domingo, 15 de fevereiro de 2015

É possível realmente guardar o sábado? E os trabalhos imprescindíveis?

13 comentários:
Eu sou um cristão sabatista há mais de dois anos. Um sabatista é a pessoa que entende o sábado, o sétimo dia da semana, como um dia santo – um dia separado por Deus para o descanso das atividades seculares diárias e que deve ser preenchido com atividades espirituais e a comunhão com o próximo. Judeus ortodoxos são sabatistas até hoje. A maioria dos cristãos não é, mas existem pelo menos mais de 20 milhões que mantém essa prática.

Existem muitas razões bíblicas que me levaram a aceitar o sábado como um dia especial de descanso e adoração, mas não proponho uma exposição e análise delas neste texto. Em vez disso, o assunto que irei abordar aqui é o seguinte: “Como fica a questão dos trabalhos imprescindíveis dentro da visão sabatista?”. Esta é uma pergunta frequente e muitas vezes utilizada como argumento para invalidar a guarda do sábado. 

O raciocínio anti sabatista usado aqui é que existem serviços imprescindíveis para a sociedade, que não podem parar no sábado. Assim, sempre haverá alguém trabalhando nesse dia. Se eu não trabalho, alguém trabalhará por e para mim, o que está errado. E se todos, porventura, resolvessem não trabalhar nesse dia, vários serviços importantes seriam impedidos. Logo, a guarda do sábado é inviável.

Quais são esses serviços imprescindíveis? Certamente o serviço dos médicos, dos enfermeiros, dos auxiliares de limpeza em hospitais, dos bombeiros, dos policiais, das forças militares e, no mundo moderno, dos motoristas de transportes públicos e dos que mantém o funcionamento das companhias de água e energia elétrica. A maioria das pessoas concordaria que se esses serviços faltarem, mesmo que por um dia, a sociedade teria vários problemas.

Em vista disso, a visão sabatista não deveria ser descartada? É possível realmente guardar o mandamento de Deus? Para responder à questão precisamos primeiramente entender o que exatamente é proibido fazer nesse dia. Então, vamos à Bíblia.

O que não se deve fazer no sábado?

O texto de Gênesis 2:1-3 afirma que Deus fez o mundo em seis dias e ao sétimo descansou, sendo esta a razão de santificá-lo. Santificar significa “tornar santo”. E tornar santo nada mais é do que separar. Então, Deus separou o sétimo dia para que o ser humano descansasse das atividades diárias. Certo?

Mas de que atividades o ser humano deve descansar no sábado? De todas elas? É óbvio que não! O senhor não teria qualquer interesse em obrigar o homem a não comer, não beber, não caminhar, não falar e ficar parado, estático, fazendo nada. Daí nós deduzimos que Deus queria que o homem descansasse de atividades relacionadas à sua subsistência e projetos pessoais, os quais ele poderia retomar no dia seguinte. E por quê? Porque o homem precisava de um dia para centralizar sua atenção em Deus e nas coisas espirituais.

O texto de Êxodo 20:8-11 confirma esse entendimento ao dizer que nesse dia o homem não deveria trabalhar ou colocar alguém para trabalhar por ele. Nessa mesma linha de raciocínio, o zeloso Neemias, quando coordenava a reconstrução de Jerusalém, protestou contra aqueles que faziam comércio na cidade em dia de sábado (Neemias 13:15-22). E o texto de Isaías 56:13-14 nos lembra que não são as nossas vontades e interesses pessoais que devem imperar no sábado, mas a vontade do Senhor. O que não quer dizer, evidentemente, que no sábado não podemos fazer coisas que nos sejam interessantes, mas que os nossos interesses nesse dia devem ter íntima relação com Deus.

Baseados nesse entendimento simples sobre o sábado, entendemos que o que Deus deseja de nós é que não gastemos as horas do sétimo dia focados em nossa subsistência, lucros, metas de produção e vendas, negociações, compras, pechinchas, finanças, clientes, vendedores, contas a pagar, contas a receber, obrigações corporativas, crescimento profissional, cargos, salário, status, reconhecimento pessoal e atividades estritamente seculares, mas, em vez disso, focados em oração, na Palavra de Deus, nos louvores, nas reuniões com outros adoradores de Deus, na rememoração das bênçãos da semana, na contemplação da natureza, na pregação do evangelho, no ensino da Palavra de Deus, na visitação de amigos e parentes, naquele grande almoço em família, na visitação de doentes ou pessoas solitárias, na promoção de ações sociais, na organização de um culto ao Senhor e etc.

Se o leitor entendeu bem qual é o caráter do sábado e como Deus deseja que utilizemos este dia santo, o que devemos fazer agora é pegar cada uma daquelas atividades imprescindíveis e nos perguntar: ela desrespeita o mandamento? Ela fere o objetivo básico do sétimo dia?

O Serviço dos Médicos

Vamos começar pelas atividades dos nossos amigos médicos. O que faz o médico? Depende. Há médicos cirurgiões que operam pacientes na emergência, por exemplo. Esse tipo de médico não está apenas trabalhando quando faz uma cirurgia de emergência. Ele está salvando uma vida. Evidentemente, não é errado salvar uma vida em dia de sábado. Salvar uma vida é uma obrigação humana, uma obrigação bíblica e um ato de amor. Não há um dia em que isso seja diferente. Então, um médico pode salvar uma vida no sábado? Não só pode como deve.

Agora, repare: é licito um médico salvar uma vida no sábado, mas não é licito que ele trabalhe nesse dia. O leitor perguntará: “Mas o trabalho dele não é salvar vidas?”. Sim, mas no dia de sábado ele não deve entender sua atividade como uma parte de seu trabalho diário, de seu “ganha-pão”. Ele deve entender como um bem ao próximo. 

Aqui reside o espírito sabático: não devemos usar o dia de sábado para garantir remuneração, sustento, lucro ou a permanência em um emprego. Estes elementos pertencem aos outros dias da semana. No sábado, todas as nossas atividades devem ser gratuitas e altruístas. Assim, o médico sabatista que salva uma vida no sábado, deve fazê-lo apenas por amor à vida do seu próximo e a Deus, abrindo mão da remuneração daquele dia.

