quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Por que a oração é importante?

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Talvez vocês se perguntem: "Por que a oração é tão importante? Deus já não sabe tudo o que nós vamos falar? E por que devemos orar pelas pessoas? Se não orarmos, Deus não os ajudará?". Essas perguntas merecem uma resposta longa, mas vou fazer um resuminho só para vocês captarem a ideia básica.

Sobre as primeiras duas perguntas, devemos nos lembrar que a nossas orações não são necessárias para que Deus viva, mas para que nós vivamos (espiritualmente falando). É a maneira que temos, hoje, de estar em contato com Deus, de manter um relacionamento com Ele. Através da oração falamos o que sentimos, desabafamos, clamamos, pedimos, nos desculpamos, partilhamos alegrias e tristezas, e, ao fim de tudo, somos invadidos pela prazerosa convicção de que fomos ouvidos. Mas isso, claro, só acontece se fazemos da oração um hábito, e se, juntamente com ela, também nos alimentamos da Palavra de Deus (a Bíblia) e coisas boas.

É sempre bom frisar que Deus é um Ser. Um Ser vivo e pessoal. Ele deseja (embora não necessite) manter um relacionamento conosco. E nós necessitamos (embora algumas vezes não haja desejo em nós) nos relacionarmos com Ele. É por isso que Ele tem prazer em nos ouvir, mesmo já sabendo tudo o que vamos falar. E é por isso que nós devemos orar.

As duas últimas perguntas são mais difíceis. Porém, há respostas para elas. Devemos lembrar que quando o ser humano se desconectou de Deus, escolhendo o pecado (lá no Éden), Satanás e seus demônios passaram a ter muitos direitos sobre a Terra e o ser humano. O ser humano assinou uma espécie de contrato com o Diabo e isso, de certa forma, limita um pouco a ação de Deus e seus anjos. Limita não no sentido de que Deus se tornou menos poderoso, mas no sentido de que Deus é justo e respeita as regras. Se assinamos um contrato com Satanás, Deus age conforme o que o contrato permite. O Diabo, como sendo o Acusador, está sempre de olho nisso para acusar Deus de juiz parcial caso o contrato não seja cumprido.

Pois bem. Aparentemente, a oração é uma chave legalmente válida que cria dificuldades à ação de Satanás na vida do ser humano, e dá a Deus e seus anjos mais liberdade de ação. Ela é um trunfo na mão do ser humano, uma espécie de carteirinha especial que qualquer um pode usar quando o diabo estiver enchendo o saco, tal como um agente de polícia: "Sou policial", diz, mostrando o distintivo, "Ordeno que saia daqui, pois o perímetro será vistoriado pela polícia".

Sem oração, Deus pode agir, mas com limitações. A oração pode abrir portas que não seriam abertas sem ela. E quanto mais pessoas oram, mas o poder de ação de Satanás é limitado, podendo, em alguns casos, se tornar totalmente nulo. Por isso devemos orar pelas pessoas e pelas situações. É uma questão contratual. Deus conta com a gente.

Isso não quer dizer, óbvio, que toda vez que orarmos, as coisas irão acontecer exatamente como desejamos ou achamos que é o correto. Às vezes (muitas vezes) os planos de Deus serão cumpridos de outra forma que não conseguimos enxergar. Isso pode frustrar, mas Deus tem um campo de visão infinitamente maior que o nosso. Não devemos, portanto, entender a oração como uma forma mágica de conseguir tudo o que queremos, mas como uma forma lógica de permitirmos que Deus consiga aquilo que Ele quer do modo como Ele acha melhor.

Essas explicações estão todas baseadas na Bíblia e na lógica. Qualquer dia elaboro um texto maior, bem detalhado, para elucidar a questão. Mas o básico é esse. Meu pedido é: não deixemos (vou me incluir nisso) de orar. Que oremos cada vez mais. Principalmente pelos outros. Isso faz uma diferença enorme. Para não dizer que não citei nenhuma passagem bíblica, a epístola de Tiago, diz:

"A oração de um justo pode muito em seus efeitos" (Tiago 5:16).

Não somos justos por nós mesmos, mas justificados e auxiliados por Cristo Jesus, por Nosso Pai que está nos céus e pelo Espírito Santo, que habita em nós e no nosso meio.

Oremos.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Um jornalista perdido e a origem da solidariedade

Um comentário:
Estava eu ontem fazendo a contabilidade de todos os meus gastos nos últimos dois anos, quando a televisão, ligada na outra parte da sala, me chama a atenção. Passava o Fantástico. A matéria era sobre solidariedade e mostrava alguns exemplos de pessoas que resolveram fazer o bem para terceiros por altruísmo. Até aí, tudo bem. A parte que me chamou a atenção foi quando o jornalista que estava narrando a matéria disse mais ou menos o seguinte: "Para saber a origem dessa história, precisamos voltar 200 milhões de anos atrás". A partir daí, o jornalista começa a dizer que nossa espécie era apenas uma de muitas, mas que descobriu uma coisa muito importante: a solidariedade aumenta nossas chances de sobrevivência. E por causa disso nós evoluímos.

Blábláblá.

Eu gostaria de fazer algumas perguntas ao jornalista que montou o texto dessa matéria:

1) Se somos solidários porque isso aumenta nossas chances de sobrevivência, isso é realmente solidariedade ou é egoísmo?

2) Nossa solidariedade é um dever objetivo ou apenas uma ilusão subjetiva de dever?

3) A solidariedade aumenta as chances de sobrevivência do indivíduo que a pratica ou da espécie?

4) Se é da espécie, por qual razão devemos nos preocupar com a sobrevivência da espécie?

5) Se é do indivíduo, então é certo não ser solidário nas situações em que isso não representar ganhos para o indivíduo em termos de sobrevivência?

6) Se a evolução é apenas um nome pomposo para um processo cego de acumulação de milhões de mutações aleatórias benéficas ao longo de milhões de anos em uma espécie, podemos falar em valores, direitos e deveres objetivos?

7) Se nossa moralidade não está baseada em nada que transcenda tempo, espaço, culturas e instintos naturais, em que baseamos nossos sensos objetivos de valor e de dever?

São perguntas que a pessoa que montou um texto desse deveria saber responder. Mas a própria estrutura do texto demonstra que ele não sabe. Quem estuda apologética (e não, isso não é bicho de sete cabeças) e lógica, sabe que o que esse jornalista falou é uma porção de baboseiras. Ele não tem a mínima noção do que está dizendo e de suas consequências. Apenas está repetindo fórmulas prontas que foram criadas para doutrinar espectadores passivos. Talvez, ele mesmo tenha sido um doutrinado no passado. Ou, quem sabe, é um desonesto, que está fazendo de propósito.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O conservador, a prudência e a reforma agrária

Um comentário:
Uma das maiores virtudes do conservador político é a prudência. Ser prudente, entre outras coisas, é ver além do óbvio, além do aqui e agora; é avaliar os possíveis desdobramentos de uma ação antes de realizá-la, usando a lógica, a moral e experiência.

Para exemplificar, vamos pegar um tema concreto. Reforma Agrária. Quando eu era pequeno ouvia falar nessa reforma com muitos louvores. E, nos meios universitários, isso é visto como inquestionavelmente bom. A ideia, como vocês sabem, é expropriar (arrancar, tirar) terras de grandes latifundiários para redistribuir aos sem terra e pessoas pobres. Se haverá indenização ao latifundiário por parte do Estado, não importa para esta definição, pois a medida não deixa de ser expropriação e uma imposição por parte do Estado. Na cabeça de quem defende, três atos de justiça: punir o rico, ajudar o pobre e criar igualdade.

Para o conservador, essa ideia é absurda. Por quê?

Em primeiro lugar, ela é um roubo. Ser rico e ter muitas terras não é um crime. A não ser que se prove que aquela pessoa enriqueceu ilicitamente.

Apelar para o passado não adianta aqui. Não podemos punir alguém hoje por erros cometidos por seus antepassados. Isso implicaria ter de investigar minuciosamente a vida dos antepassados de cada indivíduo da sociedade para saber se houve alguma injustiça que gerou favorecimento para a pessoa.

Essa investigação teria de alcançar todas as gerações até os primórdios do mundo e precisaria lidar com dificuldades de deslocamentos entre nações e continentes. Impossível, claro. Mas, mesmo que isso fosse possível, resultaria em ter de colocar funcionários do governo para entrar nas casas de todo o tipo de pessoa para arrancar bens, o que não incluiria só ricos, mas qualquer que tenha um benefício advindo de uma injustiça cometida por um antepassado. Será que todos estariam dispostos a isso?

Ademais, a ideia ainda esbarra na questão da culpa: que culpa um indivíduo tem dos erros cometidos por seus antepassados?

Então, não, não se pode fazer esse acerto de contas retroativo. O que vale é o que cada pessoa faz em sua própria vida. Isso nos leva a concluir que expropriar as terras de um rico só porque ele é rico é roubo. E, obviamente, qualquer rico tem direito de achar isso ruim e errado.

Em segundo lugar, mesmo que aceitemos, à título de argumentação, que é justificável roubar ricos para ajudar pobres, que o ato é válido porque visa o bem maior da igualdade social, pense nas implicações disso. Dar a um governo e ao Estado o poder de tomar propriedades de uns para dar a outros é algo muito perigoso. Um governo e um Estado que podem expropriar terras podem fazer qualquer coisa. Esse poder absurdamente grande escancara  portas para outras ações autoritárias como a expropriação de lojas, fábricas, empresas em geral, casas, prédios, poupança bancária, móveis e bens. Escancara portas também para prisões arbitrárias, perseguição à dissidentes do governo, cassação dos mandatos de políticos opositores e o uso crescente das forças policiais e militares para reprimir o cidadão. E se tudo isso se origina de uma luta pelo bem comum, e por isso é legitimado, o governo terá prerrogativa para fazer o que julgar necessário para alcançar esse bem.

Daí decorre que o governo poderá intervir em diversos aspectos da economia e da vida individual, a fim de acabar com desigualdades e garantir a manutenção das reformas (bem como estendê-las). Ações como aumentar impostos de grandes empresas, proibir demissões, impor admissões, tabelar preços são algumas das políticas que serão usadas. E quando isso acabar falindo diversas empresas, aumentar os impostos de todos os cidadãos para ajudar as empresas em apuros será a regra, claro.

Aqui é interessante ressaltar: quando é dado ao governo o poder de expropriar terras pelo bem comum, ele poderá expropriar o que achar necessário e de quem achar necessário. Isso inclui também os pobres. O governo poderá fazer isso através de aumento dos impostos (e vai fazer) ou de maneira direta, quando um pobre estiver, de algum modo, atrapalhando seus planos. E na medida em que a economia entrar em colapso, o número de ricos diminuir e o número de pobres aumentar, só sobrará mesmo os pobres para expropriar. Em suma, se o governo antes tirava dos ricos para dar aos pobres, agora tirará dos pobres para dar a alguns ricos, a fim de salvar a economia.

Em terceiro lugar, há que se diferenciar governo de Estado. O governo é formado pelo conjunto de governantes de uma determinada época e lugar. O Estado é formado pelo corpo de leis que, além de delimitar uma sociedade, prescreve os direitos e deveres dos governantes e governados da mesma sociedade. Ora, os governos mudam na medida em que mudam os governantes. Mas o Estado pode permanecer o mesmo por décadas, séculos, milênios. Por que é importante saber disso? Porque ainda que um governo conduza a reforma agrária (ou alguma outra reforma de cunho totalitário) e não se torne tão poderoso e opressor como descrevi, esse governo um dia será substituído. Sobretudo se for um governo democrático de um Estado democrático, onde há constante troca de governantes. Então, quando um governo dá ao Estado qualquer poder, não está dando poder apenas para si, mas para governos que virão; está criando um sistema novo, que poderá ser usado de maneira mais intensa e extrema por governos futuros.

Em quarto lugar, um governo que aumente seu poder dessa maneira inevitavelmente viverá com medo de levantes, revoltas e oposição. Isso o conduzirá a criar um estado policial e a restringir a liberdade de seus cidadãos (pobres e ricos). Algumas dessas restrições provavelmente serão: desarmamento da população, imposição do ensino formal às crianças, proibição de saída do país e, no futuro, proibição de greves e manifestações. Uma característica interessante do totalitarismo é que ele só pode ser sustentando com cada vez mais totalitarismo. A tendência, então, são as restrições só aumentarem.

