a lesão que a ofensa contra seu pai gerou em você mesmo. A ofensa contra seu pai em si só pode ser perdoada por seu próprio pai.

Nós também vimos que quando um homem resolve absolver um criminoso, deve ele mesmo sofrer as consequências do crime. Não faz sentido liberar o perdão, mas escolher a outra pessoa, que nada tem a ver com a situação, para sofrer a punição. Quando uma pessoa ofende a outra, a questão só envolve o ofendido e o ofensor. Não há espaço para um terceiro elemento. Portanto, se existe um preço a ser pago pelo pecado cometido, só há duas formas de resolver o problema aqui: ou o ofensor paga o preço pelo seu pecado, ou o ofendido toma o seu lugar, cumprindo a justiça e salvando o ofensor. Não existe uma terceira opção.

Se Jesus Cristo fosse apenas Filho de Deus, como interpretam alguns grupos religiosos, seu sacrifício não valeria absolutamente nada para a humanidade. Afinal, os pecados da humanidade são cometidos contra Deus. Então, se Deus quer perdoar-nos e tomar a nossa punição, apenas Ele mesmo pode fazê-lo. Jogar qualquer outro ser na equação, ainda que seja seu próprio Filho, invalida o perdão.

Jesus, na qualidade de apenas Filho, no máximo poderia perdoar as lesões que os pecados contra seu Pai o causaram, mas não os pecados em si cometidos contra o seu Pai. E Deus, por sua vez, não teria qualquer autoridade para perdoar legitimamente (isto é, sem contradizer a justiça) se Ele mesmo não se sacrificasse. Ao contrário disso, Ele apenas ratificaria a injustiça, pois estaria concordando com a morte brutal de um justo, que nada tinha ver com a situação, e eximindo-se da responsabilidade de assumir a pena, já que queria salvar o ser humano.

Então, se realmente o sacrifício de Cristo era necessário para nos perdoar moralmente e nos salvar da morte (e é isso o que a Bíblia afirma), Jesus Cristo só pode ser o próprio Deus. Ele é parte de Deus, um só em essência com o Pai. Seu sacrifício só faz sentido se assumirmos isso. Assim, toda a ofensa cometida contra o Pai era igualmente cometida contra o Filho, pois ambos eram um único Ser. E, por isso, Jesus tinha toda a autoridade para perdoar, pois Ele era o próprio Deus que estava morrendo por nós. Ninguém mais além de Deus poderia fazer isso de modo legítimo e eficaz.

2) A triunidade de Deus:

Aceitando que Cristo só poderia ser divino, já concluímos que Deus é, no mínimo, formado por duas pessoas divinas. Mas existem algumas informações bíblicas sobre as funções desempenhadas pelo Pai e pelo Filho que demonstram claramente que precisa haver mais uma pessoa na divindade. Acompanhe o raciocínio.

Embora Deus transcenda tudo o que criou (tempo, espaço, matéria e energia), não tendo sua natureza limitada por nenhuma de suas criaturas, Ele mesmo escolhe rebaixar-se ao nível delas (e já o fez no próprio ato criativo), a fim de relacionar-se. Não o faz por necessidade, mas por amor. Uma das formas pela qual fez isso foi se tornando visível e materializado como Pai e Filho. Antes que o amigo leitor me acuse de heresia, deixe-me lembrá-lo de algumas coisas. Sempre que Jesus Cristo se referia ao Pai, afirmava que Ele estava no céu. A mais famosa oração de Jesus, fornecida por ele como modelo para nós, começa como? “Pai Nosso que estás no céu”.

O céu, por sua vez, é sempre descrito pela Bíblia em termos espaciais, como sendo mesmo um lugar tangível e não uma realidade fora do tempo e do espaço. Tanto é que seus habitantes são narrados como tendo corpos. Enoque, que não viu a morte, mas foi tomado por Deus encontra-se no céu com corpo. Elias, que também subiu aos céus sem morrer e lá está, também lá entrou fisicamente. Jesus, o mais ilustre dos habitantes do céu, subiu de modo corpóreo também. Seu corpo glorificado após a ressurreição era tão físico que podia ser visto, ser tocado, andar pelo chão e comer alimentos. Detinha até as marcas de suas feridas nas mãos. Paulo, que também subiu aos céus (embora não tivesse certeza de que foi mentalmente ou fisicamente), afirmava que todos nós ganharíamos novos corpos na ressurreição, e subiríamos aos céus com eles.

O que quero dizer com tudo isso é que a Bíblia indica que não foi apenas Cristo que assumiu um corpo (no Antigo Testamento, um corpo de anjo – Ele é o tal “Anjo do Senhor”, por exemplo – e, no Novo Testamento, o corpo de homem), mas o próprio Pai escolheu incorporar-se. Outros textos ainda indicam isso. Por exemplo, a Bíblia diz que Moisés as costas de Deus no monte Sinai. Estevão viu Cristo sentado à destra do Pai antes de morrer. Diversos autores falam em que Deus tem um trono. Por mais que essas descrições possam estar repletas de simbolismos (não acreditamos na literalidade de um trono do qual nasce um rio, por exemplo) eles dão testemunho de que o Pai se encontra corporalmente em algum lugar. Em nenhum momento se fala do Pai estando na Terra ou mesmo em todos os lugares. Ele está no céu em tudo quanto é descrição.

O problema aqui é que se tanto o Pai, quanto o Filho escolhem estar em algum lugar fisicamente, deixam de lado o atributo divino da onipresença. Se o Pai está no céu e só no céu, não está na terra ou em outro local. O mesmo se dá com o Filho. Contudo, esse atributo é essencial para os planos de Deus. Como Ele poderia reger o universo e dar sua proteção a todos os homens não sem estar em todos os lugares?

É aqui que entra a função do Espírito Santo. O Espírito permaneceu sendo Espírito e por esse motivo está em todos os lugares. Jesus, quando promete aos seus discípulos que Eles seriam batizados pelo Espírito de Deus afirma que “o mundo não pode receber [o Espírito], porque não o vê, nem o conhece; vós [discípulos] os conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós” (João 14:17). Tais palavras nos dizem muito. Jesus estava deixando claro que o Espírito Santo permanecia no meio deles e que, em breve, a presença desse Espírito se faria ainda mais forte, não mais no meio deles, mas (de algum modo desconhecido para nós) dentro deles.

Voltamos um pouco no Antigo Testamento para perceber o que Deus sempre esteve em meio ao seu povo através justamente do seu Espírito: Em Ageu 2:5 lemos: “[...] segundo a palavra da aliança que [Eu, o Senhor] fiz convosco, quando saístes do Egito, o meu Espírito habita no meio de vós; não temais”. A passagem ganha maior importância quando averiguamos que a promessa relembrada por Deus em Ageu está descrita em Êxodo 33:12-14: “Respondeu-lhe [o Senhor a Moisés]: ‘A minha presença irá contigo e eu te darei descanso’”. Tais palavras deixam claro que Deus se fazia presente entre o povo através do Espírito Santo.

Avançando novamente ao Novo Testamento, vemos que Jesus trata ao Espírito Santo não como uma força ou um poder enviado por Deus, mas como um agente pessoal, que o substituirá como consolador, que virá em seu nome, que ensinará e fará lembrar todas as coisas aos discípulos que convencerá as pessoas do pecado, da justiça e do juízo, que guiará à verdade e etc.

Todas essas informações não só deixam claro que existe uma pessoa na divindade como nos ajudam a pintar um quadro no qual a existência dessa terceira pessoa é essencial para que o cristianismo faça sentido. E é aqui que entra a relação entre o sacrifício de Cristo e a triunidade de Deus. Cada uma das pessoas da Trindade desempenha uma função específica no plano de redenção do homem. Enquanto Jesus Cristo se torna um ser humano e morre pela humanidade, o Pai é aquele que permanece mantendo a ordem e a direção do universo com todo o poder divino; e o Espírito Santo, aquele que está em todos os lugares, que tem acesso aos corações, que inspira, que influencia, que instiga, que ajuda, santifica, fortalece, ouve as orações e representa plenamente tanto o Pai quanto o Filho junto à humanidade.