Ofereci o exemplo do médico cirurgião em emergência. Há outros médicos que trabalham com emergência, assim como também há médicos que trabalham apenas com consultas e exames de rotina. Esta segunda categoria de médicos desempenha atividades que não estão ligadas à emergência e salvação de vidas. Tais atividades podem muito bem ser deixadas para outro dia da semana. Há seis dias para isso. Desempenhá-las no sábado seria ferir o princípio sabático e desobedecer a Deus.

O Serviço dos Enfermeiros

As atividades dos enfermeiros seguem o mesmo padrão. Desde que imprescindíveis para a salvação de uma vida, podem ser desempenhadas em dia de sábado. Mas aqui vale ressaltar um ponto importante: nenhuma atividade, por mais altruísta e nobre que seja, deve tonar-se uma rotina que retire do sabatista um tempo considerável, impedindo-o de ter uma comunhão plena com Deus, com sua família e com a Igreja. Se todo sábado eu preciso estar no local que trabalho durante a semana, desempenhando as mesmas tarefas, gastando a maior parte do meu dia e ficando impedido de me desligar e focar plenamente na leitura da Bíblia, na oração, no louvor, na pregação do evangelho e etc., o sábado não está alcançando seu objetivo em minha vida. 

Por esta razão, os profissionais da área da saúde que precisam salvar vidas em dias de sábado, devem manter uma escala que os permita estar longe do trabalho na maioria dos sábados. Em minha humilde opinião, uma escala boa para médicos e enfermeiros sabatistas seria a de um sábado trabalhado por mês ou dois sábados livres para cada sábado trabalhado. Na pior das hipóteses, uma escala “sábado sim, sábado não”, mas, neste caso, trabalhando meio período no sábado em que se trabalhar.

Alguém pode dizer aqui que Jesus não fazia escalas para curar as pessoas e que, por isso, os médicos e enfermeiros também não deveriam fazê-lo. Mas este é um argumento tolo. Jesus Cristo não era um médico ou enfermeiro que trabalhava em um hospital, mas um pregador itinerante que também curava doentes. Um médico ou enfermeiro não pode parar no meio do dia para fazer um sermão de quarenta minutos, depois se retirar para orar por uma hora, em seguida debater com mestres legalistas e aí voltar a curar pessoas. Mas era o que Jesus fazia todos os dias. Logo, ele não precisava de escalas. Ele fazia o seu próprio cronograma e tinha todo o tempo para cumpri-lo.

Ademais, Jesus curava instantaneamente. Médicos e enfermeiros curam pessoas por meio de processos demorados e que exigem maiores cuidados e atenção. Jesus poderia curar dez pessoas em dez minutos e então fazer outra coisa. Um médico ou enfermeiro pode demorar mais de dez horas tentando salvar uma só pessoa. Então, sem dúvida, os profissionais de saúde precisam de uma boa escala de serviço no que tange o sétimo dia da semana.

Pessoal da limpeza em hospitais

Com relação às pessoas que fazem a limpeza nos hospitais, seu serviço também é de extrema importância, pois os hospitais precisam estar limpos para não proliferarem doenças. Mas é um serviço que pode receber, em dias de sábado, considerável redução de pessoal, diminuição de carga horária e escalas generosas, de modo que o serviço no sábado não se torne rotina. 

Bombeiros, policiais e forças armadas

Saindo da área saúde, temos os bombeiros, os policiais e as forças armadas. Quanto aos bombeiros, não precisamos falar muito.  As atividades que esses profissionais desempenham estão diretamente relacionadas à salvação da vida. E enquanto o trabalho de um bombeiro tiver a ver com isso, não há transgressão em desempenhá-lo no sábado, desde que haja uma boa escala, o profissional abra mão da remuneração do dia de sábado e o faça por amor, não por medo de punições.

Com relação aos policiais e as forças armadas, a questão é um pouco mais complexa. Embora esses profissionais desempenhem serviços essenciais, em muitos casos o seu trabalho envolve prevenção e não salvação. Por exemplo, se sou um soldado e me escalam para vigiar o quartel em um dia de sábado, eu não estou salvando vidas, mas protegendo o quartel de ataques. Por outro lado, se não houver essa prevenção, a vida de pessoas estará em risco. O que fazer em uma situação dessas?

Eu não posso dar uma resposta taxativa. O pecado tornou algumas questões complexas nesse mundo. O que posso dizer com certeza é que o sabatista deve dar preferência ao exercício de outras profissões, pois o ideal de Deus é que os seres humanos tenham seu sábado livre, a fim de o adorarem com toda a liberdade e descansarem suas mentes, corpos e espíritos. Mas na hipótese de alguém ter escolhido estas profissões (o que não ouso dizer que é errado, pois a Bíblia não me informa), o mais indicado é que o profissional busque não prestar serviço em dia de sábado. Isso pode implicar em punições, claro. E conheço muitas histórias de amigos que aceitaram passar por essas punições por amor a Cristo. A estes, o Senhor sempre honra, pois buscaram ser fieis ao mandamento.

Agora, na hipótese do policial ou militar sabatista entender que o seu serviço é essencial e não ver problema em desempenhá-lo no sábado, ele deve oferecer o serviço gratuitamente à sociedade, fazendo-o com amor e procurando respeitar uma escala que lhe permita não tomar a maioria dos seus sábados com esta atividade. Não é o ideal, mas não tenho como dizer que está errado.

Uma pergunta interessante surge aqui: aqueles policiais e militares que escolhem faltar o serviço em dia de sábado, mesmo sob punição, não estariam incorrendo em um pecado ao permitirem que outras pessoas façam o seu trabalho nesse dia? A resposta é não. 

O mandamento do sábado nos ordena a não fazermos comércio, nem obrigarmos as pessoas a trabalharem para nós em dia de sábado. Quando um policial ou militar escolhe trabalhar no sábado, isso é uma decisão dele. Se, portanto, eu falto o trabalho no sábado, mas meu colega não, eu não estou obrigando-o a trabalhar. Ele foi porque quis. E se eu sou salvo de um assalto ou minha rua é protegida por uma ronda policial no sábado, estes profissionais escolheram fazer isso por eles mesmos; poderiam ter escolhido ficar em casa. Então, nada me condena nestas situações. Seria diferente se eu contratasse seguranças privados e os ordenasse que trabalhassem para mim no sábado, pois aí eu também teria responsabilidade no ato.