Em quinto lugar, dar ao estado o direito de expropriar em prol do bem comum o coloca acima da lei, criando instabilidade jurídica e dando margem para o surgimento de déspotas e de governantes irresponsáveis. Além disso, o direito à propriedade privada é solapado e deixa de fazer sentido. Não há mais qualquer garantia de que o que é seu é seu. Na verdade, tudo pertence ao Estado e você só usufrui enquanto o Estado lhe permite. Aliás, isso já é algo bem próximo do comunismo, não?

Em sexto lugar, dar ao governo o poder de expropriar terras pelo bem comum vai gerar, inevitavelmente, agitação social e conflitos entre grupos. Afinal, interesses opostos estarão em jogo e o uso da força será usado. E, para completar, o governo não se privará de usar e incentivar o ódio entre classes, a fim de evitar o foco do povo nas suas ações totalitárias e garantir apoio de uma classe. Em outras palavras, o governo alimentará, por um tempo, a agitação social, o conflito e o ódio entre grupos.

Reformas sociais que se baseiam em ódio entre grupos, conflitos físicos, agitações populares, extorsão de propriedade privada, autoritarismo, violência civil, desprezo das leis, sentimento de revanche e ações abruptas e impensadas dificilmente terão como efeito uma sociedade pacífica, estável, respeitadora da lei, com um Estado que garante o direito individual e governos que não excedem os limites do poder. Os efeitos das reformas mencionadas acima geralmente são o sentimento generalizado de desconfiança, a instabilidade das instituições, a falta de disciplina do povo, o autoritarismo estatal e o risco sempre alto de golpes de Estado e brigas ilícitas pelo poder. Foi o que aconteceu após a Revolução Francesa. E também a Russa. 

Em sétimo lugar, o empreendedorismo e o lucro passam a ser desestimulados entre empresários e cidadãos comuns. Como o governo pode tirar tudo o que um indivíduo tem, quase ninguém quer correr o risco de investir. Nem os de dentro da nação, nem os de fora. Esse desestímulo ao investimento cria a necessidade do governo fazer algo para garantir a saúde da economia antes que ela entre em colapso. Dessa necessidade quase sempre surge uma relação promiscua entre o governo e alguns grandes empresários que começam a ser protegidos pelos governantes em troca de ajudá-los a gerir a economia. O resultado é a consolidação de um mercado pouco competitivo e  alguns grandes monopólios privados que irão extorquir o cidadão com preços altos e produtos/serviços de péssima qualidade.

Outras ações desse tipo de governo para tentar evitar um futuro colapso na economia seriam: criar diversas empresas estatais, estatizar empresas que considera estratégicas, implementar inúmeras obras públicas, aumentar os gastos do governo e reduzir de modo artificial as taxas de juros através da inflação de moeda. As bases que orientam essas ações são: (1) Se o meio privado não está criando empregos suficientes, o governo pode e deve criá-los. Fará isso através da instituição de empresas estatais, de obras públicas e do aumento de gastos do governo. Tudo isso gerará empregos. (2) O governo tem muita aptidão para administrar empresas, inclusive mais aptidão do que o meio privado, que é ganancioso e irresponsável. Portanto, é bom que o governo crie estatais e que estatize empresas privadas de ramos considerados estratégicos. (3) A derrubada de juros irá criar incentivo para que o meio privado invista, o que o fará respirar.

Essas três ideias possuem graves problemas. A primeira, por exemplo, ignora que para o governo manter qualquer empresa estatal, implementar obras públicas e aumentar gastos do governo, ele precisa arrumar dinheiro. E qual é a única fonte de dinheiro de qualquer governo? O dinheiro do povo; os impostos. Ou seja, para criar os tais empregos, o governo precisa tirar dinheiro das pessoas (o que inclui os pobres). E quanto mais ele se meter na economia, mais impostos ele precisará cobrar do trabalhador. Procedendo assim, o governo dá empregos para uns arrancando o dinheiro de outros. Nisso, o setor privado é muito mais justo, pois cria empregos com capital privado e se mantém com o dinheiro daqueles que escolhem, por conta própria, comprar seus produtos/serviços.

A segunda ideia ignora que a gestão pública tende a ser menos eficiente que a gestão privada. Por várias razões. Para começar, empresas públicas não vão à falência quando dão prejuízos (como é o caso das empresas privadas). Elas recebem mais dinheiro do governo para cobrir seus déficits. Isso não apenas torna mais custoso para o cidadão o serviço prestado pela empresa, como premia a ineficiência. Não importa o quão ruim seja a empresa, ela continuará recebendo dinheiro. Sem risco de falência e sem precisar concorrer com outras empresas para se manter à frente, é comum que tanto os gestores, como os funcionários de empresas públicas, não se esforcem tanto para obter bons resultados como nas empresas privadas. Alguns sequer se esforçarão.

O relaxamento e a falta de cuidado com os gastos também sempre tenderá a ser maior nas empresas públicas, já que o dinheiro vem do governo e é ilimitado. Costumamos a cuidar mais dos gastos e do que compramos quando o dinheiro é limitado e, sobretudo, quando o dinheiro é nosso. Afinal, sabemos o quão duro foi conseguir nosso dinheiro e como ele pode acabar rápido se não formos responsáveis. Não se tem essas noções nas empresas públicas.

Outra razão é que na coisa pública é mais fácil ocorrer corrupção. Obras podem ser superfaturadas, empresas podem servir como cabides de emprego, verbas podem ser desviadas. No setor privado isso é mais difícil, pois os gestores e donos tomam todos os cuidados possíveis para não permitir roubos no interior da empresa, o que colocaria em risco a vida da instituição. Como esses riscos não existem na coisa pública, tampouco a coisa pública tem donos específicos, a fiscalização é bem mais frágil. Do ponto de vista do governo, aliás, é muito difícil fiscalizar todos os agentes que fazem parte de cada instituição pública. A estrutura pública é muito grande e complexa, o que permite que diversos desvios éticos sejam perpetrados em cada ponto distante dessa enorme teia de pessoas, cargos, lugares e funções.

Conta-se que quando o Regime Militar brasileiro reuniu sua cúpula para decidir sobre a instituição do AI-5 (que pretendia aumentar os poderes do presidente), o civil Pedro Aleixo, vice-presidente do General Costa e Silva, se colocou contra. Alguns na sala perguntaram se Aleixo desconfiava da integridade do General. Ele teria respondido o seguinte: “Não desconfio da integridade e das boas intenções do Sr. Presidente, mas tenho desconfiança do guarda da esquina”. O princípio é claro. Por mais que um regime realmente tenha boas intenções, quando ele aumenta seu poder político ou o tamanho do aparato estatal, cria brecha para que diversas pessoas que tem alguma participação na coisa pública, cometam desvios éticos. E isso é praticamente incontrolável.

A terceira ideia, por fim, ignora que derrubar juros expandindo moeda gera inflação de preços. Embora, num primeiro momento, a derrubada artificial de juros pode gerar um efeito positivo na economia, incentivando o investimento, a inflação acabará aparecendo e destruindo a vida do cidadão comum e dos próprios empresários. Não obstante, para um governo interventor, expandir moeda sempre parecerá uma medida tentadora e, de certa forma, inevitável. Uma das razões para isso é que, quando o governo já não tem como arcar com as dívidas criadas pela má gestão pública e pela corrupção, imprimir dinheiro resolve temporariamente o seu problema: as dívidas são pagas. Resultado: a hiperinflação será cada vez mais comum na medida em que o Estado aumentar a sua máquina pública.

O conservador como profeta político

Ao perceber a inviabilidade moral da reforma agrária (o exemplo que usamos nesse texto) e todos os seus efeitos desagradáveis, o conservador se torna um profeta político. Ancorado na lógica e, muitas vezes, no que ele já viu acontecer em outras partes do mundo e/ou em outras épocas, ele se torna capaz de prever o futuro e avisar aos seus conterrâneos e contemporâneos da desgraça iminente. 

Aqui está a grande virtude do conservador: ele vê além do óbvio. Muitas vezes o que, inicialmente, pode parecer uma ideia, acaba se mostrando imoral e extremamente perigosa. São estas nuances, estes detalhes e efeitos não visíveis em um primeiro momento, que um conservador observa, antes de defender uma reforma.

Apresentei o exemplo da reforma agrária, do qual queria falar há algum tempo, mas o mesmo tipo de análise pode (e deve) ser aplicada sobre qualquer reforma ou ação governamental. E é por essa razão que conservadores geralmente são avessos à políticas baseadas em estatismo e intervenção governamental. As consequências desse tipo de política quase sempre são os mesmos que elencamos nesse texto.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Em defesa da insatisfação

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Um conselho-argumento que acho bastante tolo é o de que uma pessoa precisa aprender a viver satisfeito sozinho para que, só então, possa ter uma companhia amorosa. Ora, ninguém diz para um órfão que ele precisa aprender a viver satisfeito sem pai e mãe para poder ter um pai e uma mãe. Ninguém diz para alguém que tem dificuldade de fazer amigos que ele precisa aprender a viver satisfeito sem amigos para poder ter amigos. Ninguém diz a um faminto que ele precisa aprender a viver satisfeito com fome para poder comer. Ninguém diz a uma mulher que acabou de perder um bebê que ela precisa aprender a viver satisfeita sem filhos para depois ter um. Nada disso é necessário ou lógico. De onde se tirou a ideia de que precisamos passar pela privação de uma necessidade ou desejo lícito para só então ter condições de satisfazê-lo?

Há alguns anos eu me questionei: "Por que raios eu desejo ter uma companheira? Eu já não tenho amigos e amigas? Eu não tenho uma boa família? Por que é tão importante ter uma companheira? Qual é a grande diferença?". Foi então que eu descobri que eu não era nenhum problemático. Eu era apenas uma em bilhões de pessoas que naturalmente anseiam ter um companheiro ou companheira. Isso é da espécie humana. A maioria esmagadora das pessoas tem esse desejo.

Talvez você me diga: "Ah, mas nós não podemos basear nossa felicidade em uma companhia". Eu concordo. No dia que você topar com uma pessoa que diga: "Não vale a pena viver sem um relacionamento amoroso" ou "Não tenho como ser feliz sem isso", aí você pode dizer que essa pessoa tem problemas. Mas não diga a uma pessoa que ela deve se sentir plenamente satisfeita por não ter algo lícito que ela gostaria de ter e não tem. Ela não vai se sentir satisfeita. E isso não é absurdo. Quantas pessoas são plenamente satisfeitas nesse mundo? Eu ousaria dizer que não há ninguém.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O capitalismo produziu/produz genocídios?

4 comentários:
Toda vez que eu digo a um marxista que os regimes comunistas assassinaram mais de 100 milhões de pessoas ao longo do século XX (e continuam assassinando milhares nos dias de hoje), a resposta é sempre a mesma: “O capitalismo também”. A comparação é disparatada. Acompanhe o raciocínio.

Capitalismo não é um sistema político, mas sim um sistema econômico. E esse sistema econômico pode existir em países com os mais diversos sistemas políticos. Podemos ter capitalismo onde vigora monarquia, presidencialismo ou parlamentarismo; onde há uma teocracia, seja católica, protestante ou hindu; no interior de um estado ateu que persegue religiosos, ou no interior de um estado religioso que persegue gente de outra fé e ateus; em um estado democrático de direito, ou em uma ditadura; em ditaduras ideológicas ou apenas oportunistas. Não há um sistema político prescrito pelo capitalismo ou ao qual o capitalismo pertença. Ele pode se adaptar a variados regimes.

Augusto Pinochet foi um ditador e seu regime reprimiu, prendeu e assassinou milhares de pessoas no Chile. Já Ronald Reagan foi um presidente democraticamente eleito e reeleito nos EUA, que não passou por cima do Estado de direito. Os dois governantes fizeram governos pró-capitalistas, mas um regime era ditatorial, enquanto o outro não era. A comparação poderia ser feita com qualquer outro país capitalista cujo regime político se baseia no Estado democrático de direito: Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Inglaterra, Suíça, Japão, Coreia do Sul e etc. O que se modifica entre estes e o Chile de Pinochet não é o sistema econômico (todos são capitalistas), mas o sistema político. Daí decorre o fato óbvio de que não se pode culpar o capitalismo por aquilo que regimes políticos fizeram, já que uma coisa não tem relação com a outra.