A forma como a Bíblia Sagrada descreve tais funções, não permite a ideia de que Deus não seja uma Trindade. O Pai, em sua forma gloriosa, visível e corpórea, não adentra os corações, nem permanece em todos os lugares. Ele escolhe fazê-lo através do Espírito Santo. O Espírito Santo, por sua vez, não se faz visível, nem aparece em glória. Ele o faz através do Pai. O Pai, sendo o diretor do universo, não larga a direção para morrer pela humanidade. Ele o faz por meio de Cristo. Cristo, sendo o aquele que morre por nossos pecados, abdica de dirigir diretamente o universo, de ser onipresente e de ter habitação no coração dos homens. Escolhe desempenhar estas funções indiretamente, através das ações do Pai e do Espírito Santo.

Um texto curioso que talvez sintetize tudo isso está em João 16:7-8: “Convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador [Espírito Santo] não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei. Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo”. Em outras palavras, Jesus estava dizendo que a função dele era morrer, ressuscitar e partir. A função do Espírito Santo era adentrar corações e orientar pessoas ao convencimento do pecado, da justiça e do juízo. Se ele não fosse, o Espírito não cumpriria a missão dele. Jesus demonstra ali que as funções entre as pessoas da Trindade eram bem definidas e não seriam modificadas.

Há outro texto interessante, que complementa o que estou dizendo. Está em João 14:16-17, onde Jesus diz: “E eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, o Espírito da Verdade...”. Mais uma vez, o que Jesus mostra é que havia um terceiro membro na divindade. Este membro não era Jesus, pois Jesus iria embora e este era “outro Consolador”. Também não era o próprio Pai, porque Ele seria dado pelo Pai (Jesus não diz que pediria ao Pai para vir pessoalmente, mas para enviar a outrem) Por quê? Porque a função deveria ser desempenhada por uma terceira pessoa na divindade, não por Jesus, nem pelo Pai. 

Concluímos, portanto, que o sacrifício de Jesus implica numa divisão de funções entre as pessoas que compõem a divindade. E uma vez que ao Pai coube a manifestação de si mesmo em glória e a direção do universo, era necessário haver ainda uma terceira pessoa divina, o Espírito Santo, responsável por fazer o que não era função nem de Jesus Cristo, nem do Pai.

3) A exclusividade do cristianismo:

A necessidade da morte Cristo implica, finalmente, no fato de que o cristianismo é a única religião verdadeira e coerente. Não será necessário muitas linhas para explicar a razão. Em nenhuma outra religião existe uma solução efetiva para o problema do ser humano com o pecado. No judaísmo e no islamismo, Deus não se sacrifica pelo homem para perdoar seu pecado. Ele age simplesmente perdoa, destoando com a justiça. Ele é o “pai-delegado” que solta o filho da cadeia sem pagar a fiança. É um Deus que contradiz sua natureza e que é acusado pelo diabo por ser parcial e injusto. É um Deus que não consegue equilibrar justiça e amor paternal. E o homem, por sua vez, permanece sem o perdão perante a justiça. Seu perdão é falso, ilegítimo, ilusório. Ninguém pagou o preço pelo pecado. Ninguém o comprou das mãos de Satanás.

No espiritismo, no budismo e no deísmo, Deus também não se sacrifica; e ao próprio ser humano é delegada a tarefa de vencer o problema do pecado, alcançar o perdão e se tornar santo, como se fazer coisas boas anulassem nossos erros ou nossa condição de pecador. O homem do espiritismo e do budismo é elevado a um ser autossuficiente, que pode pagar sua dívida para com Deus e mudar sua própria natureza. Ignoram-se nessas religiões todos os empecilhos práticos e até lógicos para se efetivar isso fazem do homem deus para si mesmo.

Na religião das testemunhas de Jeová, Deus salva através de Jesus Cristo, mas Jesus Cristo não é Deus. Assim, temos um Deus que se esconde de se sacrificar pelo homem, enviando alguém que nada tem a ver com a situação. Morre, então, um justo e tal morte é inútil, pois não serve para salvar-nos.

Enfim, nenhuma religião apresenta o correto remédio para o problema do pecado. É só no cristianismo que encontramos um Deus capaz de efetivamente perdoar o homem, sem transgredir a justiça, sem contradizer sua natureza, sem delegar a outrem a punição pelo crime do homem. É apenas no cristianismo que encontramos salvação verdadeira, plena, inquestionável. É só no cristianismo que encontramos o ser humano colocado em seu devido lugar: no lugar de pecador impotente, que nada pode fazer para resolver sua relação com Deus a não ser esperar por uma ação do próprio Deus que o possibilite ser salvo e o dê forças para buscar a santidade.

Com efeito, o cristianismo é a religião mais realista que existe. Você pode achar que ela não é verdadeira. E talvez ela não seja mesmo. Mas se não é, nenhuma outra é. Agora, se ela é verdadeira, não há outro caminho. Não há coerência fora do cristianismo. Não há coerência fora do sacrifício deste homem.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Por que me tornei de direita? - Parte 2

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Na última postagem, iniciei um texto explicando quais foram as razões que me levaram a virar de direita. Como o texto ficou muito grande, eu o dividi em duas partes e o subdividi em oito capítulos e uma conclusão. Na parte 1, vimos os cinco primeiros capítulos.

Agora, veremos os últimos três e a conclusão. Se o leitor não leu a parte 1, clique aqui e leia. É essencial para entender a parte 2, já que se trata de um texto só. Ao fim desse texto, colocarei também uma lista de textos meus que falam mais pormenorizadamente sobre cada tema que citei nesse texto. Agora, vamos à continuação do texto.

Capítulo 6: A cultura mortífera de esquerda
   
Quando você se torna conservador em política, começa a entender que as ideias esquerdistas são ruins e mortíferas não apenas em economia, política e filosofia. Elas também são uma desgraça moral e cultural. Esquerdistas procuram destruir tudo o que é bom, alegando ser opressivo e preconceituoso. Assim, eles vivem disseminando ideias contra a religião e os religiosos, as artes clássicas europeias, a castidade antes do casamento, a moral judaico-cristã, a noção de verdade e moral absolutas, a repreensão de filhos mal criados, a criminalização das drogas pesadas e etc.
   
O resultado é o rebaixamento dos padrões de cultura, a idiotização das pessoas, a disseminação de uma vida sexual promíscua, a elevação do prazer individual acima da dignidade humana, a geração de músicas, danças e artes burras e que nada acrescentam às pessoas, o desestímulo ao estudo e à leitura; o aumento de divórcios, de gravidez na adolescência, da AIDS, dos desequilíbrios familiares, dos pais irresponsáveis, das crianças, adolescentes e jovens sem limite, dos viciados em drogas, do desrespeito aos religiosos, de colegiais e universitários baderneiros, em suma, a destruição em longo prazo dos valores da sociedade.

A esquerda quer ver isso mesmo, porque pretende destruir a sociedade, para construir uma nova. Assim, tudo o que milite contra a moral, a religião, a verdade, a tradição, a ordem e a família, é positivo. E quando esses graves problemas causados e/ou aumentados à décima potência pela esquerda são apontados pela população, o que fazem os esquerdistas? Culpam a direita. Assim, se os jovens crescem cada vez mais revoltados, a culpa não é da destruição da família, mas do capitalismo. Se as meninas engravidam cedo, antes de casar, e o pai ainda vai embora, a culpa não é da família desestruturada, do incentivo à imoralidade sexual, da idiotização do povo, mas da religião, dos conservadores, da burguesia, do anti-aborto, ou qualquer outra coisa. Essa postura é essencial aos planos da esquerda de destruir tudo.