Não obstante, a resposta acima levanta à outra pergunta, um pouco mais complexa: “Se todos os policiais e militares resolvessem guardar o sábado, como a sociedade seria protegida dos criminosos e das ameaças estrangeiras?”. Evidentemente, isso não irá ocorrer. Mas a questão é importante porque deseja saber se o sábado é um mandamento que pode ser cumprido por todos ou se é necessário que algumas pessoas o quebrem para que a sociedade funcione. Esta segunda opção faria do sabatista um verdadeiro parasita religioso.

Para responder à questão, é preciso primeiramente entender que o sábado foi projetado para um mundo perfeito. Portanto, a guarda ideal do sábado por toda a sociedade só pode ocorrer em um mundo perfeito. Isso não quer dizer que ele não possa ser guardado. Se todas as forças armadas de um país guardassem o sábado, provavelmente uma escala seria feita para que fossem raros os sábado em que cada militar tivesse de prestar serviço. Essa escala certamente seria muito generosa, pois todos os militares entrariam nela. 

Além disso, o ambiente de trabalho seria altamente religioso, o que tornaria muitos locais de trabalho bem parecidos com Igrejas; os quartéis teriam Igrejas em funcionamento aos sábados (com cultos em vários horários); os policiais certamente fariam suas rondas com o rádio do carro tocando louvores; e de hora em hora os grupos e duplas de policiais e militares poderiam se revezar para fazer alguma breve leitura da Bíblia Sagrada e uma meditação. 

Vale notar que em um país com tantos religiosos sinceros que decidissem reorganizar toda a escala de serviços nacional para se adequar ao mandamento de Deus teria um baixo índice de criminalidade, diminuindo assim o fluxo de serviço. A esfera espiritual do país também iria contribuir para a criação de uma cultura na qual nenhum policial ou militar iria enxergar o serviço prestado no sábado como um trabalho secular ou de subsistência, mas como um serviço para Deus. Isso já é o que acontece com os ministérios de Igreja. Toda Igreja conta com os irmãos que abrem e fecham o templo, com os que se revezam na recepção/portaria, com os que dão aulas para as crianças, com os que lideram cada classe na escola bíblica, com os que tocam e cantam, com os que dão a Palavra no culto, com os que recolhem os dízimos e as ofertas e por aí vai. 

São muitos ministérios, cargos e funções. Mas nada disso é visto como emprego, exceto o pastorado, que geralmente exige do pastor a abdicação de qualquer outro emprego (ainda assim, o pastor sabatista não ganha por sábado trabalhado, mas por ser pastor). No hipotético país em questão, a sociedade seria vista como uma grande Igreja. E os serviços prestados no sábado seriam vistos como os serviços que prestamos na Igreja por amor.

Não é o ideal, já que Deus deseja que não haja criminosos e, por consequência, forças militares, armas e rondas para proteção. Mas em um mundo de pecado, tal arranjo seria o mais próximo do ideal, caso todos os policiais e militares se tornassem sabatistas. Porém, uma vez que estamos distantes desse arranjo, não há problema em um policial ou um militar sabatista optar por não trabalhar nesse dia por julgar que assim guardará o sábado de modo melhor. Contudo, deve estar pronto para arcar com prováveis punições civis. A escolha fica por conta do sabatista. Há questões que devem ser resolvidas na base do relacionamento do indivíduo com Deus e do que ele entende da Palavra. E Deus o julgará conforme a sua sinceridade.

O Serviço do Motorista de Transportes Públicos

A próxima atividade é o de motorista de transportes públicos (ônibus, trens e metrôs). Esta atividade, por mais imprescindível que possa parecer, não deve ser desempenhada por um sabatista em dia de sábado. A razão é simples. Não estamos falando de um serviço do qual depende a vida de pessoas, mas de um serviço que geralmente pode ser feito em outros dias ou substituído por uma carona de amigos.
Contudo, uma questão é levantada aqui: “O sabatista pode se utilizar do transporte público em um sábado?”. Essa questão geralmente é utilizada por anti-sabatistas para acusar os sabatistas de hipócritas, pois os mesmos muitas vezes usam o transporte público para chegarem a igrejas de outros bairros, casas de conhecidos e hospitais. Ao usar esses serviços, os sabatistas estariam praticando comércio e obrigando os motoristas (e trocadores) a trabalharem para eles. 

De fato, é facilmente compreensível que alguém, num sábado, procure um médico por se sentir mal, ou ligue para os bombeiros por conta de um incêndio, ou para a polícia por causa de um assalto. Não é uma quebra do sábado. A pessoa está pedindo ajuda, pois existe uma situação de alto risco. Mas o que dizer de pessoas que pegam um transporte público apenas para assistir um culto em outra igreja ou visitar um amigo? É certo?

Para responder à questão, teremos de voltar ao nosso hipotético país sabatista. Como é que funcionaria um país em que todos os motoristas de transportes públicos fossem guardadores do sábado? Bom, as pessoas que não tivessem um carro ou uma moto poderiam se deslocar para lugares mais distantes de bicicleta ou combinar uma carona com algum amigo. Além disso, as empresas de táxis e mais todos os sabatistas que tivessem carro em cada igreja poderiam fazer uma escala para oferecer caronas em dias de sábado. Para quantidades maiores de pessoas, as empresas de ônibus poderiam liberar alguns veículos por sábado e também entrar no rodízio. 

Nesse sistema de rodízio geral, o “trabalho” seria muito pouco, pois a maioria esmagadora da população não precisaria, no sábado, ir ao emprego; e ninguém iria à escola, universidade, mercado, feira, shopping, cinema, teatro, estádio de futebol e etc. Além do mais, as pessoas se acostumariam a se programar, a fim de reservarem caronas com antecedência, ou dormirem na casa de um amigo que more perto do local aonde se pretende ir ao dia sábado, ou não fazerem determinada locomoção no dia santo.

Esses arranjos seriam perfeitamente possíveis caso a maioria esmagadora das pessoas do tal país virasse sabatista. E o funcionamento do sistema dependeria de a sociedade agir como uma grande Igreja. Penso eu que se Israel não tivesse sofrido a diáspora no ano 70 d.C. e permanecesse desde lá fiel a Deus, inclusive aceitando Jesus como o Messias, o país estaria vivendo um sistema semelhante a este, com uma forte colaboração social entre as pessoas, a fim de propiciar o cumprimento do sábado a todos os que quisessem, de modo aprazível e deleitoso.