Algum marxista pode tentar argumentar que se a motivação de um governo ao reprimir, prender e matar injustamente é promover ou ajudar o capitalismo, então a culpa desses atos é do capitalismo. Isso é bastante questionável. Se, por exemplo, mato minha esposa motivado pela garantia de ficar com o dinheiro dela, podemos culpar o dinheiro pelo assassinato? Foi ele que me motivou, não é verdade? Mas duvido que alguém concorde com isso. O dinheiro pode ter me motivado, mas a culpa é minha. Da mesma maneira, se um regime comete crimes motivado pelo capitalismo, a culpa não é do capitalismo, mas do regime, que é criminoso, ditatorial.

Aqui o marxista vai tentar virar o jogo e dizer que, da mesma maneira, o marxismo não pode ser responsabilizado pelas atrocidades de seus regimes; a culpa é dos ditadores, não do marxismo. O problema é que o comunismo, diferentemente do capitalismo, não é apenas um sistema econômico; é também um sistema político. E o sistema político comunista prevê a centralização política, o totalitarismo, a ditadura do proletariado e as ações despóticas contra burgueses, emigrados e rebeldes. Não sou eu quem digo, é o próprio Manifesto do Partido Comunista.

Não existe isso no capitalismo. O capitalismo se define apenas por ser um sistema onde existe garantia legal do direito à propriedade privada, razoável liberdade econômica e indústrias. Só isso. Não há uma ideologia a ser seguida, um sistema político específico a ser consolidado, um conjunto de regras e metas, ou mesmo uma moral. Não há um livro que imponha o modo como os capitalistas devem agir. Mesmo que houvesse, ele seria irrelevante, pois o sistema capitalista não depende de nada, a não ser os três pilares que elenquei. Portanto, um governo pró-capitalista ou um empresário podem ser morais ou imorais, bons ou maus, egoístas ou altruístas, monarquistas ou parlamentaristas, ateus ou religiosos, defensores da ditadura ou da liberdade. Tanto faz. O capitalismo é amoral, apolítico e agnóstico. É neutro. O comunismo não.

Além do disparate de tratar o capitalismo como um sistema político (o que já vimos que não é), os marxistas caem em outro erro quando dizem que o capitalismo também cometeu genocídios: jogam todo o tipo de guerras na conta desse sistema. Por exemplo, é comum que numa discussão dessas o marxista cite o massacre perpetrado pelos EUA aos índios norte-americanos, alegando ser um resultado do capitalismo. A primeira e a segunda guerra mundiais também são sempre relacionadas ao sistema. Tais alegações são muito questionáveis. Vamos entender.

Guerras entre tribos, povos e nações sempre existiram. A guerra é algo muito anterior ao advento do capitalismo. Ninguém vai dizer, por exemplo, que um uma guerra entre Tupinambás e Tupi Guaranis, no meio da floresta amazônica, no ano 1377, motivada pela extensão de terras, seja uma guerra capitalista. Ninguém dirá que as guerras perpetradas pelo império romano, pelo antigo Egito, pela Grécia, pela Pérsia ou pela Babilônia foram conflitos causados pelo capitalismo.

Essas guerras ocorreram, em última análise, porque o ser humano guerreia entre si; porque o conflito, seja entre nações, seja entre dois pequenos grupos ou indivíduos, é um elemento frequente nesse mundo. As motivações não variam muito. O ser humano guerreia por terras, por riquezas, por comida, por status, por vingança, por proteção ou por poder. Se pudermos resumir tudo isso em uma palavra, a palavra será: lucro. O ser humano guerreia por lucro. Sempre foi assim.

Ora, lucro significa ganho, vantagem, benefício, proveito. A busca por lucros não é uma invenção do sistema capitalista, mas sim uma postura natural no ser humano. Quem não quer benefícios? Acaso alguma sociedade deseja angariar malefícios para si? É normal topar com indivíduos que desejam obter perdas e desvantagens? Há pessoas, tribos, povos e nações que se esforçam para irem de mal a pior? Ora, querer o bem para si é uma postura natural, comum, legítima e existe desde sempre, independentemente de sistemas econômicos.

A desgraça do mundo está no fato de muitas vezes o lucro ser buscado através da guerra, da extorsão, da chacina. Infelizmente, a história de nosso mundo é marcada por conflitos entre os povos em busca de benefícios. E isso não mudou quando o sistema capitalista surgiu. A guerra em busca de lucros não é uma invenção capitalista, mas sim a razão de ser de todas as guerras. Ninguém faz uma guerra para perder, nem mesmo aquele que deseja apenas se proteger – este deseja conquistar o benefício da proteção, da vida, da tranquilidade, da paz. A busca por lucros através da guerra é apenas uma herança perpassada de geração em geração desde os primórdios da humanidade.

O que mudou, portanto, com a chegada do capitalismo? Nada. Os povos continuam guerreando como sempre fizeram. Então, por que deveríamos dizer que as guerras feitas pelo Império Romano ou pelos Tupinambás não foram causadas pelo capitalismo, mas as guerras feitas pelos EUA e outros países capitalistas foram? Será possível provar, por exemplo, que se o capitalismo não existisse, os EUA não teriam feito guerra contra os povos indígenas? Não penso que seja. Não podemos afirmar que determinadas guerras não existiriam se o sistema econômico não fosse o capitalista. A luta pelo lucro não depende do capitalismo para existir. É mais lúcido supor, portanto, que a causa do massacre dos índios norte-americanos foi a ganância do ser humano (que é comum a todos os povos) e a inferioridade bélica dos indígenas.

Colocar o capitalismo como um sistema causador de guerras é ignorar que os povos sempre fizeram guerra uns contra os outros, muito antes do capitalismo existir, e que a busca por lucros não surgiu desse sistema. É culpar um sistema por problemas que já nos acompanham a milênios. Parece-me que o capitalismo entra como bode expiatório nessa história.

Talvez o capitalismo seja culpado por possuir uma estrutura que permite facilmente o seu uso por governos belicistas, expansionistas ou ditatoriais. É uma acusação possível de se fazer. E, se isso for verdade, é legítimo lutar pelo comunismo, caso se prove que esse sistema possui uma estrutura que dificulta ou inviabiliza o seu uso por governos de viés belicista, expansionista ou ditatorial. Mas a questão debatida aqui não é essa. O que se debate neste texto é se o capitalismo causa guerras. E isso é questionável. Guerras existem desde sempre e o capitalismo não é um regime político, moral ou ideológico, com regras e metas definidas (como é o comunismo), mas simplesmente um modo de produção. Dito de uma forma simples: o capitalismo não é um vilão que tem a pretensão de dominar o mundo, nem um herói que deseja salvá-lo, mas um automóvel. Pode ser usado tanto pelo vilão, como pelo mocinho.

Bom, ficou bem claro que o capitalismo não é um regime político ou ideologia com regras definidas e, por isso, não pode ser acusado pelos crimes cometidos por ditadores, militaristas e governantes de cada país. Um país pode ser capitalista e ter um governo bom, democrático e pacífico, como também pode ser capitalista e ter um governo ruim, corrupto, autoritário, militarista e belicista. Um sistema não interfere no outro. Resta, no entanto, uma questão: o capitalismo, como sistema econômico, causa genocídios? Se, por um lado, ele não pode ser acusado por crimes perpetrados por regimes políticos, por outro lado, talvez, ele seja um sistema econômico ruim, que gera prejuízos. Será que, nesse sentido, esse sistema foi responsável por genocídios.

Segundo o pensamento marxista, o capitalismo gera a exploração do proletariado pela burguesia, o que resulta em aumento de riqueza para os que já são ricos, agravamento da miséria para os que já são pobres e crescimento do número de miseráveis. Em outras palavras, o capitalismo seria um grande gerador de opressão e miséria para a maioria das pessoas. E isso, claro, implicaria a morte de muitos por fome e doenças. Como exemplos dessa opressão e miséria, os marxistas sempre citam a situação difícil dos operários ingleses do século XIX e a extrema pobreza de trabalhadores nos dias atuais em países de terceiro mundo (sobretudo os da índia e do continente africano). Será que a acusação procede? O capitalismo gera miséria? Na verdade, não gera. Vamos entender também.

Em primeiro lugar, devemos sempre lembrar que a miséria é o estado natural do ser humano. Afinal, para se conseguir comida, vestes, abrigo, objetos para trabalho ou para o lazer, é preciso fazer alguma coisa. Sempre foi assim. Se um homem da pré-história, por exemplo, queria comer, ele precisava ir até algum lugar que tivesse frutas, legumes, verduras ou grãos para comer. Em dado momento da vida, teria de plantar para poder comer. Se quisesse comer carne, teria de caçar um animal. Se quisesse armas para caçar e para proteger sua família, teria de fabricá-las. Se quisesse ferramentas para forjar suas armas ou para lavrar a terra, teria de fazê-las também. E por aí vai. É preciso fazer algo para sair da condição natural de miséria.

Essa condição natural do homem só se agravou com o passar do tempo. Se um grupo solitário de homens pré-históricos já é miserável por natureza, muito mais miserável é uma sociedade com milhares ou milhões pessoas. Na medida em que cresce o número de pessoas no mundo, o trabalho para se conseguir alimento, vestimenta, instrumentos de trabalho, armas e abrigo fica mais árduo. Todos os bens providos pela natureza se tornam mais disputados, pois a procura por eles aumenta. Ademais, os bens naturais não se apresentam de maneira equitativa em cada lugar. Existem lugares que possuem bens naturais que outros lugares não possuem. Essa desigualdade da natureza só agrava a situação de miséria natural, posto que todas as pessoas terão mais trabalho para alcançar alguns objetivos.

Some tudo isso ao fato de que a espécie humana em geral tem conservado, desde os primórdios, uma inclinação à busca pela praticidade (o que não é algo ruim, mas pode ser desvirtuado), bem como à preguiça (um desvirtuamento da busca pela praticidade), à ganância, ao conflito e à maldade. Se isso é natural ou cultural (ou um pouco dos dois) não é o foco da discussão aqui. A questão é que essas inclinações da espécie humana, em seu conjunto, acabam por agravar a condição de miséria natural. Fato que pode ser observado é que quanto mais cresceu a população do mundo, cresceu também a miséria e, consequentemente, a fome. Isso, pelo menos, até cerca de trezentos anos atrás.

Quando você entende este fato, já não tem desculpas para dizer que o capitalismo criou a miséria dos operários ingleses do século XIX, ou a miséria dos trabalhadores atuais da índia, do continente africano e da América latina. A miséria, assim como a guerra, são heranças malditas passadas de geração em geração desde os primórdios do mundo. Não foi o capitalismo que inventou a miséria. Quando, portanto, as primeiras indústrias se instalaram na Inglaterra (e em outros lugares), o que se viu não foi um sistema novo criando miséria, mas um sistema novo sendo inserido em uma sociedade que já estava repleta de miseráveis, no interior de um mundo em que a miséria sempre existiu.

Às vezes, parece-me que o marxista, em meio ao seu rancor fulgurante nutrido contra o capitalismo acaba idealizando as sociedades feudais europeias anteriores ao advento do capitalismo, bem como as sociedades tribais africanas, chinesas e hindus, como se não houvesse nelas miséria natural, necessidade de se fazer algo para conseguir alimento, vestes e etc., guerras, injustiças, crueldades, escassez e fome. E essa idealização, talvez inconsciente (e certamente contraditória, já que o próprio Marx dava conta de que a história era marcada por desigualdades e injustiças) transforma o capitalismo em um sistema que destrói o belo mundo de antes. Nada mais falso.

As pessoas que correram para trabalhar em indústrias recém-instaladas na Inglaterra do século XIX, ou em alguns países de terceiro mundo dos dias de hoje, se submetendo a baixos salários e condições ruins de trabalho, não saíram de uma condição melhor para uma condição pior. Do contrário, por que teriam saído da condição melhor? Elas saíram sim de uma condição de miséria sem emprego para uma condição de miséria com um emprego ruim, o que é menos mal. Ignorar isso é culpar o capitalismo por algo que ele não fez. Pode-se, talvez, culpar o capitalismo por não ter retirado imediatamente essa pobre gente da extrema pobreza, mas não por ter jogado essas pessoas nela; não por ter produzido extrema pobreza. Isso já existia.