Karl Marx e Friedrich Engels, em “Manifesto do Partido Comunista”, ao responderem a objeção de que o comunismo era contra as ideias tradicionais da religião, da moral, da filosofia, da justiça, da família, da liberdade e etc., ideias essas que eram verdades eternas, afirmam: “A revolução comunista é a ruptura mais radical com as relações tradicionais de propriedade; não é de espantar que no curso de seu desenvolvimento ela rompa da maneira mais radical com as ideias tradicionais”.
   
Antonio Gramsci, ideólogo marxista italiano da época do fascismo, ao analisar porque o marxismo não tinha dado certo na Europa, concluiu que a cultura proletária ainda estava baseada nas ideias tradicionais. Assim, ensinou a esquerda a travar uma guerra cultural que minasse ao longo das décadas a religião, a moral judaico-cristã, a família, inculcando no senso comum o marxismo. A ideia não era transformar o povo em profundo conhecedor do marxismo, mas apenas um senso comum que estivesse de acordo com o que o partido comunista quisesse fazer.
   
Posteriormente homens como Adorno, Marcuse e Horkheimer colocaram para frente os princípios gramscistas de destruir a cultura, sobretudo a ocidental, baseada fortemente no cristianismo e no capitalismo. Daí surgiu a revolução sexual, as revoltas jovens, à apologia ao uso de drogas, ao ateísmo ou religiões tribais e sincretistas, às artes insanas, ao desrespeito aos pais, à destruição do patrimônio público, ao nudismo público e etc.
   
A União Soviética faliu no início dos anos 1990, mas como bem lembra Olavo de Carvalho, o que acabou foi a URSS, não o comunismo. É idiotice pensar que pessoas que foram comunistas por dez, vinte, trinta, quarenta anos deixariam facilmente os princípios marxistas e abraçariam de bom grado o capitalismo que tanto odiavam. O que ocorreu foi que comunistas continuaram marxistas, mas agora se orientando dentro dos moldes de Antonio Grasmci, no qual a guerra agora é cultural. A ideia não é dar um golpe violento e assumir o governo com toda aquela retórica de destruição da burguesia e estatização da economia. A ideia é mudar a mentalidade das pessoas gradualmente a fim de que o partido de marxista (ou mais esquerdista que houver no país) se torne “a autoridade onipresente e invisível de um imperativo categórico, de um mandamento divino”. A hegemonia deve ser alcançada primeiramente na cultura. Conseguindo isso, o partido poderá sonhar em se manter eternamente no poder. E não é isso que temos visto acontecer, sobretudo no Brasil?

Capítulo 7: A esquerda e a criminalidade
   
A criminalidade é um problema filosófico, cultural, político e econômico (ao mesmo tempo) que a esquerda só faz aumentar (quando ela mesma não é a responsável por criar). Uma vez que para a esquerda, o ser humano não é mal, mas corrompido pelo capitalismo e outros fatores externos, geralmente o esquerdista enxerga o criminoso ou como vítima, ou como herói. Enxerga como vítima quando o criminoso é de origem pobre e/ou é um menor de idade. Ele é vítima da pobreza, das falta de condições, da exploração capitalista, do preconceito ou, simplesmente, do fato de ainda ser menor de idade (o menor de idade não tem capacidade de discernir entre certo e errado).
   
Por esse motivo, a esquerda costuma a brigar para que criminosos tenham penas leves e breves, a fim de que voltem logo à sociedade. E ela entende que a função primordial da prisão não é proteger o cidadão honesto de novas injustiças do criminoso, mas sim a de reeducar o criminoso.
   
Não que reeducar o criminoso não seja algo nobre e desejável. Mas essa não é a função primária da cadeia. Isso seria priorizar o criminoso em detrimento da vítima. A principal função de isolar o criminoso não é reeducá-lo, mas proteger o cidadão. A reeducação é segundo plano. Por não entender isso é que a esquerda não combate a criminalidade com rigidez, criando uma sociedade na qual o criminoso reina e o cidadão honesto é punido.
   
Já os criminosos ricos, quando são políticos de esquerda, são defendidos pela esquerda, em primeiro lugar, com a desculpa de que não fizeram nada; foram acusados injustamente. E, depois, quando o governo esquerdista já alcançou grande poder e popularidade, como uma medida necessária para alcançar a justiça social e manter o povo no poder (os fins justificam os meios utilizados, entende?).
   
Assim, os criminosos se tornam heróis e a criminalidade continua reinando. E como se alcança isso? Como já dito, destruindo a família, a moral, a religião, a correção aos filhos, as leis firmes; ganhando poder, através de impostos e regulamentações, se infiltrando na educação para doutrinar alunos politicamente, mantendo a população sob o jugo da inflação, dos péssimos serviços públicos e dos monopólios privados (para botar a culpa de tudo na direita) e etc. Aliás, criar criminosos é ótimo para ajudar a destruir a sociedade tradicional, o que é o objetivo máximo da esquerda.

Capítulo 8: Um direitista consciente
   
Eu entendi isso, sobretudo, depois de ter contato com renomados pensadores conservadores como Edmund Burke e Russel Kirk. Então, deixei de colocar muita confiança no liberalismo. Eu o continuo defendendo e não tenho dúvidas de que o livre mercado é muito superior ao intervencionismo. Mas não o defendo sozinho. Economia é apenas um dos vários aspectos que formam uma sociedade. Não é o único e, portanto, não deve ser tratado como tal.
   
Neste ponto acredito que me tornei um direitista totalmente consciente. Eu agora podia expressar de maneira legítima o que a direita defendia e porque eu acreditava em suas ideias. Eu agora eu conhecia os gigantes do pensamento de direita (os quais não me foram mostrados na escola) tais como Edmund Burke, Frederic Bastiat, Alexis de Tocqueville, Eugen Von Bonh-Bayerk, Barão de Mauá, G. K. Chesterton, Ludwig Von Mises, Ruy Barbosa de Oliveira, Murray Rothbard, Winston Churchill, C. S. Lewis, Eric Voegilin, Eric Von Kuehnelt-Leddihn, Friedrich Hayek, Milton Friedman, Ronald Reagan, Margaret Thatcher, Ângela Merkel, Thomas Sowell, Olavo de Carvalho, Roger Scruton e etc.
   
O senso comum não conhece quase nenhum desses autores e quando conhecem alguns deles, só os conhecem através dos comentários de terceiros. Eu era assim. Não conhecia o que a direita falava através de suas próprias palavras e ações. Não conhecia a história contada pelo outro lado. Não tinha como comparar as visões de diversos autores porque eu só conhecia Karl Marx e Friedrich Engels (e, mesmo assim, muito mal. Eu sabia das suas ideias em forma de propaganda, sempre como algo bom).
   
Minha posição de direitista, no entanto, não me fez uma pessoa acrítica quanto aos problemas da direita, tampouco intolerante em relação à todas as coisas o que vem da esquerda. Talvez alguns amigos liberais não gostem do que vou falar, mas não sou totalmente contra leis trabalhistas, por exemplo, embora elas dificultem um pouco o crescimento econômico. Direito a férias e folga semanal, férias pagas, décimo terceiro salário, limitação das horas de trabalho semanais, adicional noturno e o seguro desemprego são leis de cunho esquerdista que acho boas (embora pense que há arranjos que tornam o encargo menos pesado às empresas).
   