Mas, utopias à parte, o mundo esqueceu o sábado e a maioria das pessoas não o obedece. Daí, nós não temos muitas opções quando precisamos de uma condução em dia de sábado. O que fazer? Deixar de visitar igrejas, amigos, parentes e hospitais? Aqui entra mais uma vez aquela palavrinha: ideal. Não é ideal que usemos transporte público no sábado. Mas não podemos dizer que o sabatista que o faz está errado. Se ele está usando este serviço com uma finalidade nobre e espiritual, a qual não poderia desempenhar sem usá-lo, e o motorista, por sua vez, está trabalhando ali porque quer (e trabalharia da mesma maneira se o sabatista não usasse o serviço naquele dia), não há como condenar o sabatista.

Em nosso mundo real, onde a maioria das pessoas não é sabatista, o mesmo princípio pode ser usado com relação à compra de remédios em dia de sábado, ao pagamento de uma clínica particular por alguma cirurgia ou atendimento de emergência, à compra de comida para um faminto e etc. Não é o ideal, mas também não pode ser julgado como erro. Ainda assim, é de bom senso evitar ao máximo até esse tipo de atividade no sábado. Assim, nos aproximamos mais do ideal de Deus.

Mantenedores dos sistemas de Energia e Água 

Os últimos profissionais a serem mencionados são os que trabalham com a manutenção da energia elétrica e da água encanada. Não conheço muito do cotidiano desses profissionais, mas estou quase certo que dada a tecnologia que hoje temos, é perfeitamente possível deixar que as máquinas façam o trabalho dos homens durante esse dia. Mas ainda que eu esteja errado e que seja essencial ter pessoas trabalhando nesses lugares no sábado, não podemos dizer que o serviço é essencial à vida a ponto de não poder parar no sétimo dia. Ninguém morre por ficar um dia sem água ou luz. Além disso, hospitais e locais que não podem ficar sem energia têm geradores próprios. A água, por sua vez, não acaba nas casas e prédios até que a caixa d’água esteja vazia. Em outras palavras, é possível se virar. Assim, um sabatista que trabalhe em estações de água e energia, não deve trabalhar no sábado.

Os demais serviços

Todos os demais trabalhos que o leitor puder pensar, devem ser analisados com base em tudo o que foi pautado aqui. Embora a questão possa parecer delicada algumas vezes, a verdade é que são poucos os trabalhos que causam alguma dúvida quanto a se é licito ou não praticá-los no sábado. A maioria esmagadora não oferece dúvida alguma. 

Para tornar a coisa mais palpável para o leitor, aí vão algumas das profissões que não devem ser desempenhadas no sétimo dia, acima de qualquer dúvida: pedreiro, carpinteiro, encanador, eletricista, pintor de paredes, chaveiro, engenheiro, arquiteto, vidraceiro, costureiro, estilista, técnico de computador, garçom, chefe de cozinha, operador de caixa, taxista, médico de consultório, advogado, juiz, político, vendedor, feirante, professor (de matemática, biologia, literatura, sociologia e etc.), esportista, segurança, gerente de banco, auxiliar de limpeza em empresas comerciais, lixeiro, gari, contador, ferreiro, mineiro e etc.

Deixando o legalismo de lado

Muitos cristãos pensam que guardar o sábado é ser legalista. O legalista é aquela pessoa capaz de colocar a lei acima do amor e até de Cristo. Essas pessoas geralmente não gozam de um bom relacionamento com Deus, não desenvolvem bem os frutos do Espírito, se tornam muitas vezes hipócritas, acusadoras, metódicas, robóticas e frias. Além disso, criam regras que não estão na Bíblia, a fim de tentarem seguir as leis com mais afinco. 

Foi exatamente o que fizeram os fariseus e escribas da época de Jesus. Eles eram mestres no judaísmo, mas legalistas. Estes homens fizeram da guarda do sábado um verdadeiro suplício, criando miríades de regras extra-bíblicas e interpretações totalmente absurdas. É comum, portanto, que os cristãos que não guardam o sábado comparem os sabatistas a estes mestres legalistas. 

O que devemos ter em mente aqui é que o sábado não foi criado por um mestre legalista, mas por um Deus sábio e perfeito. Assim, não podemos dizer que a guarda do sábado implica necessariamente em ser legalista. Há sabatistas legalistas, assim como há sabatistas de grande virtude espiritual e cheios do poder de Deus. Ser legalista não tem a ver com o mandamento do sábado, mas com a escolha humana. Cabe ao sabatista escolher se agirá como se a lei fosse o seu Deus, ou se viverá segundo a vontade de Deus. Jesus Cristo foi um sabatista que resolveu viver segundo a vontade de Deus. Guardou o sábado como havia sido ordenado na lei, mas não se tornou um legalista. Uma vez que Jesus é o nosso modelo, por que não segui-lo na guarda correta do sábado, sem distorções e imbuídos de amor?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A história tradicional de Satanás é bíblica?

Um comentário:
Já devem ter uns cinco anos que descobri que alguns cristãos não acreditam na tradicional história que o cristianismo conta sobre a origem de Satanás. Na época, confesso, não dei muita importância ao caso. Mas nos últimos dias ouvi o argumento mais de uma vez, o que me gerou a vontade de redigir um texto sobre o assunto.

A história tradicional nos conta que Satanás era um anjo de Deus, de elevada posição no céu, mas que se tornou orgulhoso e desejou ardentemente ocupar o lugar de Deus e ser adorado como tal. Nesse espírito, incentivou uma rebelião no céu, presumivelmente apontando para Deus como um déspota, um tirano. Ao seu lado ficou a terça parte dos anjos. Deus, em sua onisciência, já sabia aonde aquilo levaria Satanás. Mas se o destruísse naquele momento, daria razão aos anjos para pensarem que Ele é um tirano e Satanás estava certo. Além disso, muitos poderiam permanecer ao lado de Deus por medo a partir dali. Assim, Deus apenas expulsou a ele e seus seguidores, permitindo que o tempo deixasse claro para todo o universo a maldade a que poderiam chegar; só então poderia destruí-los.

Os cristãos que não acreditam nessa história argumentam que ela está toda baseada em dois textos mal interpretados: Isaías 14:12-23 e Ezequiel 28:1-19. Esses cristãos nos dizem que os dois textos nada falam sobre a origem de Satanás, mas apenas sobre dois reis: o da Babilônia e o de Tiro. As duas passagens seriam apenas e simplesmente profecias contra esses reis, que tinham constituído fortes governos, mas se perdido na soberba e na maldade.