Mas seria mesmo justo culpar o capitalismo por não ter tirado imediatamente a pobre gente da miséria nos lugares em que começou a instalar indústrias? Isso é algo bastante questionável também. Em primeiro lugar, porque o número de indústrias e negócios no início do capitalismo era muito menor do que é hoje. Isso é óbvio, afinal, era o início do sistema. E o mesmo ocorre quando uma indústria é instalada em um país não capitalista nos dias de hoje: é o início do capitalismo no país; há poucas indústrias e negócios de relevância.

Um grande número de miseráveis e um pequeno número de indústrias e negócios. Esse foi o contexto do início do capitalismo no mundo e esse é o contexto do início do capitalismo em qualquer país. Ora, essa fórmula não faz mágica com os salários. Se há muita mão de obra disponível em relação ao número de empresas, o valor dela será baixo. É a lei da oferta e da procura: quanto mais se tem X, menor é o seu valor, pois qualquer um pode ter X. Em contraponto, quanto menos se tem X, maior é o seu valor, pois, nesse caso, X é mais raro e, por isso, mais disputado. Isso vale tanto para produtos, quanto para trabalhadores.

O início do capitalismo nunca muda imediata e plenamente a vida daqueles que já estão em condição de miséria. No entanto, isso é apenas a fase inicial. Os salários começam a aumentar (e as condições de trabalho a melhorar) na medida em que também aumenta o número de empresas. Isso começa a tornar menor a mão de obra disponível para cada empresa, diminuindo a disputa de vagas entre trabalhadores e aumentando a disputa de trabalhadores entre as empresas. A mudança não se dá apenas em relação à quantidade, mas a qualidade. Com a concorrência das empresas e o seu desenvolvimento, cada qual começa a precisar de mais funcionários qualificados e especializados, o que inicia uma disputa empresarial pelos melhores trabalhadores. E isso, claro, elevará gradualmente a oferta de salários.

O crescimento do número de negócios também irá gerar maior oferta de produtos e serviços do que antes, o que também jogará os preços para baixo. A concorrência ainda dará um jeito de baratear ainda mais os custos de produção, o que tornará os preços ainda mais acessíveis. Com mais empregos, produtos mais baratos e uma tendência ao aumento de salários, a miséria se reduz, os pobres elevam seu padrão de vida e muitos até conseguem se tornar ricos. Esse parágrafo poderia ser taxado de idealista, não fosse fato de que esta é a descrição real e literal do que ocorreu em todos os países capitalistas que hoje são chamados de primeiro mundo. E ocorre também nos de terceiro mundo, embora com menor velocidade.

Esse, aliás, é o problema dos países de terceiro mundo. Contando com governos que dificultam o empreendedorismo, o livre comércio e a livre concorrência, e que sugam a sociedade com impostos, gastos públicos excessivos, má gestão do dinheiro público, autoritarismo e restrições desnecessárias, esses países não conseguem ver o capitalismo se desenvolver e, por consequência, não veem seu padrão e vida se elevar. O que ocorre em seguida é muito triste: como apenas algumas poucas empresas (sempre as grandes) conseguem sobreviver e dominar o mercado nesses países de economia tão engessada, passam a existir alguns monopólios privados protegidos pelo governo, o povo se torna “refém” desses monopólios, os pequenos e médios empresários não conseguem se manter na disputa, a iniciativa privada não vai para frente e aquela relação “muitos miseráveis x poucas empresas” permanece quase inalterável ao longo do tempo. Aí o marxista olha para todo esse gigantesco efeito e diz que a causa dele é justamente o que falta ao país miserável: capitalismo.

Capitalismo, como podemos ver claramente aqui, não é um sistema gerador de miséria e opressão, mas de riqueza. Através do capitalismo as pessoas podem empreender, as empresas podem disputar clientes entre si, gerando produtos mais baratos e melhores, os clientes podem escolher o que mais lhe agradam, o número de empresas privadas pode crescer, gerando mais empregos e elevando os salários, a criatividade pode rolar solta, o dinheiro pode ser poupado e investido, as novas tecnologias podem se tornar comuns e produzir maior bem estar para um maior número de pessoas.

Portanto, como sistema econômico, o capitalismo também não causou genocídios, mas apenas melhorou a vida das pessoas, quando os governos assim permitiram. Eu disse há pouco que a miséria aumentou no mundo na medida em que a população também foi aumentando, pelo menos até trezentos anos atrás. Com o advento do capitalismo, algo incrível começou a acontecer. A miséria passou a recuar. E a cada ano que passa, o número de pessoas abaixo do nível da pobreza diminui. Isso não quer dizer que um dia o mundo será perfeito ou que o capitalismo não tenha falhas. Significa apenas que esse sistema econômico tem um enorme potencial e que, até o momento, não há outro que seja superior a ele.

A conclusão desse texto é que a resposta do marxista é uma grande mentira. Não, meu amigo, o capitalismo não causou genocídios. Ele é apenas um sistema econômico, que pode existir no interior de diversos regimes políticos; e um sistema econômico que gera riqueza, oportunidades, grandes avanços tecnológicos, recuo da miséria, aumento de salários, desenvolvimento econômico e bem estar social. Quem cometeu genocídios foi mesmo o comunismo, um sistema econômico e político que prevê o totalitarismo, a ditadura do proletariado e à repressão a burgueses, emigrados e rebeldes.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Contos de fada

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Evolução é apenas um nome pomposo para um processo cego de acumulação de milhões de pequenas mutações e variações aleatórias numa espécie ao longo de milhões de anos que, por muita sorte, foram benéficas e, por muita sorte, formaram complexos sistemas de partes interatuantes com uma finalidade útil, e que, por muita sorte, contaram com a sobrevivência dessas espécies repletas de sistemas incompletos ao longo desses milhões de anos, fazendo com que, no fim das contas, uma série de acasos sem finalidade alguma produzisse uma série de sistemas com finalidades específicas, e a finalidade geral da sobrevivência. Tal processo englobou, por muita sorte, não uma espécie, mas milhões delas.

Tudo isso ocorreu dentro de um universo repleto de constantes físicas que, com muita sorte, foram finamente ajustadas por acaso para que o universo não desabasse sobre si mesmo e para que permitisse a formação também por acaso de um planeta finamente ajustado aleatoriamente ao longo de milhões de anos para que, sem que tivesse essa ou qualquer outra finalidade, acabasse possibilitando vida.

Estes processos todos, os movimentos moleculares, as leis físicas e a própria matéria surgiram, há bilhões de anos, com muita sorte, do nada (ou sempre existiram, muito embora, o universo tenha tido, como sabemos, um inicio).

Se eu tivesse uma fé tão grande para crer nisso, talvez acreditasse também no comunismo e em outros contos de fada.

sábado, 28 de novembro de 2015

Quando eu também tinha medo

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É comum eu ouvir ou ler críticas de cristãos (de várias denominações) feitas a adventistas como eu, dizendo que a guarda do sábado é um fardo desnecessário que carrego, pois "Cristo aboliu isso na cruz". Eu também já acreditei nisso. Hoje acho curioso como o ser humano é capaz de chamar de fardo um dia de descanso. Mais curioso é que cristãos que amam a presença de Cristo considerem fardo ter um dia na semana para se desligar do trabalho, dos estudos e dos interesses estritamente seculares, para se concentrarem mais em Deus.

Quando eu tinha este pensamento, dizia que era apenas uma oposição teológica, interpretativa. Mas não era só isso. No fundo, eu não queria que fosse verdade. Passar a crer na validade do sábado implicava mudar toda a minha vida. Para começar, por mais que eu amasse a Cristo, não estava muito a fim de devotar a Ele um dia inteiro, assim como muitos não estão a fim de devotarem o dízimo, as ofertas, seus dons, sua boa vontade, seu perdão para com os irmãos que pisam no seu pé, sua oração aos inimigos. No fundo eu queria que o sábado continuasse sendo meu, para que eu pudesse escolher não passar o dia focado em Deus. Dar a Deus o sábado seria empurrar meus interesses próprios para outros dias.

Além disso, tinha a raiva e do medo. Eu sentia raiva dessa ideia de que apenas uma minoria está correta em relação ao sábado. Soa muito pretensioso aos ouvidos de quem nunca guardou o sábado. Aliás, soa muito pretensioso a qualquer um que descubra uma nova verdade informada por uma minoria.

Imaginem como se sentiu aquele católico piedoso, que acreditou nas palavras do Papa a vida toda e, de repente, se deparou com um Martinho Lutero e uma minoria de protestantes, dizendo existiam erros no catolicismo! O catolicismo, religião de centenas de anos, seguida por milhões de pessoas! Imaginem como se sentiu aquele judeu piedoso, que sempre acreditou nas palavras dos seus rabinos e, de repente, se deparou com uma minoria de judeus iletrados, discípulos de um crucificado, dizendo que os rabinos estavam errados e que o Messias era esse homem morto pelos romanos! Os rabinos, aqueles que lideravam o povo e carregavam uma tradição centenária.

É sempre uma pedrada isso. Olhamos para a minoria que nos deu a nova verdade e sentimos raiva de sua suposta pretensão. Gritamos indignados: "Ah, então só vocês estão certos!? O mundo inteiro, por centenas de anos, esteve errado e continua errado hoje!?".

Logo após vem o medo. Nos perguntamos: “E quem não guarda? Como fica? E quem não sabe? E as pessoas que eu amo? E todos os cristãos sinceros que eu conheço, mas que não guardam o sábado? O que acontecerá com todos esses? Irão para o inferno?”. Essas perguntas ecoam os questionamentos de milhões de pessoas de diversas épocas. Se o protestantismo está certo, como ficam os católicos? Se os cristãos estão certos, como ficam os judeus? Se os judeus estão certos, como ficam os não-judeus?
“Só vocês estão certos?”. Essa é a expressão da raiva e do medo.

Nós nos acostumamos a nossa maneira de fazer as coisas, às nossas crenças. Não queremos mudar. Não queremos ver o nosso mundo virar de cabeça para baixo e ter que reajustar toda a nossa vida à nova verdade descoberta.

Mas sabemos que isso não é racional. Então, tratamos de racionalizar nossas crenças.

“Minha oposição é meramente teológica”, eu dizia.

Não, não era.

Hoje, revendo meus argumentos contra a guarda do sábado, percebo o quão cego eu me fiz. Meus argumentos eram fracos, incoerentes, ilógicos, irracionais. Eram sofismas, fugas do contexto, interpretações ridículas. E me armando de todas essas inverdades, eu não conseguia enxergar as verdades mais claras.

Foram necessários vários empurrões de Deus, coincidências improváveis e uma sensação de incômodo espiritual, para que eu decidisse (após estudar com um pastor por mais de seis meses e tentar fugir de Deus por dois meses) estudar sozinho, com a mente aberta, para ver se eu achava a verdade. Só assim me abri à razão e comecei um estudo pessoal que durou mais de um ano.

O sábado, hoje vejo, jamais poderia ser chamado de mandamento cerimonial, de ritual criado para simbolizar o sacrifício de Jesus. Jamais poderia ser chamado de mandamento para judeus, de símbolo vinculado à antiga aliança. Afinal, ele foi criado antes de existir Israel, Isaque, Abraão; antes mesmo de existir pecado. Foi instituído por Deus no mundo perfeito. Não pecasse o homem, todo o mundo estaria guardando o sábado normalmente hoje.

Não, o sábado não foi instituído para ser símbolo redentivo, mas para ser símbolo de Deus como o Criador. Através do sábado, Deus pretendia (e pretende ainda) nos ensinar duas verdades básicas: que Ele é o Criador e que nós precisamos separar um dia para nos desligar das coisas seculares, focalizando as coisas de Deus. Não estou inventando isso. Está na Bíblia. E o primeiro texto que confirma isso está logo em Gênesis 2:1-3. Ali é dito que Deus abençoou e santificou o sétimo dia, o sábado, antes de haver pecado no mundo. Santificar significa tornar separado, distinto. Como eu poderia dizer algo diferente? Como eu poderia afirmar que para Deus, todos os dias são iguais, se ele mesmo estabeleceu a diferença?