Eu também não penso que a sociedade deva ter apenas direitistas. Ao contrário, a coexistência de direita e esquerda é essencial à manutenção de uma boa democracia e do Estado de direito. É preciso haver oposição de ideias. Isso é o que gera equilíbrio e evita extremismos, idealismos, dogmatismos e ditaduras. Sim, a direita também pode se tornar ditatorial, por mais que preze a liberdade econômica (que só funciona bem junto com a liberdade política).
   
O que penso que deveria ser expressamente proibido é o comunismo. Seguir as ideias de Marx e flertar com pensamentos revolucionários que intentem destruir tudo, criando classes inimigos e apelando à desordem, deveriam ser crime. Muitos países do leste europeu que sofreram com o comunismo equiparam, em suas leis, o comunismo ao nazismo. Lá, exibir a foice e o martelo, símbolo do comunismo, é tão ofensivo quanto exibir a suástica nazista. Nada mais correto, levando em conta que o comunismo matou mais de 100 milhões de pessoas.
   
Com relação aos EUA, devo dizer que não sou um defensor deste país acima de todas as coisas. Essa é a visão que a esquerda propaga dos direitistas: de que eles são puxa-sacos dos americanos. Alguns podem até ser. Mas não são todos. E faço parte dos que não se curvam diante dos americanos. No entanto, não aceito olhar os americanos como os piores inimigos do mundo. Em minha visão, todos os países são igualmente cruéis, pois seus governos são formados por homens e todos os homens falham.
   
O que diferencia um país do outro no que se refere a capacidade de infligir o mal é justamente a posição política e econômica. Qualquer país que assuma a liderança política-econômica do mundo terá um exército poderoso e, com isso, quererá dominar os mais fracos e se proteger dos que tem mais potencial. Se a Etiópia alcançasse a hegemonia política e econômica, teria sido tão cruel quanto foram os EUA, ou a URSS em diversas ocasiões. Colocar os EUA como o grande vilão é ignorar a verdade básica e realista de que todos os países são vilões e de que não há heróis no mundo.
   
Além disso, conquanto os EUA tenham usado de sua autoridade para subjugar povos e gerar guerras, este país apresentou ao mundo muitas virtudes econômicas e políticas desde seu processo de independência, teve um papel de destaque no conflito contra o comunismo e, através de seus conservadores, ainda sustenta o mundo hoje de colapsar diante do projeto destrutivo da esquerda (incluindo a esquerda americana, que é muito forte, embora muitos acreditem que nos EUA só há direitistas). Essa é a minha visão sobre o EUA.
   
Com relação à ditadura militar brasileira, evidentemente eu não a endosso. Creio que foi um regime desnecessário e nocivo. Não sou um desses idealizadores do passado, que pintam o período como maravilhoso e até pedem a volta do regime. Entretanto, é necessário fazer uma distinção entre a intervenção militar de 1964 e o regime que se seguiu. O primeiro impediu um genocídio. O segundo sufocou a democracia. Vamos entender o contexto.
   
O Brasil vivia um intenso embate entre políticos comunistas e conservadores. E o mundo vivia em plena guerra fria entre americanos e soviéticos. A URSS tinha claro interesse em tornar o Brasil uma potência comunista na América do Sul, o que sufocaria totalmente os EUA. Os EUA, por sua vez, tinham claro interesse em evitar a escalada comunista no Brasil, a fim de manter sua hegemonia no ocidente. Então, o presidente Jânio Quadros renuncia o cargo e assume a presidência João Goulart, um esquerdista que mantinha fortes relações diplomáticas com o regime comunista chinês e pretendia expropriar terras para fazer a reforma agrária. Este cenário oferecia uma série de perigos ao Brasil:
   
(1) a escalada democrática do comunismo ao poder, através de uma política populista, intervencionista e que não mostrava ao povo as desgraças que o comunismo estava causando em outros lugares;
   
(2) um golpe comunista no âmago do governo, através de políticos comunistas brasileiros e auxílio soviético, chinês ou cubano;
   
(3) uma mescla dos dois pontos acima;
   
(4) um golpe americano que tornasse o Brasil uma colônia dos EUA;
   
(5) a deflagração de uma guerra entre tropas americanas e tropas soviéticas em pleno Brasil, numa luta sanguinária pela posse do território brasileiro.

Tudo isso era possível. E em todas essas hipóteses, o Brasil se tornaria um mar de sangue. Se a intenção dos principais militares que interviram politicamente no Brasil em 1964 era simplesmente tomar o poder, por pura ambição, ou se queriam salvar a pátria deste risco, ou se havia ambiciosos e patriotas juntos, nada disso importa. As intenções dos militares interventores são irrelevantes. A questão é: havia riscos e à soberania brasileira, tanto do lado americano, quanto do lado soviético, e a intervenção militar os evitou.
   
No entanto, o regime que se seguiu durante 21 anos foi desnecessário. Seja por ambição, ou por um erro estratégico, ou pela união das duas coisas, os altos militares do governo não entregaram o país à democracia como prometido, tampouco tomaram providências inteligentes e efetivas para desmascarar o comunismo, equipará-lo ao nazismo e vencer a guerra cultural. Apenas agiram com brutalidade, criaram ódio nos estudantes e deram espaço para que a esquerda vencesse no campo da cultura.
   
O regime militar venceu na guerra física contra o marxismo, mas perdeu na guerra ideológica. Permitiu que a direita perdesse todo o crédito perante o povo brasileiro, contrariou conservadores que haviam apoiado a intervenção só para manter a democracia, fez a maioria dos estudantes universitários se identificar com a esquerda, abriu o caminho para a doutrinação marxista na cultura e não permitiu que o liberalismo econômico se instaurasse no país. Resultado: quando os altos militares deixaram o poder, quase todo mundo se considerava de esquerda.
   
Assim, minha opinião sobre o regime militar que se seguiu à intervenção é que ele de que ele se constituiu uma verdadeira catástrofe, sobretudo para a direita brasileira, que sofre até hoje por conta dessa herança maldita. Tivessem os militares se limitado a expulsar os comunistas do país, desmascarar a esquerda radical, equiparar comunismo ao nazismo, destruir ideologicamente os professores marxistas, munir os universitários de conhecimento sobre grandes autores de direita, incentivado o liberalismo econômico e mantido a democracia, convocando eleições diretas dentro de um período máximo de um ano, a direita hoje seria forte no Brasil e o PT não estaria transformando o país no mar de lama que é hoje.

Conclusão

Eu não esperava que meu texto ficasse tão extenso, mas acredito ter oferecido uma visão bem ampla sobre minha posição política. Obviamente não esgotei o assunto. Outros textos meus falam mais pormenorizadamente dos temas aqui tratados, tais como a definição e origem da esquerda e da direita, os problemas do comunismo, os pontos positivos do capitalismo e do empreendedorismo, a análise dos movimentos fascistas e nazistas, a definição de conservadorismo e etc. Deixo alguns deles no fim do texto.
   
Devo dizer ainda que minha posição política não flerta com a utopia. Não creio que a direita pode mudar o mundo. Como sendo cristão, entendo que este mundo já está fadado ao fracasso. A minha obrigação é torná-lo menos pior para as pessoas até que Jesus Cristo venha e ponha fim a toda a miséria e injustiça ou que eu morra. E esse é mais um dos motivos que me fazem ser mais conservador e cético em relação a projetos de mundo melhor. Como diz Olavo de Carvalho: “Quando alguém diz que tem um projeto de mundo melhor, eu já me escondo debaixo da cama”. O conservador, em suma, é aquele que tem medo de piorar a coisa. Ele é realista. Sabe que a mudança só pode ocorrer dentro de certos moldes já conhecidos e certos limites humanos. O que passa desses moldes e limites, sem dúvida, vai dar errado.
   
Estou aberto a discordâncias, desde que construtivas e que levem em conta os autores que citei durante o texto. Críticas baseadas em senso comum serão consideradas imbecis à priori. Espero ter sanado dúvidas.