Antes de analisar os dois textos, é necessário dizer que o alarde feito por esses cristãos, em sua maioria liberais ou adeptos de teorias da conspiração, é ridículo. Se, de fato, os dois textos não se referirem a Satanás isso pouco altera a história tradicional que conhecemos sobre a sua origem. Afinal, toda a sua história é bastante dedutível através de diversos outros textos. Eu quero convidar o leitor a averiguar isso comigo agora.

Satanás em outros textos bíblicos

- Antigo Testamento

A primeira aparição de Satanás na Bíblia é descrita no capítulo 3 de Gênesis. Ele é citado como uma serpente que engana o primeiro casal de seres humanos do mundo, fazendo-os pecar e introduzindo a imperfeição no mundo. Independentemente de você aceitar a história como literal ou não a uma coisa é lógica: não foi uma serpente que enganou o casal e isso era algo que qualquer israelita da época de Moisés (que escreveu o livro de Gênesis) sabia. Serpentes não falam. Algum ser inteligente estava por trás da serpente. E este ser não era humano, pois no cenário traçado pelo relato não há outros humanos além do casal (eles são os primeiros) e o tal enganador pode falar através de uma serpente.

Embora não seja o assunto, vale notar algo rápido aqui: se a narrativa é literal, não é um ab-surdo que o ser enganador tenha utilizado um animal para conversar com o casal. É fácil para nós hoje, ou mesmo para quem tenha nascido há 5 mil anos atrás, concluir que animais não falam. Contamos não só com a nossa experiência pessoal, mas com o que nos dizem os nossos pais, avós, tios, primos, irmãos mais velhos, amigos, livros, revistas, documentários, trabalhos científicos e etc. Repousamos sobre milênios de observações. Tornou-se para nós uma obviedade que animais não falam. Mas isso certamente não era uma obviedade para o primeiro casal do mundo. Pelo menos não em seus primeiros anos de existência. Quem é que poderia garantir que na vastidão de animais existentes naquele imenso mundo inexplorado, não existia algum que falasse? Muito precisava ser explorado para se chegar a essa conclusão taxativa. Por outro lado, o casal tinha convicção ou, pelo menos, uma forte suspeita, de que eles eram os únicos humanos.  Por quê? Porque eram os primeiros. E porque não faria sentido Deus criar outros em outra parte e não os apresentar.

Mas, como eu disse, esse não é o assunto do texto. A questão principal é: no caso do relato ser literal, é claro que não demorou muito para o casal perceber que animais não podem mesmo falar e que quem os ludibriou foi um ser sobrenatural que se utilizou da serpente. E é claro que desde que a história passou a ser relatada até ser escrita por Moisés todos sabiam desse fato óbvio: a serpente foi apenas um meio. No caso do relato ser simbólico (o que não acredito), a coisa não muda muito. A serpente representa alguém. Mas quem? Quem é esse ser? O livro de Jó nos auxilia a responder essa pergunta. No primeiro capítulo lemos:

“Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles. Então, perguntou o Senhor a Satanás: ‘Donde vens?’. Satanás respondeu ao Senhor: ‘De rodear a terra e passear por ela’” (Jó 1:6-7). Na sequencia, Deus e o Diabo falam sobre Jó, um servo justo de Deus. O Senhor o exalta por ser justo, ao que Satanás afirma ser fácil manter-se justo quando se tem riquezas e saúde. Deus, então, permite que o Diabo retire de Jó estas coisas.

O livro de Jó (sobretudo os dois primeiros capítulos) é extremamente instrutivo. Fazia parte da cultura e da linguagem dos antigos monoteístas descrever Deus como tão poderoso e superior a sua criação a ponto de atribuir-lhe até mesmo coisas ruins. Isso não era feito de maneira acusatória. Entendia-se que sendo Deus soberano, até mesmo o mal que enviasse era justo ou, no mínimo, estava dentro do seu direito. Esta mentalidade provavelmente se iniciou através do pensamento de que nada acontece sem a permissão de Deus. Assim, mesmo que Deus não fosse o agente direito por algum ato, este poderia ser atribuído a Ele por ele ter permitido. Daí a ideia deve ter evoluído até o ponto de entender Deus como envolvido diretamente na maior parte (ou mesmo todas) as coisas que ocorriam.

Durante um tempo Deus deve ter permitido e até incentivado essa mentalidade, a fim de controlar melhor a questão da idolatria. No entanto, visando não permitir que tal mentalidade distorcesse o seu caráter na mente das pessoas, Deus começou a trabalhar a questão de quem faz o quê. O livro de Jó é um esforço no sentido de demonstrar aos homens que o mal não tem origem em Deus (embora Ele permita muitos males por conta do livre arbítrio), mas nesse ser chamado Satanás, que está constantemente monitorando os homens, acusando-os perante Deus e procurando meios para instigá-los à queda.

Ora, não é preciso ser muito inteligente para ligar uma coisa à outra. É óbvio que este ser não humano, poderoso, mal e desejoso de levar humanos a desobedecerem a Deus é o mesmo que se utilizou de uma serpente (ou foi por ela simbolizada) para enganar o primeiro casal. E durante todo o livro de Jó fica claro que o mal que aflige a Jó vem desse ser, tal como em Gênesis todo o mal é introduzido no mundo pela “serpente”.

Mas esse ser age sozinho por toda a terra fazendo tudo quanto é maldade? Se for assim, ele deve ser tão poderoso como Deus não é? Não, não. A Bíblia tem o cuidado de falar sobre isso também, para que tenhamos uma ideia mais clara de quem é Satanás. Nos textos de I Samuel 16:14, I Reis 22:23 e II Crônicas 18:22 lemos sobre a existência de espíritos maus que podiam influenciar as pessoas. E os deuses pagãos eram frequentemente descritos como “demônios”, o que parece indicar que existia certa noção de que, conquanto não existissem outros deuses, existiam espíritos malignos que recebiam a adoração por meio dos falsos deuses. Ademais, a crença em seres espirituais já existia há tempos. Nos cinco primeiros livros da Bíblia já é possível averiguar diversas menções a anjos. Se havia  criaturas espirituais como anjos, poderia haver criaturas espirituais como demônios.