Não é minha intenção fazer uma análise detalhada do assunto aqui. Já fiz diversos textos analisando detalhadamente cada passagem bíblica que embasa a guarda do sábado, e cada passagem bíblica que supostamente o anula. Minha intenção aqui é mais reflexiva que analítica. Hoje, aqui, expus um pouco do que eu fui, do que eu pensei e de como eu sei o que é descobrir uma nova verdade e não desejar que ela seja mesmo verdade.

Minhas razões para me opor ao sábado não eram teológicas. E as razões teológicas que eu tentei juntar, eram apenas sofismas. Essa é a minha história. Talvez seja o seu caso. Não o afirmo, apenas suponho. Sugiro a você que chegou ao fim dessa leitura que faça uma análise das suas razões contra o sábado. São racionais? São meramente teológicas? Ou será que você apenas tem medo?

Eu tive medo. Hoje estou em paz.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Não, a Crise de 1929 não foi causada pelo liberalismo econômico

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Na escola e na faculdade, geralmente aprendemos que a Crise de 29 foi causada pelo liberalismo econômico extremo (o laissez-faire). A explicação que nos dão é que a economia cresceu tanto que gerou superprodução pelas empresas. Daí sobrava coisa e ninguém comprava. Alguns adicionam na explicação que a produção crescia mais do que os salários das pessoas. Então, elas não podiam comprar.

Aprendemos isso como se fosse a explicação uma explicação perfeita e como se não existisse nenhuma explicação concorrente para ser analisada. Assim pensamos que ela é a verdade e acabou. Mas vamos analisar algumas coisas.

Primeiro: como superprodução pode ser um problema? Se eu tenho uma fabrica e ela produz mais que suficiente, tudo o que eu preciso fazer é produzir menos. Agora, reduzir produção não traz mais dinheiro. Então, é óbvio que a causa da crise não pode ter sido superprodução. A superprodução é um dos efeitos da crise. Mas o que causou a superprodução?

Superprodução pode ser causada por má administração da empresa, ou por queda no poder de compra dos clientes, ou por redução do mercado consumidor, ou ainda, por saturação de um ramo do mercado. O primeiro caso é facilmente resolvido e não explica uma crise generalizada num país. Queda no poder de compra dos clientes e redução do mercado consumidor foram dois fatores que ocorreram justamente dois fatores que ocorreram por causa da crise. A crise levou pessoas a serem demitidas e outras a se endividarem, reduzindo-se o consumo. Então, até aqui ainda estamos tratando dos efeitos da crise e não de sua causa.

O último caso é o da saturação de um ramo do mercado, isto é, muitas empresas disputando num mesmo ramo até o ponto em que não há mais como disputar. A hipótese é que com uma concorrência tão grande, as empresas teriam começado a lucrar menos e falido. Essa opção também não explica a crise. Quando um ramo está saturado, a tendência é que novos empresários não entrem nele, pois sabem que não conseguirão lucrar. Ademais, o natural não é que em um ramo saturado todos os empresários entrem em falência, mas sim os menos aptos a enfrentar a concorrência (que geralmente não são aqueles que já chegaram no topo). E se, porventura, uma empresa do topo não resistir e ir à falência, outra empresa entrará no seu lugar e ela simplesmente sairá do ramo, tornando o mercado menos saturado. A falência de uma grande empresa por perder na concorrência não leva diversas outras grandes empresas (incluindo concorrentes) a falirem, criando uma crise; apenas põe outra em seu lugar. Então, a saturação também não explica a crise de 1929.

Segundo: a explicação da superprodução apresenta algumas inconsistências lógicas. Como explicar que estava tudo bem enquanto se produzia menos, mas quando se passou a produzir mais e se baratear o consumo, as pessoas deixaram de ter condição para comprar? Isso não faz sentido. E como explicar que os maiores empresários de um país, que são aqueles que melhor fazem os investimentos (não é à toa que estão no topo), irão quebrar quase simultaneamente? Como todos erraram tão feio ao mesmo tempo? E logo após um período de muita prosperidade. Não é estranho? Há também uma inconsistência histórica. As primeiras empresas a serem afetadas pela crise não foram as de bens de consumo, mas as indústrias de base. Essas que produzem ferramentas e máquinas para outras empresas. Se o problema tivesse a ver com superprodução, o mais lógico era que as empresas de bem de consumo fossem afetadas primeiro, já que é o setor onde há maior produção.

Felizmente, essa explicação da superprodução não é a única que existe. Ela é apenas uma teoria (bem frágil, como pudemos ver). Outra explicação mais plausível é sustentada pela Escola Austríaca de Economia, tendo expoentes como Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Passo a expô-la agora.

Embora os EUA tivessem a economia muito mais liberal do que hoje em dia, o período de ouro do liberalismo americano não foi nos anos 20. Foi sim no fim do século 19 e início do século 20 até 1913. Em 1913 foi criado do FED (o Banco Central Americano) para regular os bancos. A criação do FED era, em tese, para evitar que os bancos inflassem moedas. Isso acontecia com alguma frequência e por isso muitos bancos iam à falência. O problema é que o FED, tal como todos os Bancos Centrais pelo mundo, acabam servindo como um regulamentador de cartel. Afinal, ele mesmo infla a moeda, mas para todos os bancos, o que evita a falência deles. E para quem isso é bom? Para os bancos e para o governo, pois com a inflação de moeda, as taxas de juros são reduzidas (quanto mais moeda circulando, mais barato ele fica). Com as taxas reduzidas, as empresas pegam mais empréstimos (e empréstimos altos) para seus projetos. E assim a economia cresce, mais empregos são gerados e há mais consumo. Então, é comum que os governos intervenham na economia através dos Bancos Centrais para acelerá-la.

Entretanto, todo crescimento artificial dá problema um dia. A expansão desordenada de crédito e a derrubada artificial de juros não podem continuar para sempre, pois acabarão gerando uma hiperinflação. Essa hiperinflação pode ser evitada, retardada e até maquiada por um tempo quando a economia está muito produtiva e em crescimento. Mas uma hora ela pedirá as contas pela distorção causada pela expansão creditícia. Prevendo isso, o governo americano travou a expansão. É nesse momento que a crise começa. Vamos entender o panorama.

Várias grandes empresas haviam pego empréstimos gigantes para implementar seus projetos, por conta das baixas taxas de juros. Quando o governo trava a expansão de moeda, as taxas de juros começam a subir. Então, em pouco tempo, os empresários se veem impossibilitados de pagar pelos seus empréstimos que pegaram. As primeiras empresas a sofrerem são as indústrias de base, pois seus investimentos são muito mais caros. Sem poder pagar aos bancos, essas empresas começam a demitir funcionários e cortar custos. O crescimento do desemprego reduz o poder de compra dos clientes e o mercado consumidor, criando mais dívidas para as empresas. Entretanto, com o ritmo acelerado de produção das indústrias em geral, da abundância de produtos e da grande concorrência, essas empresas se veem obrigadas a manter os preços baixos. É neste ínterim que os produtos começam a sobrar. Com as empresas sem poderem pagar suas dívidas e muitas indo à falência, os bancos também começam a ficar em situação ruim, já que não estão tendo de volta os seus empréstimos.

A situação piora com o crescimento de cidadãos desempregados querendo pegar o dinheiro que guardavam nos bancos. Aqui abrimos parênteses. Como se reduz a taxa de juros naturalmente? Através da poupança das pessoas. Num período em que as pessoas estão estimuladas a poupar, o banco tem bastante dinheiro. E assim o preço do dinheiro (os juros) se torna mais baixo. Mas quando os juros são baixados artificialmente (através de inflação de moeda), não há poupança suficiente no banco. Então, uma vez que o banco empreste muito dinheiro e os devedores não devolvam, haverá pouco dinheiro para os correntistas. Pois foi isso o que aconteceu. Os correntistas queriam pegar seus valores, mas o banco não tinha como atender a todos, pois não havia poupança suficiente. Os bancos começam, então, a quebrar.

Com a quebra dos bancos, começaram a sofrer com mais intensidade as empresas de bens de consumo e os cidadãos que perderam o dinheiro que tinham nos bancos que faliram. Mas como havia muitas empresas e a economia tinha crescido muito até ali, a produção permaneceu mais alta do que o nível de consumo, desacelerando em um nível sempre mais lento que a capacidade de compra dos clientes. Em outras palavras, as empresas e os clientes quebraram com maior velocidade do que a produção desacelerou. A quebra, como se pode ver, não foi causada pela superprodução. Esta foi um efeito da crise. Tal estado de coisas causou a deflação nos preços.

É interessante comparar a crise americana de 29 com a do Brasil atual. Elas tem a mesma causa. No governo Lula, o crédito foi expandido irresponsavelmente. O breve aceleração econômica conteve o aumento de preços por um tempo, mas logo a a política intervencionista se mostrou danosa. A diferença é está no grau de liberdade econômica e competitividade. Como nos EUA de 29 estes eram bem superiores ao Brasil de hoje, o efeito da crise foi superprodução e a consequente deflação de preços. No Brasil, o efeito tem sido a inflação de preços, já que sua pouca liberdade econômica não gerou um cenário competitivo o suficiente para, em uma crise, gerar superprodução. Isso não é, no entanto, um louvor à crise americana. Os efeitos da crise, sejam inflação ou deflação, são ruins do mesmo jeito, pois em ambos os casos o poder de compra do consumidor está afetado, o desemprego cresce e a economia começa a se desacelerar.

A crise de 29 poderia ter sido menos extensa. O problema é que as teorias utilizadas para entendê-la e controlá-la seguiram uma linha de raciocínio baseada nas ideias de Karl Marx e do economista John Maynard Keynes. Nessa linha de raciocínio, os efeitos da crise (superprodução e deflação de preços) foram tomados como suas causas. E o intervencionismo estatal (que causou a crise) foi tomado como uma forma de resolver o problema. A partir de então se disseminou a ideia de que se o governo não intervém, graves crises econômicas podem surgir. No entanto, como vimos, a crise foi causada por conta de intervenções irresponsáveis do governo. E se prolongou por conta das mesmas. O melhor que se poderia ter feito diante daquela crise (e o melhor que se tem a fazer quando há uma crise) é reduzir a intervenção e deixar o mercado voltar ao seu rumo natural.

A lição que a Escola Austríaca nos deixa é que quando você derruba juros artificialmente, através expansão de moeda, você está criando uma economia distorcida, uma economia falsa. Quando você parar de distorcê-la, é a hora do acerto de contas. Ela começará o caminho de retorno. Esse caminho será dolorido, mas é necessário. A economia precisa se tornar real. É aqui que entendemos porque um número tão grande de megaempresas afundaram quase ao mesmo tempo. Elas fizeram projeções de longo prazo baseadas em uma economia falsa. Se planejaram baseados em dados mentirosos. Não tinham como prever que eram mentirosos. Mentiras plantadas pelo governo.

Obs.: Este artigo é um resumo das ideias contidas em um artigo mais antigo: "Como seria um bom governo de direita? - Parte 3", que fala sobre este e outros temas. Vi a necessidade de fazer um novo texto sobre o assunto, com explicação mais simples, linguagem mais dinâmica e focando apenas na Crise de 1929.

domingo, 20 de setembro de 2015

Sobre o marxismo heterodoxo (ou: o que alguns pretensos estudantes de história ignoram)

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Quando um conservador diz que ainda existe socialismo marxista hoje, sempre aparece algum sujeito para dizer: "Vá estudar história!", como se o conservador estivesse dizendo uma grande baboseira do ponto de vista historiográfico e como se ele, o sujeito a proferir a imperativa frase, fosse um expert. É compreensível essa postura. Afinal, esses indivíduos acreditam que só existe um único marxismo: o marxismo ortodoxo. Mas por que pensam isso?

Pensam isso porque nunca leram obras como "Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intellectual History of Radicalism", de Antony James Gregor, que explora o conceito de marxismo heterodoxo.