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Outros textos importantes:

Por que me tornei de direita? - Parte 1

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Resolvi expor aqui as razões pelas quais eu me tornei de direita (ou conservador político, reacionário, coxinha... O que vocês preferirem). Vou fazer isso porque algumas pessoas não entendem a minha posição política e não poucas acham que eu me tornei de direita por mera modinha, sem ter qualquer base razoável para isso, mas apenas baseado em bordões, frases de efeito e ideias estereotipadas. Espero com este texto possa sanar algumas dúvidas e deixar claro para todos a minha posição.

Sobre a organização do texto, uma vez que ele ficou bem maior do que eu pensava que ficaria, resolvi dividi-lo em duas partes. Além disso, ele é subdividido em oito capítulos breves, que vão revelando aos poucos o passo a passo da minha transformação política, e uma conclusão. Vamos começar.

Capítulo 1: Como era o meu pensamento?
   
Até os meus 17 anos de idade eu não tinha o menor interesse em política. Minha visão sobre o assunto era a visão comum à maioria dos brasileiros. Ela se resumia no seguinte conjunto de ideias:
(1) só existem dois tipos de políticos: os honestos e os desonestos. No Brasil, os desonestos são a maioria;
(2) os desonestos são aqueles que desviam verbas para encher os próprios bolsos e enriquecerem. Os honestos são aqueles que querem beneficiar o povão com coisas públicas;
Em outras palavras, eu acreditava que para o Brasil mudar apenas precisávamos de políticos honestos. Mais nada. Afinal, políticos honestos não roubariam dinheiro, mas, em vez disso, iriam criar e ampliar um monte de coisas públicas, beneficiando as pessoas pobres. Simples assim! “Se isso não acontece no Brasil”, pensava eu, “é porque há muita corrupção”.
   
A partir desses dois pensamentos acríticos eu concluía quase inconscientemente:
(3) que a raiz de todos os problemas do Brasil é, indiscutivelmente, a corrupção;
   
(4) que quem luta por coisas públicas é honesto e a favor dos pobres;
   
(5) que um governo bom é o que faz muitas coisas públicas;
   
(6) que qualquer manifestação de pessoas pobres contra pessoas ricas e/ou a favor de coisas públicas é sempre algo bom, pois parte de gente honesta;
   
(7) que grandes empresários são o pior tipo de gente que pode existir (junto com os políticos corruptos). Afinal, eles são donos de grandes riquezas privadas, e o privado é ruim, o público é que é legal;
   
(8) que privatização é algo muito ruim;
   
(9) que o capitalismo é algo ruim;
   
(10) que os EUA são o pior inimigo do mundo;
   
(11) que o governo FHC não foi bom, pois privatizou empresas;
   
(12) e que o comunismo, embora tenha dado alguns “pequenos problemas” (mas “nada” tão grave e horrendo, como foram o nazismo, a ditadura militar brasileira ou as guerras feitas pelos norte-americanos), ele tem muitos princípios bons que podem ser usados no capitalismo para ajudar os pobres. Assim, ser marxista é algo bom; e só empresários e políticos corruptos são antimarxistas.
Pois bem. Essa era minha visão até os 17 anos de idade. E é válido ressaltar que eu achava política uma chatice. Quando alguém dizia a palavra política, geralmente me vinha à mente a visão de esquemas de corrupção revelados pelo “Fantástico”, na Rede Globo, ou de propagandas partidárias. Ou seja, eu era um prisioneiro do “senso comum”, da opinião medíocre, da unanimidade. Minhas crenças faziam parte de um saco de crenças que todo mundo que não entende e não tem interesse em política compartilha com alegria, achando-se muito inteligente.

Capítulo 2: Como e quando minha visão começou a mudar?
   
As coisas começaram a mudar quando eu estava no 3° ano do ensino médio. Eu me preparava para o vestibular e contraí uma preocupação: o atual ambiente acadêmico costuma a ser hostil ao cristianismo e aos cristãos. Como eu não queria ter embates com professores e alunos sobre minha fé sem que ter como responder racionalmente, passei a estudar sobre o assunto. Acabei descobrindo a apologética, um ramo da teologia que se ocupa em explicar, embasar e defender o teísmo e o cristianismo de maneira racional, baseando-se em campos de estudo como: filosofia, lógica, ciências naturais, história, arqueologia, literatura, filologia, princípios interpretativos básicos e etc.

Naquele momento, um novo mundo se abriu diante dos meus olhos. Eu percebi que, embora a maior parte das pessoas não saiba (mesmo os cristãos), há milhares de sites e livros que tratam de temas apologéticos, respondendo com tranquilidade todas as críticas lançadas por acadêmicos antirreligiosos ao teísmo e ao cristianismo; críticas essas que são tolamente alardeadas pelas grandes mídias, a fim de vilipendiar a religião, causar polêmicas e ganhar audiência. Os livros apologéticos que descobri, aliás, são de autores renomados em suas faculdades, com títulos de doutorado e pós-doutorado nas mais diversas áreas de estudo.
   
O interesse que ganhei pela área apologética dura até hoje. Eu passaria os dois anos seguintes àquela descoberta em intenso estudo individual. Ora, seria justamente este estudo que me introduziria também à política. Como? Vamos ver.
   
Os três sites que eu mais lia sobre apologética eram “Quebrando o encanto do neoateísmo”, “Luciano Ayan” e “Teísmo”. Os três sites tinham como objetivo não só apresentar argumentos racionais para o cristianismo, mas atacar argumentos falhos e desonestos de neoateus.
   
Quem são os neoateus? Peço muita atenção do leitor agora. Neoateus são ateus antirreligiosos e militantes. Eles não apenas descreem de Deus, mas também odeiam a religião, são hostis aos religiosos e passam a maior parte de seu tempo livre tentando “desconverter” pessoas e lançando ofensas diversas contra crentes, crenças e símbolos religiosos. Para eles, todas as religiões são nocivas e precisam ser extintas da terra. E eles lutam diariamente por isso.
   
O problema dos neoateus não é só a agressividade e o desrespeito à liberdade religiosa. Além disso, eles também são desonestos intelectualmente. Eles não estudam nada do que dizem renomados intelectuais religiosos, lançam argumentos falaciosos e mentiras, fazem interpretações absurdas da Bíblia (a fim de forçar contradições) e põem na conta das religiões todos os males do mundo.
   
Se o leitor é ateu, mas não se sente representado por este tipo de gente, não é necessário ficar chateado comigo. Há uma diferença grande (ou melhor, enorme) entre um ateu e um neoateu. Um ateu é aquele cara que simplesmente não acredita em Deus, mas que não se importa se outras pessoas acreditam. Desde que a crença das outras pessoas não interfira na sua vida, ele não vê problema na existência de religiões. Ele até consegue ver bons ensinamentos em cada uma delas e apenas condena fanatismos. Um ateu às vezes até se esquece de que é ateu. Isso é algo que não ocupa muito a sua mente, assim como uma pessoa que não acredita em alienígenas não costuma a se ocupar muito pensando nesse fato.
   
Pois bem, os três sites do qual eu falava criticavam radicalmente neoateus apenas, e não meros ateus. Para os autores desses sites, os neoateus não eram sequer considerados dignos de respeito, em função de sua postura suja; eram tratados como desonestos e picaretas intelectuais, e ninguém deveria se ocupar em convertê-los, mas em desmascará-los diante daqueles que pretendiam enganar com suas mentiras.
   
Ora, não demorou muito para que os autores desses três sites (que mantinham uma boa correspondência entre si) começassem a perceber que o neoateísmo estava fortemente relacionado a doutrinas políticas de esquerda, como o marxismo, o humanismo social, o anticlericalismo revolucionário, o globalismo, os diversos socialismos, o feminismo radical, o gayzismo e etc. Como se dá essa relação? Vamos entender.
   