Uma passagem de especial importância para nosso assunto está no capítulo 28 de II Samuel. A passagem relata como então rei Saul, de Israel, transgrediu o mandamento do Senhor, consultando uma médium, a fim de conversar com o já morto profeta Samuel. Isso é proibido pelas Escrituras e por um motivo simples: não dá para conversar com mortos. A tentativa de se fazer isso implica em dar mais importância aos mortos do que a Deus e pode acarretar enganos por parte de Satanás e seus espíritos. É o que o corre nos versos 13 e 14. A médium afirma ver uma figura semelhante a um deus e Saul entende que é o profeta. A passagem faz questão de enfatizar que a visão pela ótica do rei. O rei concluiu que era o profeta. A Bíblia não afirma que era. E não afirma porque não era mesmo. Tratava-se de um engano de Satanás ou algum de seus espíritos. Samuel estava morto. Não podia falar.

Então, o que sabemos até agora? Sabemos que um ser não humano, poderoso e maligno chamado Satanás enganou o primeiro casal do mundo, trazendo o pecado ao homem. Depois disso, este ser passou a rodear a terra com seus espíritos buscando causar desgraças, desviar os homens de Deus e acusá-los perante o Senhor. Isso está tão claro para nós como estava para quem viveu no Israel antigo.

O Antigo Testamento menciona Satanás algumas outras vezes. Uma delas é em uma visão do profeta Zacarias. Lemos o seguinte:
“Deus me mostrou o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do Anjo do Senhor, e Satanás estava à mão direita dele para lhe opor. Mas o Senhor disse a Satanás: ‘O Senhor te repreende, ó Satanás; sim, o Senhor que escolheu Jerusalém te repreende’” (Zacarias 3:1-2).

Aqui, mais uma vez, a Bíblia apresenta Satanás como um ser que está constantemente fazendo oposição aos homens de Deus. O fato de ele ser citado ao lado de outro ser espiritual enfatiza o seu caráter não humano.

- Novo Testamento

Por enquanto eu só analisei o que podemos saber sobre Satanás através dos registros do Antigo Testamento. Fiz isso porque às menções a Satanás são poucas nessa primeira parte da Bíblia, mas mesmo assim são suficientes para deduzirmos muito. Perceba: a Bíblia descreve Deus como um ser supremo que criou todo o universo e todos os seres vivos. Em suma, Ele é o princípio da existência de todas as coisas. Essa sempre foi a crença dos antigos monoteístas e dos israelitas. Daí conclui-se que Satanás e seus espíritos também foram criados por Deus. No entanto, a Bíblia também fala em um Deus plenamente bom e justo. Desta forma, Ele não os pode ter criado maus. Ora, se Ele não os criou maus, então eles se tornaram maus por escolha própria. Isso é possível? A Bíblia diz que sim de várias maneiras, mas dentre elas, com a própria história da queda da espécie humana.

Tendo escolhido o mal e influenciado o homem a escolher também, Satanás passa a rodear pela terra tentando desviar as pessoas de Deus. No entanto, ele tem acesso ao céu, no qual a outras criaturas espirituais semelhantes a ele, mas boas. Isso é um forte indicio de que num passado remoto, quando Satanás era bom, habitava com algumas dessas criaturas, talvez no céu mesmo.   Provavelmente era um anjo. Presume-se, assim, que teria saído de lá por ter se rebelado. Não é possível saber se foi expulso ou se escolheu apartar-se, levando consigo seus partidários, também anjos rebelados. O fato é: ele é que provavelmente habitava lá, não habita mais, porém aparece em reuniões para acusar o homem.

Conforme o leitor pode ver, essa é a história tradicional sobre a origem do Diabo. Ninguém precisa dos textos de Isaías 14 e Ezequiel 28 para chegar a essas conclusões. Mas não acaba por aí. O Novo Testamento clareia ainda mais a nossa mente sobre o inimigo de Deus. Nessa segunda parte da Bíblia, o Senhor resolve mostrar de vez como que toda a maldade provém de Satanás e seus demônios. Lemos sobre diversas possessões e vemos Jesus falar muito sobre os planos e as estratégias dele. Algumas passagens são muito importantes para o nosso estudo aqui. Por exemplo, a tentação que Jesus passa no deserto. Ela é narrada por três dos quatro evangelistas. Todos eles ressaltam que ao fim dos quarenta dias em jejum, o próprio Satanás apareceu a Jesus para tentá-lo. Uma das tentações é descrita assim:

“E, elevando-o, mostrou-lhe, num momento, todos os reinos do mundo. Disse-lhe o Diabo: ‘Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos, porque ela me foi entregue, e a dou a quem eu quiser. Portanto, se prostrado me adorares, toda será tua” (Lucas 4:5-7).
A passagem diz muito. Quem criou o mundo foi Deus, mas Satanás havia conseguido domínio introduzindo o pecado no mundo. A missão de Cristo era comprar de volta o mundo através do seu sangue. Mas Satanás ofereceu-lhe um caminho mais simples: eu devolvo o mundo todo para você sem problema. Apenas se prostre e me adore. A proposta é curiosa. Parece indicar uma obsessão de Satanás em querer receber adoração no lugar de Deus. Um texto que parece dar apoio a esta ideia está em II Coríntios 4:3-4, onde Paulo diz:

“Mas se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus”.
O “deus” desse século é, logicamente, uma referência a Satanás, o único ser poderoso e mal o suficiente para cegar o entendimento de todos os incrédulos. É a ele que o mundo adora quando não está em Cristo. Isso é bastante sugestivo.

Em outra passagem, após Jesus enviar seus discípulos para uma missão sem ele, os discípulos retornam felizes afirmando que fizeram grandes coisas e que até os demônios se submetiam ao nome de Jesus e iam embora. Jesus Cristo, então, afirma: “Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago” (Lucas 10:18).

A afirmação é simbólica. Mas seu sentido é claro. Satanás era aquele que frequentemente estava acusando os homens diante de Deus, a fim de demonstrar sua soberania sobre a raça humana. Agora, contudo, os próprios homens expulsavam demônios pelo nome de Jesus. Isso representava uma grande queda para Satanás, tal como se ele estivesse no meio de várias acusações no tribunal celeste e repentinamente um abismo se abrisse e o tragasse, fazendo-o cair velozmente até chegar a terra. Em outras palavras: “Você perdeu o domínio”. Mais uma vez vemos o que vimos no Antigo Testamento sendo confirmado.