Pensam isso porque desconhecem as ideias de Georges Eugene Sorel, marxista heterodoxo que fundou as bases do chamado sindicalismo revolucionário. Entre suas ideias se encontra o conceito de exploração dos mitos políticos como força motriz para mobilizar o povo. Seu movimento influenciaria o pensamento de grandes ideólogos marxistas (como Antonio Gramsci, Walter Benjamin e José Carlos Mariategui) e também de Benito Mussolini, o qual, fora marxista ortodoxo durante muitos anos.

Pensam isso porque não tomaram conhecimento das bases da social-democracia e do trabalhismo, que pretendiam alcançar o socialismo através de reformas graduais dentro do próprio capitalismo.

Pensam isso porque não leram as obras do teórico marxista Antonio Gramsci, ou dos teóricos marxistas da Escola de Frankfurt, que fizeram releituras do marxismo, criaram novas estratégias e abordaram a necessidade do combate cultural para a tomada de poder pelos partidos socialistas.

Pensam isso porque não chegaram a estudar sobre a falibilidade prática de sistemas econômicos totalmente estatizados e as consequentes concessões feitas ao setor privado pelos dirigentes comunistas, a fim de conseguirem manter a economia de seus Estados. Não estudaram isso, tampouco estudaram que estes fatos já eram previstos e explicados, em parte, pelos estudos do economista Ludwig von Mises (na década de 1920) a respeito do cálculo econômico em sistemas socialistas. Esses estudos, aliás, continuaram sendo feitos pelo economista Friedrich Hayek, ganhador do Nobel de Economia em 1974 e autor do clássico livro "O Caminho da Servidão", no qual explica com clareza porque o crescente controle da economia pelo Estado leva a sistemas políticos totalitários.

Pensam isso porque eles ignoram que a falibilidade do modelo econômico socialista contribuiu para reformulações na teoria marxista e a adoção de estratégias mais pragmáticas e gradualistas por parte dos novos pensadores e políticos marxistas.

Pensam isso porque não prestaram sequer atenção ao próprio "Manifesto do Partido Comunista", em que Marx e Engels demonstram, no final, que em todos os países os comunistas estavam dispostos a colaborar até mesmo com capitalistas, se isso se mostrasse efetivo para os planos do partido no futuro. Ali estava a gênese do pragmatismo marxista e do surgimento de marxismos heterodoxos.

Acreditam esses indivíduos que nos mandam estudar história que o comunismo acabou juntamente com a URSS e que, de um dia para o outro, como num passe de mágica, marxistas de todo o mundo se conformaram com o capitalismo, abandonaram todas as ligações com as ideias de Karl Marx e deixaram de lado qualquer pretensão de mudar o mundo. Esquecem-se (ou ignoram propositalmente) que os principais conceitos marxistas continuam sendo ensinados amplamente, como é o caso da luta de classes, da mais-valia, do materialismo dialético, do materialismo histórico, da sociedade dividida em superestrutura e infraestrutura, da religião como ópio do povo, da capacidade do ser humano de remodelar o mundo, do Estado como ferramenta para implementar as políticas da revolução proletária, do forte controle da economia pelo Estado e da centralização do poder nas mãos do proletariado (representados pelo Partido).

Os simples fatos de (1) não se falar mais em estatização completa da economia, (2) tolerar a existência de empresas privadas e (3) deixar de lado a utilização do mito de um estágio final do socialismo onde o Estado é superado, é entendido por esses sujeitos como prova irrefutável de que o socialismo marxista não existe mais. Tolice. O que isso na verdade mostra é que marxistas compreenderam que a estatização completa da economia é inviável e, ao mesmo tempo, desnecessária. Para quê estatizar tudo se o Estado pode controlar empresas privadas através de regulamentações, altos impostos, troca de favores com grandes empresas, proteção de cartéis, oposição ao livre mercado e grande poder de intervenção na economia? Para quê estatizar tudo se o Estado pode estatizar (ou manter estatizado) apenas aquilo que julgar mais importante? Para quê o Estado terá o trabalho de administrar tanta coisa, se é possível delegar essa função à empresas privadas sem prejuízo algum de seu plano de poder? Para quê estatizar tudo se o Estado pode contar com a existência de empresas privadas para resolver os problemas econômicos causados por sua ineficiência e corrupção?

Não é preciso estatizar tudo para conquistar o controle político e econômico que marxistas almejam para, supostamente, tornar a sociedade mais justa e igualitária. E isso, por mais heterodoxo que possa soar, encontra sua gênese no "Manifesto do Partido Comunista". Lá Marx e Engels já falavam sobre o gradualismo. O controle político e econômico do Estado seria conquistado aos poucos. As empresas privadas não seriam todas destruídas ao mesmo tempo, mas conviveriam com o governo socialista por período indeterminado, sendo cada vez mais controladas pelo Estado e reduzidas em número, até que tudo passasse diretamente para as mãos dos dirigentes estatais. A diferença entre o marxista ortodoxo e o heterodoxo aqui é que o primeiro vê o controle direto do Estado sobre as empresas como uma necessidade, ao passo que o último crê que é possível e conveniente que parte do controle sobre as empresas seja indireto. Em outras palavras, é possível fazer uso do capital privado para benefício do Estado e da manutenção do poder.

Quando voltamos a Gramsci e lemos sobre suas estratégias para a manutenção do Partido no poder (inclusive dizendo que o Partido é o novo Princípe, de Maquiavel) e a transformação gradual da mentalidade do proletariado através da cultura, confirmamos o parágrafo acima e percebemos que o socialismo marxista ainda existe e tem sido implementado por diversos partidos, embora por meios mais gradualistas, pragmáticos e aparentemente despretensiosos. Uma vez que os sujeitos dos quais falamos nesse texto, não admitem a existência de heterodoxia no marxismo, zombam dos conservadores e olham para governos de orientação socialista como se não o fossem. O resultado se verá à longo prazo. Economias cada vez menos livres, crises econômicas e governos com poderes despóticos. Temos visto prévias desse cenário na Venezuela, na Bolívia, na Argentina e no próprio Brasil.

Obs.: O leitor mais atento certamente percebeu que as semelhanças entre o fascismo italiano de Benito Mussolini e o marxismo heterodoxo. Na verdade, é exatamente isso. O fascismo italiano é um tipo de marxismo heterodoxo. Suas raízes estão fincadas nas ideias do sindicalismo revolucionário de Sorel, que serviu de inspiração para que Mussolini remodelasse o marxismo que seguia. Mussolini percebeu o que os marxistas perceberiam em massa após a falência da URSS: que não era necessário estatizar toda a economia, destruir as empresas privadas e utilizar o mito do fim do Estado após a ditadura do proletariado. A diferença entre Mussolini e os marxistas heterodoxos atuais reside na escolha dos mitos políticos para empurrar o povo. O Duce italiano utilizou-se do nacionalismo e da guerra. 

Algumas das obras que dão conta desta análise são: "Revolutionary Fascism", de Erik Norling; "The birth of fascist ideology”, de Zeev Sternhell, Mario Sznajder e Maia Asheri; e o já citado "Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intellectual History of Radicalism", de Antony James Gregor. Deixo como indicação alguns artigos sobre o tema:

Quando o Fascismo era de Esquerda
Tudo que você deveria saber sobre o Fascismo, mas não quer 
O Fascismo nasce da Esquerda
Fascismo do Século XXI
O nazismo e o fascismo eram movimentos conservadores políticos?

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A graça e a boa conduta moral

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A mesma Bíblia que nos ordena um código moral amplo e rígido, também nos avisa de que a salvação é pela graça. Aquele orgulhoso que pretende salvar-se por bondade e esforços próprios descobre que jamais será bom o suficiente para isso. Mesmo que um dia ele se tornasse perfeito, isso não apagaria os pecados que cometera antes de chegar a este nível, tampouco anularia o fato de que sua bondade só foi alcançada através da influência do Espírito Santo. Em outras palavras, é impossível salvar-se sozinho.

Em contrapartida, aquele malandro que pretende salvar-se sem deixar de lado seus desejos pecaminosos descobre que a graça só alcança os dispostos a seguir o código moral bíblico. Curiosamente, o mesmo Deus que não cobra nota máxima, cobra disposição máxima. Como dizia minha mãe: "Não me importo que você tire notas baixas, desde que eu veja que você está se esforçando ao máximo para tirar notas altas".

Em meio ao orgulhoso e o malandro, quem sai mais feliz nessa história toda é aquele indivíduo humilde, que reconhece seu estado pecaminoso e sua total incapacidade de alcançar sozinho a salvação. Ele aceita a salvação pela graça de Deus e, por amor e gratidão ao Deus que o salvou sem merecer, ele torna sua conduta moral cada vez mais elevada. E quanto mais o indivíduo reconhece sua miséria e total dependência de Deus, mais virtuoso passa a ser.

Este equilíbrio entre a salvação pela graça e a manutenção de uma boa conduta moral é uma dos ensinos que mais admiro na Bíblia. Que nós todos possamos aprender a agir deste modo.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O inferno é um lugar de tormento eterno?

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A palavra “inferno” é usada nas Bíblias da Língua Portuguesa para traduzir três palavras originais:

- Sheol (do hebraico), que significa "sepultura, sepulcro, cova";

- Hades (do grego), que também pode ser usado como sinônimo de sepultura. Essa palavra foi escolhida pelos tradutores judeus da Bíblia Septuaginta (a primeira tradução do Antigo Testamento hebraico para o grego, em cerca de 250 a.C.);

- Geena (do grego), que era o nome de um vale que existia em Israel. À época de Jesus, esse vale era usado para se jogar lixo, bem como corpos de criminosos e indigentes.

Como se pode ver, nenhuma dessas palavras significa: “lugar de tormento eterno”.

Sheol e Hades designam simplesmente “sepultura”. O lugar para onde todos nós vamos quando morremos. Uma vez que a Bíblia também não ensina a imortalidade da alma, então quando morremos, nossa mente morre e ficamos inconscientes. Isso está claro em diversos textos, como Eclesiastes 9:5-6 e 10. Morremos de verdade. E ficamos mortos até Deus nos ressuscitar no dia do juízo final. Esse é o ensino bíblico. Ninguém que morre vai para o céu ou para o inferno direto. A morte é um sono. Um sonho sem sonhos, sem consciência. Não há atividade cerebral nesse período. Nossa consciência é desativada e retorna a Deus juntamente com nosso fôlego de vida, que ele nos dá.

Já a palavra Geena, não indica sepultura. Como eu disse, ela era um vale em que se jogava lixo e se queimava corpos. Geena (Ge Hinnon, em hebraico) ficava numa região chamada Tofete. No passado, quando Israel caiu em graves pecados, passando a seguir um deus pagão chamado Moloque, muitos israelitas sacrificaram crianças queimadas naquele local (Jeremias 7:31-32). Por essa razão, o vale virou sinônimo de um lugar amaldiçoado. Um lugar de morte.

Jesus usou esse vale como metáfora para indicar de que forma morreriam para sempre os ímpios. Assim como criminosos e indigentes eram queimados em Geena (e crianças, no passado), os ímpios também serão queimados, no juízo final, em local semelhante (o lago de fogo).

Jesus enfatiza que em Geena o fogo não se apaga, nem o verme morre. Ele diz isso porque Geena era um lugar em que constantemente se jogava lixo e corpos. Por isso sempre havia vermes e fogo.

A ideia dessa metáfora não é indicar que os ímpios seriam queimados eternamente. A ideia é enfatizar que enquanto houver o que queimar, o fogo queimará. Enquanto houver o que ser comido pelo verme, o verme comerá. Mas obviamente copos não são comidos e queimados para sempre. Um dia eles se acabam.

O Antigo Testamento está repleto de textos que indicam que os ímpios serão totalmente consumidos pelo fogo, morrendo. O melhor deles, na minha opinião, está em Malaquias 4:1-3. O texto diz que os ímpios serão totalmente abrasados, não sobrando nem raiz, nem ramos; se tornarão cinzas.

Com relação aos textos que usam termos como "fogo eterno", "fogo inextinguível", "fumaça que sobe pelos séculos dos séculos" e etc., entenda o seguinte: no hebraico e no grego é comum que palavras que significam "para sempre" e "eterno" tenham um sentido diferente quando aplicadas a coisas que são, por natureza, efêmeras (ou seja, coisas que não são eternas).