A esquerda política, desde seu surgimento, sempre pregou uma visão otimista do ser humano, na qual ou ele é bom por natureza (tendo sido corrompido por fatores sociais), ou ele é moralmente perfectível (isto é, que é capaz de caminhar para a perfeição ou algo bem próximo disso). Daí decorre a crença esquerdista de que o ser humano é plenamente capaz de transformar o mundo, através da destruição dos fatores sociais que causam a crueldade, a injustiça e a exploração, e, em última instancia, da própria sociedade hoje existente, a fim de se construir outra. E como fazer isso? Ora, colocando as pessoas certas no governo, dando muito poder a essas pessoas e destruindo os grupos inimigos que impedem a ação desse governo iluminado. Essa é a receita de todas as revoluções de esquerda desde a revolução francesa, mãe de todas.
   
O neoateísmo tem muitas ideias semelhantes ao pensamento revolucionário de esquerda. Ele não entende a natureza do homem como a principal culpada pelos males do mundo, mas acredita que a crença em Deus é a responsável por criar injustiças, guerras e crueldades. Ele também enxerga o homem como um ser perfectível, que pode mudar o mundo se destruir todas as religiões.
   
Finalmente, pelo fato de negar a Deus, o neoateísmo tende a substituir Deus por outra autoridade (ou mais de uma), e a substituir a esperança da vida eterna no paraíso pela esperança de um paraíso efêmero aqui na terra. Por estas semelhanças, muitos neoateus acabam por aderir a doutrinas da esquerda política, passando a usar sua fúria antirreligiosa a favor do esquerdismo. Seu objetivo pessoal é conseguir formar um governo de esquerda antirreligioso que destrua a religião e crie o paraíso ateu desejado.
   
Por outro lado, a esquerda sempre teve muita influencia do pensamento ateísta e do pensamento antirreligioso. Não que todo o esquerdista seja ateu, porém quanto mais uma pessoa se torna esquerdista, mais ela tende a se afastar da religião. Afinal, para o esquerdista radical, não há espaço para um paraíso que não seja aqui na terra, nem para uma autoridade maior que o seu partido, seus líderes revolucionários e seu ideal de justiça social.
   
Assim, muitos esquerdistas acabam se tornando ateístas, e logo adiante, neoateus, associando a crença em Deus a um dos fatores que oprimem a sociedade. Aliás, os criadores do comunismo, Marx e Engels, afirmavam que a religião era uma das ilusões criadas pelo cenário econômico de exploração. A religião era, portanto, um ópio para as classes exploradas, bem como um mecanismo de manobra de massas utilizado pelas classes exploradoras.
   
Ademais, devemos ressaltar que tanto esquerdistas radicais, quanto neoateus, estão muito interessados em criar uma cultura onde a liberdade sexual sem limites seja vista como normal, saudável, bela e aceitável por todos. Ou seja, eles não querem só ter liberdade para fazer o que quiserem em matéria de sexo, mas querem destruir o direito de qualquer pessoa achar errado aquilo que fazem. Essa é uma das razões pelas quais esquerdistas radicais e neoateus odeiam a moral judaico-cristã. Há outras também.

Capítulo 3: Tonando-me um antirrevolucionário
Quando entendi essa relação íntima entre neoateísmo e esquerdismo, comecei a perceber que política não se resumia apenas a “honestos x desonestos”. Ela envolvia um conflito de visões de mundo também; visões estas que permanecem bem vivas hoje e que fazem muita diferença na prática.
   
Foi ali que eu compreendi o que estava em jogo na política e qual era o meu papel naquilo tudo. Eu não poderia votar em um partido ou um indivíduo que acreditasse na ideia de que o ser humano é bom por natureza e capaz de transformar o mundo. Essa é uma ideia ridícula. Há milênios o ser humano tem se mostrado incapaz de erradicar a injustiça e a maldade. E isso ocorre por um motivo simples: todos são, em maior ou menor grau, imperfeitos. Assim, todo aquele que se levanta para tentar erradicar a injustiça, tende também a cometer injustiças.
   
Desde a idade mais tenra, já nos vemos contando mentirinhas aos nossos pais, brigando com o coleguinha, desejando o que não é nosso, fazendo pirraça, não querendo limites, fazendo vingançazinhas. Não somos uma tábua rasa. Nascemos inclinados à imperfeição. Isso pode ser atestado tanto por meio da observação do nosso cotidiano e dos exemplos da história, como pela ciência. A ciência reconhece que o ser humano compartilha com os animais uma série de instintos. Esses instintos naturais não são morais e podem facilmente se transformar em atos cruéis. O instinto sexual, o instinto de bando, o instinto gregário e outros são exemplos de inerências que nos impelem a fazer coisas erradas.
   
A diferença entre homens e animais é que os primeiros apresentam razão, podendo refletir sobre seus atos e fazer escolhas. Mas isso não é um motivo para crermos em sua perfectibilidade. Ao contrário, a razão faz do homem um ser muito mais cruel e perigoso do que os animais, pois com ela o mesmo pode avaliar o prazer que o mal pode lhe proporcionar e maquinar o mal contra a sua própria espécie. Do ponto de vista da ciência, somos tão animais como os animais irracionais, o que significa que a selvageria está em nós e isso não pode ser mudado.
   
Do ponto de vista da Bíblia, o ser humano sempre foi visto como pecador. Ou seja, o homem passou a ser inclinado à imperfeição por natureza após sua raça ter escolhido cometer o primeiro pecado. A sua obrigação desde então é se esforçar individualmente para não fazer o mal e, a nível político, criar leis que tornem mais difícil a propagação do mal. Mas esse mal não tem como ser extinto.
   
Ainda que o mal não fosse algo natural, mas social, isso não prova que o homem é capaz de se descorromper socialmente para poder descorromper a outros. A história evidencia que isso não é possível. E a própria lógica também. Para descorromper a outros, uma pessoa deveria se descorromper totalmente primeiro. Se você não consegue se descorromper nem a si mesmo, como ajudará os outros?
   
Portanto, a ideia esquerdista de encher alguns homens de poder para mudar a sociedade e destruir supostos inimigos é totalmente utópica e perigosa. Dar muito poder a homens é pedir para fazer deles pessoas mais cruéis e autoritárias. É dar ao Estado o aval para administrar mal, roubar verba pública, perseguir dissidentes e causar enormes genocídios. Até Montesquieu, que não acreditava que o homem fosse naturalmente inclinado ao mal, sabia que o poder corrompe. Ele diz em um de seus livros que: “Todo o homem que tem poder é levado a abusar dele; vai até encontrar limites”. Isso é algo lógico! Qualquer pessoa de bom senso entende isso. Eu jamais poderia, então, endossar a crença no homem.
   
A partir daquele ponto, através de leituras e mais leituras, minha atenção foi sendo chamada para os problemas que regimes baseados nessas ideias causaram em diversos países. Era lógico sendo provado na prática! Em todo lugar em que muito poder foi colocado nas mãos do Estado, a fim de que este mudasse a sociedade, o que aconteceu foi uma série de desgraças.
   
Os males do comunismo eram os que mais saltavam aos olhos. Tanto na URSS, como na China, no Camboja, na Coréia do Norte, no Vietnã, em Cuba e etc., o regime comunista gerou grotescas ditaduras, genocídios por repressão, inanição forçada e desastres econômicos. Pela primeira vez tive acesso à informação de que os regimes comunistas pelo mundo geraram mais de 100 milhões de mortos. Pela primeira vez eu fiquei sabendo sobre o genocídio de Holodomor, na Ucrânia, entre 1930 e 1932, e do genocídio chinês, entre 1956 e 1962, e do genocídio cambojano, em 1975 (este último matando um quarto da população!). Qualquer pessoa honesta e com um mínimo de senso das proporções conseguiria perceber que o comunismo foi um mal tão ruim ou até pior que o nazismo.
   