Em outro texto, Paulo faz uma afirmação impressionante. Ele diz:

“Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, pois o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que seus próprios ministros se transformem em ministros de justiça; e o fim deles será conforme as suas obras” (II Coríntios 11:13-15).

A comparação feita por Paulo é simples. Homens maus podem fingir-se de homens bons, assim como Satanás, o chefe deles, pode fingir-se de anjo de luz. Aqui homem mal está para homem bom, assim como Satanás está para anjo de luz. Ou seja, Satanás também é anjo. E como anjo, pode fingir ser um anjo de luz. Isso só reforça a ideia de uma revolta no céu. Já sabemos que a diferença entre Satanás e os anjos é que ele escolheu ser mal.

A pequena epístola de Judas vai mais fundo e diz: “[...] e os anjos, os que não guardaram seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, Ele [Deus] tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do Grande Dia” (Judas 7).

O trecho é, em parte, simbólico. É claro que não há nenhum anjo preso em correntes literais em algum local escuro do universo. O sentido é que os tais anjos, por terem escolhido o mal e de maneira irreversível, também estão condenados de maneira irreversível à morte eterna no lago de fogo. Não há como escapar. Por isso estão “acorrentados” e “sob trevas”. A descrição pretende realçar o seu destino inevitável. Não obstante, o texto realmente está se referindo a anjos de Deus que caíram, que deixaram de ser bons. Confirmamos sem sombra de dúvida que houve uma rebelião no céu e que muitos anjos de Deus tornaram-se demônios.

Finalmente, chegamos em Apocalipse. Aqui todo o cenário da rebelião celestial é descrito de modo inquestionável. O trecho diz:

“Viu-se também outro sinal no céu e eis um dragão, grande, vermelho, com sete cabeças, dez chifres e, nas cabeças, sete diademas. A sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do céu, as quais lançou para a terra [...]. Houve peleja no céu. Miguel e seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e seus anjos; todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles. E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama Diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra e, com ele, os seus anjos” (Apocalipse 12:3-4 e 7-9).

Perfeito! Exatamente tudo o que aprendemos e deduzimos através de toda a Bíblia é ratificado neste trecho de maneira cristalina. E o texto continua com um hino de vitória:

“Então, ouvi grande voz do céu proclamando: ‘Agora, veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade de seu Cristo, pois foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus. Eles, pois, o venceram por causa do sangue do cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida. Por isso, festejai, ó céus, e vós, os que neles habitais. Ai da terra e do mar, pois o Diabo desceu até vós, cheio de grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta” (Apocalipse 12:10-12).

Aqui fica claro que o estardalhaço feito por cristãos liberais e teóricos da conspiração sobre a história tradicional de Satanás é ridículo. A Bíblia é claríssima quanto a origem desse ser. Ainda que se prove que Isaías 14 e Ezequiel 28 não se referem a Satanás, isso não muda quase nada do que aprendemos sobre a origem do Diabo. A única coisa que fica obscuro é o motivo pelo qual Satanás teria iniciado a rebelião. Há apenas um indício, baseado em uma das tentações lançadas por Satanás a Jesus e na referência de Paulo a ele como “‘deus’ deste século”, de que sua rebelião teria sido causada por almejar a posição de Deus.

Os textos de Isaías 14 e Ezequiel 28

Tendo analisado os outros textos, podemos expor agora as duas passagens “problemáticas” de Isaías e Ezequiel para começar nossas análises. A começar por Isaías, lemos o seguinte:

“Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: ‘Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo’. Contudo, serás precipitado para o reino dos mortos, no mais profundo abismo. Os que te virem te contemplarão, hão de fitar-te e dizer-te: ‘É este o homem que fazia estremecer a terra e tremer os reinos? Que punha o mundo como um deserto e assolava as cidades? Que a seus cativos não deixava ir para a casa?’.

“Todos os reis das nações, sim, todos eles, jazem com honra, cada um, no seu túmulo. Mas tu és lançado fora da tua sepultura, como um renovo bastardo, coberto de mortos traspassados à espada, cujo cadáver desce à cova e é pisado de pedras. Com eles não te reunirás na sepultura, porque destruíste a tua terra e mataste o teu povo; a descendência dos malignos jamais será nomeada. Preparai a matança para os filhos, por causa da maldade de seus pais,para que não se levantem, possuam a terra e encham  a terra de cidades. ‘Levantar-me-ei contra eles’, diz o Senhor dos Exércitos; ‘exterminarei de Babilônia o nome e os sobreviventes, os descendentes e a posteridade’, diz o Senhor. ‘Reduzi-la-ei à possessão de ouriços e lagoas de águas; varrê-la-ei com a vassoura da destruição’, diz o Senhor dos Exércitos” (Is 14:12-23).

Já o texto de Ezequiel nos afirma:

“Veio a mim a palavra do Senhor dizendo: ‘Filho do homem, dize ao Príncipe de Tiro: ‘Assim diz o Senhor Deus: ‘Visto que se eleva o teu coração e dizes: ‘Eu sou Deus, sobre a cadeira de Deus me assento no coração dos mares’, e não passas de homem e não és Deus, ainda que estimas o teu coração como se fora o coração de Deus [...] eis que trarei sobre ti os mais terríveis estrangeiros dentre as nações, os quais desembainharão a espada contra a formosura da tua sabedoria e mancharão o teu resplendor’. [...]

[...] ‘Filho do homem, levanta uma lamentação contra o rei de Tiro e dize-lhe: ‘Assim diz o Senhor Deus: ‘Tu és o sinete da perfeição, cheio de sabedoria e formosura. Estavas no Éden, jardim de Deus; de todas as pedras preciosas te cobrias: o sárdio, o topázio, o diamante, o berilo, o ônix, o jaspe, a safira, o carbúnculo e a esmeralda; de ouro se te fizeram os engastes e os ornamentos; no dia em que foste criado, foram eles preparados.

‘Tu eras querubim da guarda ungido, e te estabeleci; permanecias no monte santo de Deus, no brilho das pedras andavas. Perfeito eras nos teus caminhos desde o dia em que foste criado até que se achou iniquidade em ti. Na multiplicação do teu comércio, se encheu o teu interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei, profanado, fora do monte de Deus e te farei perecer, ó querubim da guarda, em meio ao brilho das pedras.