É o caso da palavra hebraica "olam" e das palavras gregas "aion", "aionio" e "aiones" (todas com o mesmo radical).

Por exemplo, no Antigo Testamento uma lei civil determinava que o servo que quisesse continuar trabalhando para o seu senhor após os seis anos que a legislação traçava como limite, deveria oficializar essa decisão perante um juiz através de um furo na orelha. Isso está em Êxodo 21:1-6. O verso 6 diz que após essa oficialização, o servo iria servir seu senhor “para sempre” (olam). Mas esse para sempre é, obviamente, só enquanto o servo viver. Se o servo morresse dez dias depois, não poderia mais servir.

Outro exemplo está no Salmo 23 em que Davi diz que habitará na Casa do Senhor para sempre. Algumas versões traduzem como "por longos dias". Não se sabe ao certo, pois não fica claro se Davi estava se referindo à eternidade com Deus ou à sua vida aqui na terra.

No Novo Testamento há um exemplo que está no livro de Judas, verso 7. Ali diz que as cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas pelo fogo eterno. Mas essas cidades não estão queimando até hoje. Eterno aqui pode ser traduzido como "constante". Ou seja, o fogo queimou as cidades completamente, sem parar. Ele não se extinguiu até que tivesse queimado tudo.

O termo serve para mostrar que nada, nem ninguém escapou. Não houve uma chuva que tenha apagado o fogo em algumas áreas ou durante algum breve período de tempo, de modo que algumas pessoas pudessem escapar. Esse é o sentido de eterno aqui. Nada pode parar o fogo. Nada pode extingui-lo. Ele queima até não haver mais o que ser queimado. O fogo é eterno sim, mas não o material que ele consome.

Mesmo no português, existem alguns exemplos do gênero. Quando dizemos que um casal foi feliz para sempre, queremos dizer que ele foi feliz enquanto viveram. Quando digo que fulano sempre foi legal, esse sempre compreende apenas o tempo de vida dele (ou o tempo que eu o conhece). Não compreende a eternidade. Eu posso dizer, por exemplo, que meu primo sempre me levou ao parque quando eu era criança. Aqui o sempre compreende apenas o tempo em que eu era criança, não é um período que nunca teve fim. Da mesma forma, a Bíblia ensina que o lago de fogo queimará os ímpios apenas enquanto houver o que queimar.

O Apocalipse deixa isso mais claro quando diz que o inferno (Hades = Sepultura) e a morte serão lançadas no lago de fogo (Ap. 20:14). Ora, se o próprio Hades será lançado no lago de fogo, então ele não pode ser o próprio lago de fogo. Ele é a sepultura.
Se a sepultura e a morte serão lançadas no lago de fogo, isso quer dizer duas coisas: (1) há morte e sepultura para quem está no lago de fogo e (2) a morte e a sepultura, elas mesmas, morrerão no lago de fogo. Como? Logo após todos morrerem, pois não haverá mais ninguém para morrer e ser sepultado após a morte de todos. É por isso esse mesmo versículo diz que ser lançado no lago de fogo é a “segunda morte”. Ou seja, o que é lançado ali, morre de vez.

Aqueles que aceitam a teoria do inferno como um local de tormento eterno, esbarram em várias dificuldades, a maioria das quais eu não irei comentar neste post em benefício da concisão. Mas quero citar uma para terminar o texto: a Bíblia afirma que os salvos serão transformados, ganhando um corpo incorruptível e imortal (I Co 15:51-53). Esse benefício não é dado aos perdidos. Então, o corpo deles será queimado pelo fogo e eles morrerão. Se, de fato, existisse uma parte imaterial que sobrevivesse à morte do nosso corpo (alma), ela não seria queimada e atormentada pelas chamas do inferno, pois almas não são constituídas de matéria. E agora? Como fica a doutrina do tormento eterno da alma através do fogo?

Para resolver isso, é preciso ou (1) afirmar que o lago de fogo e o tormento nas chamas são uma metáfora para algum outro tipo de sofrimento que será infligido às chamadas “almas”, ou (2) afirmar que Deus dará também aos ímpios um corpo incorruptível e imortal, a fim de que eles queimem eternamente, sem serem consumidos. Tanto uma ideia como a outra não têm qualquer respaldo bíblico, bem como se constituem grandes erros de interpretação e lógica.

Então, em suma: o inferno como lugar de tormento eterno não existe. Tampouco o ser humano é um “fantasminha”, preso em um corpo físico, que vai para o céu ou para o inferno após morrer. O que acontece na morte é que, de fato, morremos. Quando Jesus ressuscitar, os salvos se tornarão eternos e viverão com ele; os ímpios e descrentes serão lançados no lago de fogo, que os consumirá até a morte. Então, serão exterminados.

Obs. 1: Quem discordar e quiser debater, o faça com educação, sem vir com ofensas e rótulos de herege. Use educação e Bíblia.

Obs. 2: Isso é um resumo. Há várias questões não analisadas aqui, tais como os textos que aparentam dar suporte à ideia de imortalidade da alma. Também não expus aqui as dezenas de textos do Antigo e do Novo Testamento que dão suporte às ideias que estou defendendo.

Obs. 3: As ideias aqui expostas não foram criadas por mim. Elas tem sido defendidas por uma série de teólogos sérios de diversas confissões genuinamente cristãs.

domingo, 6 de setembro de 2015

O que a esquerda defende?

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Você provavelmente já ouviu a seguinte frase: "A esquerda é a posição política que defende os pobres e oprimidos da sociedade". Bom, essa frase está incompleta. O que a esquerda defende, na verdade, é a manutenção de um Estado muito rico e poderoso, a fim de que o mesmo tenha meios para defender os pobres e oprimidos. Agora, se o Estado realmente vai defender os pobres e oprimidos depois de se tornar muito rico e poderoso, já são outros quinhentos. Aí está o problema.

Lembre-se dos seguintes ditados: "De boas intenções, o inferno está cheio" e "Querer não é poder". Sábios provérbios populares. O primeiro nos lembra que nem sempre aquilo que parece ser uma boa intenção, realmente o é. Há no mundo pessoas que mentem, que enganam, que distorcem, que justificam maus atos e que também se aproveitam de ideias aparentemente boas para fazer o mal. Parece uma boa intenção dois filhos ajudarem a mãe idosa a sacar dinheiro no banco. Mas talvez um deles só queira gastar o dinheiro dela (e, quem sabe, até os dois).

O segundo provérbio nos lembra que ter uma boa intenção não é garantia de conseguir os resultados almejados. Eu posso ter muita boa intenção em ir à farmácia e comprar o remédio de hipertensão do meu pai doente. Mas se eu errar e levar para casa um remédio para gripe, minha boa intenção não vai salvar meu pai. A boa intenção de nada serve na cura de uma pessoa se o remédio comprado não é o correto para tratar sua enfermidade.

Em política não é diferente. O esquerdista que realmente crê no que diz, apoia um Estado muito rico e poderoso esperando que ele ajude pobres e oprimidos. A intenção final é boa. Mas não necessariamente a intenção dele irá se concretizar. Vários fatores podem impedir o resultado almejado: (1) políticos corruptos; (2) políticos honestos, mas ineficientes; (3) políticos com más ideias; (4) políticos bons, mas sem apoio; (5) políticos que querem resolver tudo através de centralização, autoritarismo e, consequentemente, de repressão; (6) a falibilidade administrativa do ser humano; (7) a falibilidade moral do ser humano; (8) a complexidade dos problemas sociais; (9) a extensão do território governado; (10) a dificuldade de fiscalizar todos os agentes de um Estado tão amplo; (11) a dificuldade de manter as contas de um governo tão custoso; (12) o excesso de funções desempenhadas pelo Estado; (13) leis falhas e ineficientes; (14) a tendência humana de se acomodar diante de dificuldades quase intransponíveis; (15) a preocupação com o combate a oposicionistas; (16) as alianças com partidos de ideias distintos; (17) a impossibilidade do Estado apresentar a mesma criatividade e eficiência que o setor privado (que é impulsionado pela concorrência e pessoas preparadas para gerir negócios); (18) a participação política do povo; (19) a história política e econômica do lugar; (20) os valores culturais e morais da sociedade em questão; e etc.

Em outras palavras, ao aumentar a riqueza e o poder do Estado, o esquerdista cria um sistema ideal para a existência e manutenção de governos ineficientes, corruptos e totalitários. Não importa o quão honesto seja um esquerdista e o quão boa seja a sua intenção, ele está ajudando a consolidar um sistema vil, que causa mal principalmente aos pobres. Um dos milhares de exemplos que poderiam ser dados ocorreu a pouco tempo, próximo à UERJ (a universidade mais esquerdista do Rio de Janeiro e, quiçá, do Brasil). O governo despejou pessoas de suas casas em uma favela, a fim de dar prosseguimentos à obras públicas. Por que o governo tem esse poder? Porque a esquerda deu esse poder ao Estado; porque ela defende um Estado rico e poderoso, e sustenta discursos que enfraquecem a autonomia do indivíduo e o direito à propriedade privada.

O aumento da riqueza e do poder do Estado está sempre gerando problemas para o cidadão pobre. Ele é obrigado a pagar pela má administração dos serviços públicos, pelos desvios de verba, pelos milhares de cargos governamentais e pela inflação de preços causada pela expansão irresponsável de papel-moeda pelo Estado. Ele é obrigado a ver o Estado matar pequenas e médias empresas com o peso da burocracia e dos impostos, deixando o povo pobre à mercê de grandes empresas que cobram caro e oferecem produtos (e serviços) de baixa qualidade. Ele é obrigado a aceitar proibições arbitrárias do Estado ao livre mercado, a fim de defender grandes empresas já bem estabelecidas na economia. Ele é obrigado a se conformar com as imensas dificuldades burocráticas que o Estado cria e mantém para se iniciar um negócio. Ele é obrigado a depender de péssimos serviços públicos. Ele é obrigado a se submeter à invasão do governo em diversas áreas de sua vida individual, perdendo liberdades como a de ter uma arma de fogo para autodefesa.

"A esquerda é a posição política que defende os pobres e oprimidos da sociedade". Não, ela defende um Estado rico e poderoso que além de não defender os pobres e oprimidos, também traz grandes problemas para eles. E o que a direita defende? A direita defende justamente um Estado menos rico e poderoso, que permita ao cidadão honesto (principalmente o pobre) exercer sua liberdade individual e o exima de ser prejudicado pela ineficiência, pela corrupção e pelo totalitarismo provenientes de um Estado gigantesco.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Indicação de leitura: "Mentiram para mim sobre o desarmamento"

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Prezado leitor, quero indicar nesse post a leitura da obra “Mentiram para mim sobre o desarmamento”, de Flávio Quintela e Bene Barbosa. O livro é, sobre todos os aspectos, espetacular. Conta com argumentos lógicos e dados estatísticos sólidos baseados em fontes seguras e fáceis de consultar. Além disso, a linguagem é muito leve e simples, os capítulos são curtos e o tema é exposto de modo muito objetivo.

Mesmo que você seja a favor do desarmamento da população, leia esse livro. É importante você saber o que o outro lado diz, da boca das próprias pessoas que o defendem. Garanto que, no mínimo, você terá uma visão bem diferente da importância desse debate após a leitura. E como eu disse, não é leitura enfadonha. A obra é bem gostosa de ler e até quem lê devagar e não tem tempo, consegue terminá-la em cinco dias.

Para quem já é a favor do direito de o cidadão honesto portar armas, leia e divulgue amplamente essa obra. Por que isso é tão importante? Porque não estamos falando aqui apenas de uma mera questão de opinião. Há dados estatísticos sólidos demonstrando que o armamento do cidadão honesto é um importante fator na redução da criminalidade violenta e na proteção do povo contra governos com intenções escusas. E o Brasil hoje necessita muito dessas duas coisas.