Não obstante, observei que os esquerdistas se agarravam tanto a suas crenças que não sentiam qualquer embaraço ao elogiar e se guiar pelas ideias de Marx. E mesmo aqueles que não eram comunistas, permaneciam defendendo a maioria das ideias de Marx, disseminando ódio entre classes, lutando para formar um Estado cheio de poder, atacando religião e religiosos, simpatizando com ditadores de esquerda, defendendo os antigos regimes comunistas, militando contra a liberdade de expressão de conservadores, colocando sua fé em líderes revolucionários, orientando suas ações em prol de futuro utópico imaginado por eles e etc.
   
Em vista disso tudo me tornei anticomunista, antimarxista, antirrevolucionário e totalmente contrário a governos que pretendem inchar o Estado com enormes poderes políticos e econômicos. Se eu era de direita? Ainda não. Eu apenas era um cético da esquerda e do pensamento revolucionário. O direitismo ainda viria posteriormente.

Capítulo 4: Adesão ao liberalismo econômico
   
Embora eu tivesse entendido o tamanho do mal que representava a crença no homem propagada pela esquerda, eu não sabia bem o que defendia a direita, tampouco tinha noção do que um governo deveria fazer na prática para administrar um país, estado ou cidade. Nessa parte, curiosamente, eu ainda estava bastante preso a muito senso comum. Eu ainda achava que privatizações eram ruins, não sabia fazer distinção entre um governo de direita e um de esquerda moderada, e tinha aquela visão distorcida de que a direita é a favor de ditaduras (desde que não sejam comunistas).
   
Meu pensamento sobre a direita poderia ser resumido assim: “Se ser de direita é concordar e desejar uma ditadura militar, definitivamente não sou de direita. E se a extrema direita é o nazismo, então prefiro me distanciar dessa posição. Sou de centro”.
   
Ocorre que minha opinião não era baseada no que os autores de direita diziam, mas apenas em senso comum. Eu não conhecia nenhum autor de direita. Simplesmente não sabia o que a direita defendia. Na medida em que entendi isso e tive mais contato com direitistas, passei a ler os autores de direita. E isso fez toda a diferença!
   
Comecei entendendo mais sobre a economia. Pela primeira vez soube qual era a versão direitista sobre as privatizações. Longe de ser uma defesa dos milionários e um ataque aos pobres que não tem dinheiro para pagar coisas privadas, as privatizações pretendem sanar dificuldades inerentes ao setor público e melhorar a condição de toda a sociedade. Como? Vamos analisar os problemas do setor público.
   
Empresas públicas não precisam se preocupar com o risco de ir à falência ou com a competição para estar entre as maiores empresas. Sua situação é estável, pois seu dinheiro é público, nunca acaba. Aliás, se uma empresa pública contrai muitas dívidas, quem paga somos nós. Se uma empresa pública vai mal, ela é beneficiada com mais dinheiro do governo. Isso cria uma tendência, tanto de seus administradores como de seus funcionários de se acomodarem, não fazendo um bom trabalho ou não dando o melhor de si. A estabilidade dos funcionários públicos apenas reforça isso. Além do mais, o governo não tem capacidade para gerir tantas empresas e mais os problemas do país. Desta forma, é comum que os serviços públicos sejam inferiores aos privados e que deem muitos déficits públicos.
   
O resultado é que o povo não é bem atendido pelos serviços públicos e ainda é obrigado a pagar altos impostos para manter essas empresas. Como se não bastasse, as empresas públicas deficitárias também geram inflação de moeda. A inflação é um modo que o governo tem de saldar suas dívidas injetando mais dinheiro no mercado. Para o governo é bom, para o povo não, pois só os primeiros a utilizarem o novo dinheiro criado se beneficiam. Quando o dinheiro chega ao povo, todos os preços já aumentaram para equilibrar a nova quantidade de dinheiro na economia. Mas as empresas privadas e o povo em geral continuam recebendo os mesmos salários. Então, se você ganhava R$ 1.000,00 por mês e comprava carne por R$ 15,00, continua a ganhar R$ 1.000,00 por mês, mas agora compra carne por R$ 20,00.
   
Serviços públicos ruins, impostos, inflação... Como se já não fosse muito, quanto mais empresas públicas se têm, mais a estrutura pública se torna grande e complexa de ser administrada e mais dinheiro vai para as mãos do governo. Isso aumenta a dificuldade de fiscalização, as chances de desvios ou gastos desnecessários, esquemas de corrupção e o pior: o poder do governo. Um governo com muito dinheiro e que tem tentáculos em tudo quanto é setor, se torna mais poderoso. O risco de ele se tornar totalitário e ditatorial, tanto econômica como politicamente, é muito grande.
   
É claro que isso não quer dizer que nada possa ser público ou que uma empresa pública não possa ser relativamente bem gerida. Mas a tendência é o setor público ser inferior. Os riscos de um país ter esses problemas quando possui muita coisa pública são bem grandes e os exemplos da história comprovam que (para ser claro) geralmente isso dá merda!
   
Agora, empresas privadas não possuem esses problemas. Uma empresa privada, precisa estar constantemente preocupada em não falir e ficar bem na concorrência entre as outras empresas. Se não fizer isso, ela não terá dinheiro público (ou, pelo menos não deveria ter) para resolver a situação. O dinheiro das empresas privadas é finito. Assim, tanto administração como os funcionários são instados a trabalharem bem. Quanto mais concorrência há, mais as empresas tendem a buscar melhoras nos serviços, agilidade e maneiras de diminuir preços. Isso é óbvio!
   
Que o setor privado também tem problemas isso é evidente! Mas são problemas muito menores e mais facilmente contornados. A regra geral é que o setor privado tende a ser mais eficiente e menos perigoso. E o que o Estado pode fazer para permitir esse cenário de maior eficiência? Basicamente reduzir dificuldades burocráticas e financeiras para que as pessoas abram, mantenham e desenvolvam empresas. Fazendo isso, muitas empresas surgem e se desenvolvem, gerando empregos e concorrência. A concorrência tende a sufocar a manutenção perpétua de monopólios, fazendo com que a luta por maior eficiência seja maior. O resultado é que o povo tem mais empregos, melhores serviços, preços mais baixos, menos impostos, menos inflação.
   
Isso não ocorre da noite para o dia. Uma economia, para se dinamizar, demora muitos anos. É por isso que trabalhistas odeiam o setor privado, o livre mercado, os baixos impostos e a pouca burocracia estatal. Por que tudo isso leva a um vagaroso e penoso desenvolvimento econômico. Sobretudo se o país em que isso for implantado não apresentar uma boa industrialização.
   
É neste ínterim que entendemos como a privatização é um processo que só demonstra resultados em longo prazo. No início, uma empresa privatizada pode gerar cortes de funcionários e até mesmo aumento no valor dos produtos. Isso ocorre porque os resultados negativos da má gestão pública precisam ser equilibrados. A empresa privada não dispõe mais do dinheiro eterno que a empresa pública dispunha. Mas em longo prazo, se (e somente se) o governo abrir o mercado e incentivar a competição, a empresa privatizada equilibrará o orçamento e lutará para ser mais eficiente, gerando o cenário que já comentei.
   
Vê-se, portanto, que apenas a privatização não é suficiente. O governo precisa garantir o surgimento de concorrência. No princípio eu não percebi isso. Achava que bastava privatizar era o suficiente. Com mais leitura eu entenderia posteriormente que a abertura do mercado e o incentivo máximo a competição são essenciais para que o processo de privatização seja positivo. Se o governo não incentiva a concorrência, vão surgir os monopólios privados, que são tão nocivos quanto os monopólios públicos
   
É importante salientar que hoje eu acho aceitável a manutenção de uma ou outra empresa pública, contanto que ela não seja um monopólio no ramo em que atua, podendo ser comparada a concorrentes privadas, e que não haja a estabilidade empregatícia. Isso diminui consideravelmente os problemas que podem ser causados pela empresa por ser pública.
   
Mas voltando à questão do setor privado, quando compreendi a verdade de que a privatização sozinha não é o suficiente, aí entendi como que o intervencionismo estatal na economia é um dos maiores responsáveis por monopólios privados. Quando o governo dificulta a vida das empresas privadas, apenas as empresas mais ricas e poderosas conseguirão permanecer lá no alto da competição. As empresas menores ou não terão chances de crescer e galgar os primeiros lugares, ou desaparecerão.
   
Isso significa que a grandes empresas ficam protegidas dentro de um governo intervencionista. Elas aceitam pagar altos impostos e lidar com grande burocracia porque, em contrapartida, vão continuar no topo para sempre. É por isso que o Olavo de Carvalho afirma que apenas os pequenos e médios empresários desejam o livre mercado, isto é, o capitalismo mais puro. Os grandes, os mega, aqueles que já construíram um império e estão sólidos, estes querem mais um governo interventor, a fim de não precisar lidar com uma concorrência constante. Por mais irônico que pareça, os grandes capitalistas atuais são anticapitalistas.
   
O governo intervencionista, por sua vez, aceita que essas empresas continuem no alto porque fecham conchavos com elas, tanto para que as mesmas financiem suas campanhas políticas, quanto para que juntos eles possam desviar verbas. Além disso, um governo que detém seus empresários privados nas mãos é tão poderoso quanto um governo que tem muitas empresas públicas.     O leitor compreende?
   
Aqui aprendi algo importante. Quem defende o livre comércio? A direita. Quem defende o intervencionismo estatal? A esquerda. Então, pelo menos economicamente, o fascismo e o nazismo pertencem a qual espectro? Exatamente, leitor: essas doutrinas pregam aquilo que a esquerda prega em matéria de economia. Elas falam em forte controle do Estado sobre as empresas privadas, usando o discurso de “reestruturar a sociedade”. Mas na prática esse intervencionismo é um casamento entre grandes empresas e o governo. E o livre mercado não defende isso. Nunca defendeu. O nome já diz: “livre” mercado. Se você coloca o governo na equação e tira a concorrência da jogada, isso não é liberdade de mercado.
   
Ora, o nazismo alemão era um socialismo. E agiu estendendo seus tentáculos por todo o setor privado. O criador do fascismo italiano, Mussolini, era um tinha sido um marxista que entendeu que o Estado nunca seria superado e que ele precisava ser mais pragmático para mudar a sociedade. Sua frase síntese do fascismo era “Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado”; e isso é rigorosamente a mesma coisa que a ditadura socialista do proletariado propunha (só que dizendo que isso era um estágio “temporário”). Então, compreendi que, chamar essas doutrinas de direitistas é uma tolice sem tamanho. Pelo menos no aspecto econômico. O mesmo se poderia dizer da ditadura militar brasileira, extremamente intervencionista.
   
Em suma, entendi que a direita defende uma economia mais livre e que a mesma é muito superior às economias intervencionistas. Descobri neste ponto também que há alguns rankings anuais interessantes que indicam o grau de liberdade econômica de um país, a facilidade de se fazer negócios e a competitividade empresarial. São, por assim dizer, medidores de capitalismo. E invariavelmente os países mais bem colocados nos tais rankings são os que oferecem maior qualidade de vida para o povo. E os piores colocados são os países mais injustos, antidemocráticos e pobres. Coincidência? Claro que não! Em outras palavras, o capitalismo não era, então, o monstro que pintavam!

Capítulo 5: Adesão ao conservadorismo político
   
Quando alguém percebe como o capitalismo foi um dos responsáveis, em longo prazo, pela melhora na qualidade de vida de muitos países, existe uma tendência a enxergá-lo com otimismo demasiado. Foi assim com o Adam Smith (que merece ser desculpado, pois o capitalismo ainda estava surgindo) e é assim até hoje com diversos direitistas. Não foi muito diferente comigo, embora eu não tenha chegado a me tornar um extremista.
   
Dentro da direita, assim como na esquerda, existem graduações no que tange o pensamento econômico. Eu vejo quatro tipos na direita: os conservadores políticos, os liberais econômicos, os libertários e os anarco-capitalistas. O que os diferencia é o nível de ceticismo/confiança em relação ao livre mercado.
   
Os conservadores geralmente são adeptos da liberdade econômica, mas reconhecem que ela tem muitas limitações e que gera muitos problemas se não andar de mãos dadas com uma boa base moral, espiritual e cultural na sociedade, um respeito pelo o que o passado nos ensina, pelas tradições e instituições milenares e pela dignidade do ser humano e, finalmente, um bom conjunto de leis democráticas e não tirânicas. O liberalismo econômico não deve suprimir essas coisas em hipótese nenhuma, pois o princípio da revolução é justamente esse: destruir tudo o que levou tempo para construir e colocar o destino da sociedade nas mãos de um futuro que não conhecemos, desprezando as lições do passado.
   
Os liberais econômicos já pensam mais na liberdade econômica do que nessas outras questões, tendendo a ignorá-las ou reduzir sua importância. Acreditam que só o livre mercado já é capaz de resolver quase todos os problemas causados pelo estatismo da esquerda. Sustentam também que a liberdade é o bem mais importante que existe e deve ser colocado em um pedestal. O liberal extremo é um libertário. E o libertário extremo é um anarco-capitalista. Um anarco-capitalista acredita tanto no livre mercado que acha possível criar uma sociedade sem estado, apenas baseada nas leis que já vimos de competição econômica. Nesse cenário, tudo seria privado e competiria entre si. Até mesmo (pasmem!) a polícia e a justiça. Não haveria governo e impostos.
   
Quando descobri isso, entendi que essa é a verdadeira “extrema-direita”. E aí comecei a analisar um pouco do pensamento conservador. O conservadorismo, a meu ver, é muito mais sensato que o mero liberalismo, pois ele não cai no mesmo otimismo no homem e idealismo utópico que as revoluções de esquerda. Ao contrário, mantendo o ceticismo em relação a um mundo perfeito, ele leva o conservador a aprender as lições do passado e daquilo que precisa ser conservado (como a família, a moral, as tradições, as instituições milenares, a hierarquia, o Estado, a educação familiar e individual, a espiritualidade, a dignidade humana e a visão realista do ser humano como um ser inclinado ao mal e imperfeito). Isso impede que o conservador deposite confiança em projetos mirabolantes e idealismos utópicos.
   
Para o conservador, a mudança é boa, mas deve ocorrer de modo muito pensado, geralmente gradual e respeitando os limites da realidade. Destruir a sociedade como conhecemos para construir outra, totalmente distinta, é algo que nunca dá certo. Todos os movimentos revolucionários como a Revolução Francesa, a Revolução Russa, o Stalinismo, o Nazismo, o Fascismo, o Maoísmo e etc. geraram apenas destruição, crueldades, miséria, violência, abuso de poder e genocídios.
   
A premissa básica de toda a revolução é esta: destruir esta sociedade, com seus maiores inimigos (sejam burgueses, ou negros, ou judeus, ou gays, ou cristãos, ou religiosos, ou a moral, ou uma cultura, ou um sistema e etc.) e construir outra no lugar, com novas regras, crenças, moral, cultura, religião e heróis revolucionários. Todo o sistema que se propõe a fazer isso pisa no passado e põe sua confiança em um futuro idealizado. E isso é algo totalmente contrário ao pensamento conservador.

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