Então, leiam, divulguem e até comprem para presentear outras pessoas. As informações desse livro precisam ser conhecidas pela galera. É importante. Até para que tenhamos um debate legítimo de ideias.


domingo, 26 de julho de 2015

O perdão de Cristo para os mais terríveis pecados

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Um dos aspectos mais curiosos do pecado é que ele machuca o pecador. Quando pecamos, não apenas nos tornamos culpados, mas também vítimas. O pecado tem o poder de nos destruir por dentro, de fazer com que nos sintamos indignos, maus, sujos e sem valor. Ele nos faz sangrar. Cria uma dor excruciante. Um incômodo terrível. Uma vergonha destruidora. Há muitos que escapam a esses sentimentos, entorpecendo sua consciência e ignorando o Santo Espírito de Deus. Mas quando não se faz isso e, mais ainda, quando se é um cristão, a dor e a vergonha causadas pelo pecado podem ser altamente angustiantes. Sentimo-nos hipócritas, falsos e mentirosos. Diversas vezes me senti assim.

Felizmente, Deus, em toda a sua bondade, aceita nossos sinceros pedidos de perdão. Ele nos acolhe quando voltamos da lama, sujos, fedorentos e indignos. Ele não se importa de nos abraçar nesse estado. Seu desejo está em nos lavar, nos regenerar, sarar nossas feridas e nos fazer novos homens e mulheres. E sabe por quê? Porque Ele nos ama e deseja não apenas mudar nossa vida, mas mudar outras vidas através da nossa. Ele quer nos tornar homens e mulheres valorosos, cristãos vibrantes, evangelistas natos, modelos de virtude.

Talvez o amigo leitor (ou amiga leitora) tenha cometido alguns grandes pecados na vida e esteja pensando: “Não, eu não posso me tornar um modelo de virtude. Sou um lixo. Estou condenado pelos meus erros do passado”. Será mesmo? Convido você a pensar em alguns personagens bíblicos e tirar algumas conclusões comigo.

Pense em Pedro. Este homem cometeu um pecado gravíssimo: negou o Senhor do Universo por três vezes! Isso depois de ter dito a Ele que jamais o negaria. Isso depois de ter vivido durante três anos e meio ao lado do Senhor, presenciando todos os seus milagres e maravilhas. Creio ser este um pecado mais grave que os meus e os seus. Imagine o quanto esse homem se sentiu angustiado, culpado, condenado por esse ato!
“Neguei Jesus. Sou um lixo. Não sou digno de fazer nada por Ele. Sou o pior dos homens. Não sirvo para pregar o evangelho a ninguém”, Pedro deve ter pensado.

No entanto, Jesus, após ressuscitar, faz questão de dizer a Ele por três vezes: “Pedro, apascenta minhas ovelhas” (João 21:15-17). Em outras palavras, “Pedro, sei que você está arrependido do que fez. Já me pediu perdão. Não há mais condenação sobre você. Não há mais culpa. Você está limpo desse pecado agora. Eu o apaguei. De hoje em diante, quero que você seja um novo Pedro, um novo cristão, alguém que será grande, que fará a minha obra, que apascentará as minhas ovelhas. O velho Pedro morreu”.

E o que Pedro fez? Aceitou o perdão que Jesus lhe deu e tornou-se um grande homem do Senhor. Em seu primeiro sermão público, levou ao batismo três mil pessoas. Abriu as portas para que o evangelho fosse pregado aos gentios. Morreu recusando-se a negar Jesus. O seu pecado passado não impediu que Ele se tornasse um cristão valoroso no futuro. Cristo sabia disso. E por isso o nomeou como Pedro (Pedra) antes mesmo que Ele fosse firme como uma rocha. Porque agrada a Deus mudar vidas.

Pense no apóstolo Paulo. Este homem consentiu na prisão e até na morte de vários cristãos inocentes. Talvez até já tenha pego em pedras para participar de algum desses homicídios. Ele observou friamente a morte de Estevão, um grande homem de Deus. Creio ser este um pecado mais grave que os meus e os seus. Pense na culpa que ele deve ter sentido quando descobriu que Jesus era realmente o Cristo e que ele, Paulo, havia condenado inocentes!

“Consenti na morte de inocentes. Servos de Deus. Sou um lixo. Não sou digno de fazer nada por Ele. Sou o pior dos homens. Não sirvo para pregar o evangelho a ninguém”.

No entanto, Jesus disse a Paulo que ele seria uma ferramenta preciosa para a pregação do evangelho aos gentios. E Paulo realmente se tornou um cristão magnífico, que espalhou o evangelho por inúmeros lugares, escreveu cartas inspiradas por Deus, fez diversas boas obras pelos necessitados e morreu recusando-se a negar Jesus.

Pense em João, o apóstolo do amor. Antes de ser o cristão maravilhoso que se tornou, ele era um homem nervoso e que estava disposto a mandar fogo descer do céu contra descrentes, em vez de desejar seu arrependimento.

Pense em Tomé, que descreu em Jesus, mesmo quando todas as evidências indicavam que seu Mestre havia ressuscitado. Pense em Tiago, irmão de Jesus, que só o aceitou depois que Ele morreu, ressuscitou e apareceu a ele. Pense em Maria Madalena e em Raabe. Eram prostitutas, vendiam o corpo por dinheiro. Mas se arrependeram, mostraram amor por Deus, mudaram suas vidas e foram louvadas por Deus. Tornaram-se virtuosas.

Pense no rei Davi. Foi chamado “o homem segundo o coração de Deus”. A Bíblia o tem em alta conta e afirma que Ele fez o que era reto perante o Senhor. Quantos elogios! Mas durante sua vida, fugiu às suas obrigações em uma guerra, cobiçou a esposa de um soldado, cometeu adultério, mandou assassinar um inocente, tornou-se um polígamo e chegou até ao ponto de permitir que a punição por um pecado que cometeu recaísse sobre o povo e não sobre ele. Era um homem repleto de falhas. Muito provavelmente cometeu pecados muito maiores que os meus e os seus. Mas ainda assim, Deus o considerou um homem segundo o seu coração. Por quê? Porque Davi se arrependeu genuinamente de cada um desses atos. Então, Deus os esqueceu e continuou a trabalhar para que seu servo se tornasse um grande homem do Senhor.

Pense em Abraão. Ele é chamado de “o Pai da fé”. Mas mentiu duas vezes à respeito de sua esposa, por não crer que Deus os protegeria caso homens quisessem tomá-la. Também ouviu a ideia esdrúxula de Sara de que ele deveria ter um filho com a sua serva, já que ela mesma já era velha (como se Deus precisasse de ajuda para cumprir sua promessa). Mas mesmo assim Deus teve Abraão em alta conta. Por quê? Porque ele se arrependeu dos seus pecados. Então, o Senhor os esqueceu e continuou a trabalhar para que Abraão se tornasse um grande homem.

Eu poderia citar muitos outros exemplos, mas não é necessário. O que quero que o leitor entenda é os heróis da Bíblia, os homens que o próprio Deus considerou santos e modelos para nós, foram terríveis pecadores no passado. Cometeram, em sua maioria, pecados muito graves. Ainda assim, Deus os perdoou e fez deles grandes homens, servos valorosos, modelos de santidade, evangelistas de grande poder. Por quê? Porque agrada a Deus que nós sejamos totalmente transformados por Ele, a ponto de transformarmos a vida de outras pessoas. E Ele é mestre em fazer isso. 

Infelizmente, Satanás trabalha para que Deus não cumpra em nós esse objetivo. Quando ele percebe que nos arrependemos, pedimos perdão a Deus e nos afastamos de um pecado, seu trunfo é criar sentimento de culpa e condenação em nós. Através disso, Satanás nos limita. Ele nos faz acreditar que não valemos nada, que não somos capazes de nos tornar modelos de virtuosidade e santidade. Ele nos atrela aos nossos erros, reduz o nosso poder e nos impede que Deus nos torne novas pessoas. 

A culpa e a condenação cria uma barreira, por exemplo, para que digamos com propriedade para alguém: “Amigo, Deus pode perdoar totalmente os seus pecados e transformar você em um grande cristão, um modelo de santidade, que não tem do que se envergonhar”. Não podemos dizer isso com propriedade, porque nós mesmos ainda nos sentimos culpados. Porque ainda achamos que não podemos ser exemplo, que Deus não pode nos usar poderosamente.

De quebra, a estratégia satânica ainda nos faz reduzir o poder de Deus. É como se disséssemos todos os dias: “Sua morte na cruz não é suficiente para me tornar em uma pessoa totalmente nova, Senhor. Meu pecado é grave demais para que seu sacrifício me dê o direito de ser uma pessoa virtuosa”.

A estratégia é velha e foi usada em todos os personagens que citei. E continua sendo usada hoje em todos nós. Quantas vezes eu caí nela! Mas sabe qual é a notícia boa? Deus continua interessado em mudar totalmente nossas vidas e traçar novos futuros para nós. Ele continua desejoso de nos transformar em cristãos de valor. E se Ele pensa assim, quem sou eu para pensar diferente? 

Eu não tenho a menor moral para condenar qualquer pessoa por qualquer coisa que ela tenha feito no passado. Cristo me ensina a não julgar, para não ser julgado. Ele me ensina a perdoar, do mesmo modo como Ele pacientemente me perdoa. Ele me ensina não apontar o cisco no olho dos outros antes de tirar do meu olho uma trave. Ele me ensina que se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar e nos purificar de toda a injustiça. Ele me ensina que jamais se lembrará novamente de nossos pecados já confessados. 

Ele me ensina que a salvação é unicamente pela graça e que ele não leva em conta nossas obras passadas. Ele não está interessado na quantidade de coisas boas e ruins que fizemos, ou em quem fomos, mas sim se hoje estamos com Ele. Ele me ensina que “Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1). Ele me ensina que todos tem direito a outra chance. Não por nós mesmos, mas porque Ele morreu por todos e dá a todos o direito de ser perdoado e começar de novo. Ele me ensina que faz nova todas as coisas. Ele me ensina que cria um novo ser em nós quando o aceitamos. Morremos para o pecado e passamos a viver para Ele. Ele me ensina, acima de tudo, que enquanto estamos vivos, nunca é tarde para recomeçar.

Um bandido, que provavelmente viveu décadas praticando crimes perversos, foi crucificado ao lado de Jesus. Estava recebendo a pena mais severa que existia. Certamente já havia matado pessoas, roubado coisas e causado muito sofrimento. Seu passado era horrível. Ele devia se sentir um lixo. Indigno de qualquer amor. Mas Ele reconheceu que Jesus era o Salvador e humildemente rogou que Cristo se lembrasse dele no paraíso. Bastou isso, para que Jesus confirmasse ao ladrão arrependido: “Em verdade te digo hoje: estarás comigo no paraíso”. O passado daquele homem, milhares de vezes pior que o meu e o seu, foi irrelevante para Jesus Cristo. O arrependimento expresso em um minuto foi suficiente para que Cristo se esquecesse de todos os seus pecados e escolhesse estar eternamente com aquele ladrão no paraíso.

Nem Deus, nem eu, estamos interessados em condenar o leitor por seu passado. Seus pecados já não existem nos registros de Deus. Foram cobertos por uma enorme mancha de sangue. O sangue do cordeiro que tira o pecado. Você já não deve nada. Está limpo. Está livre para ser um homem santo (ou uma mulher virtuosa) e um modelo de cristão. Está livre para ser instrumento de Deus para salvar a muitos. Está livre para dizer a Satanás: “Você não pode mais me condenar por nada. Meus pecados estão perdoados e esquecidos e eu posso hoje, pela força e o poder de Deus, me tornar uma serva ou um servo santo, valoroso e virtuoso. É Deus quem me dá esse direito”.

Se o leitor (ou a leitora) tem coragem e sinceridade para confessar seus pecados a Deus e se incomoda claramente com o seu pecado, posso dizer que você tem minha admiração. E muito mais que isso: tem a admiração de Deus. Se sua postura hoje é de um verdadeiro cristão e um homem (ou mulher) determinado a fazer o que é certo, então, sim, você pode ser comparado ao homem justo do Salmo 24 ou a mulher virtuosa de Provérbios 31. Sim, você pode ser considerado um modelo de bom cristão. Sem dúvida, você já é. Porque você hoje não tem mais nada a ver com o que outrora fora no passado. Deus já escreveu uma nova história para você. As páginas antigas foram arrancadas da sua vida. Como diz uma música que gosto: “O Autor da Vida escreveu a história, a escolha é sua e o final será feliz”. Não há mais condenação. Sinta-se livre para ser virtuoso, como de fato tem sido.