‘Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; lancei-te por terra, diante dos reis te pus, para que te contemplem. Pela multidão das tuas iniquidades, pela injustiça do teu comércio, profanaste os teus santuários; eu, pois, fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu, e te reduzi a cinzas sobre a terra, aos olhos de todos os que te contemplam. Todos os que te contemplam entre os povos estão espantados de ti; vens a ser objeto de espanto e jamais subsistirás’” (Ez 28:1-2, 7 e 11-19).

Textos expostos, vamos à análise.

De fato, qualquer pessoa que domine o princípio básico de interpretar textos dentro de seu contexto se sentirá inclinada a concordar: esses textos são mensagens endereçadas a dois reis e seus respectivos reinos: o da Babilônia e o de Tiro. Entretanto, interpretar textos dentro de seu contexto não é o único princípio de interpretação das Escrituras. E embora seja um dos mais usados (e talvez o principal), não pode ser utilizado para ignorar os outros. Uma boa interpretação requer que todos os princípios sejam utilizados em harmonia.

Um desses princípios é de averiguar o estilo do livro e do texto que está sendo lido. Ora, tanto um como o outro são textos de estilo profético, que se encontram no interior de livros de estilo profético. O estilo profético apresenta linguagem e estrutura próprias, distintas dos demais estilos. Uma das estruturas comuns a algumas profecias é a sua mensagem dupla.  O que isso significa? Bem, o profeta descreve uma profecia na qual sua mensagem se aplica a dois contextos diferentes, porém paralelos. Desta forma, um contexto se torna metáfora do outro contexto e uma única profecia acaba tendo dupla aplicação. Vou citar alguns exemplos para o leitor entender melhor. Em Malaquias 4:1-6 lemos a seguinte profecia:

“‘Pois eis que vem o dia e arde como a fornalha; todos os soberbos e todos os que cometem perversidade serão como o restolho; o dia que vem os abrasará’, diz o Senhor dos Exércitos, ‘de sorte que não lhes restará nem raiz, nem ramo. Mas para vós outros que temeis o meu nome nascerá o sol da justiça, trazendo salvação nas suas asas; saireis e saltareis como bezer-ros soltos na estrebaria. Pisareis os perverso, porque se farão cinzas debaixo das plantas dos vossos pés, naquele dia que preparei’,, diz o Senhor dos Exércitos. ‘Lembrai-vos da Lei de Moisés, meu servo, a qual lhe prescrevi em Horebe para todo o Israel, a saber, estatutos e juízos. Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor; ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição’”.

Vamos entender a profecia. Deus está pintando o quadro escatológico do último dia deste mundo corrompido. Neste dia, Deus irá destruir todos os maus através de fogo, extinguindo-os da face da terra. Por isso esse dia, no Antigo Testamento, geralmente é chamado por nomes como “O Dia da Vingança do Senhor”, ou “O Grande e Terrível Dia do Senhor”. É um dia de desespero. Não para os justos, claro, mas para os iníquos. É um dia de maldição, mas não para aqueles que escolheram estar com Deus.
O Grande Dia do Senhor está intimamente conectado com a vinda do Messias a terra. Assim acreditavam os judeus no Antigo Testamento e assim continuaram crendo os cristãos no Novo Testamento até ao dia de hoje. Na profecia em questão tudo indica que o Messias é o sol da justiça que traz salvação em suas asas. Uma descrição simbólica de Cristo, exaltando seu brilho, sua grandeza, sua retidão e seu poder sobrenatural.

Deus oferece a esperança do nascimento do sol da justiça para os justos e, então, faz um apelo para que as pessoas se lembrem da lei de Moisés. Isso é um claro apelo à observância dos mandamentos e a valorização da Torá. Em seguida diz que enviará o profeta Elias. Evidentemente, não se trata do profeta Elias literal. Trata-se apenas de algum profeta que anunciaria a vinda do sol da justiça. Alguns versos antes, Malaquias já havia profetizado sobre esse profeta:

“‘Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; de repente virá ao seu templo o Senhor, ao quem vós buscais, o Anjo da Aliança, a quem vós desejais’, diz o Senhor dos Exércitos. ‘Mas quem poderá suportar o dia da sua vinda? E quem poderá subsistir quando ele aparecer? Porque ele é como o fogo do ourives e como a potassa dos lavandeiros. Assentar-se-á como como derretedor e purificador de prata’”.

A escolha do nome Elias para simbolizar este mensageiro não foi em vão. Elias fora o maior profeta que já existira. Tanto que não morreu, mas foi trasladado por Deus. Tal como Moisés representava a lei, Elias representava os profetas. Assim, Deus o menciona para mostrar o quão importante era a obra do mensageiro que precederia o Messias e como ela estava em acordo com tudo o que os demais profetas haviam dito e escrito. Deveria, então, o povo dar valor à lei, aos profetas e, principalmente, ao precursor do Messias. Deus, então, fecha a profecia dizendo que este precursor do Messias prepararia o coração das pessoas, a fim de que a maldição do Grande Dia do Senhor não caísse sobre elas.

Agora, repare: o Elias mencionado realmente veio. Ele era João Batista. O próprio Jesus Cristo o identificou como o Elias da profecia. João Batista teve um ministério famoso e levou muitas pessoas a se arrependerem dos pecados e prepararem seus corações para a breve vinda do Messias. Ele honrou o nome de Moisés e Elias, levando às pessoas a valorizarem mais a lei e os profetas. Então, veio Jesus Cristo, o sol da justiça. E ele trouxe salvação quando morreu na cruz e ressuscitou. Ok. Mas a profecia não está totalmente cumprida. Onde está o Grande Dia do Senhor? Cadê a destruição total dos ímpios? E onde estão os salvos pulando felizes, livres da maldade dos perversos? Ainda não aconteceu. E já faz dois mil anos. A profecia falhou?

Definitivamente não. O que ocorre é que a mensagem dessa profecia é dupla. Ela se aplica a dois contextos distintos, mas paralelos. Esses dois contextos são: a primeira vinda do Messias e a segunda vinda do Messias. A profecia fala desses dois eventos, usando um como metáfora do outro. Por que ela faz isso? Porque há eventos na primeira vinda que terão equivalentes na segunda vinda. Vejamos.

A profecia de Malaquias afirma que um mensageiro prepararia o povo para a vinda do Messias. Na primeira vinda, João Batista desempenhou esta função, conforme o próprio Jesus confirma em passagens como  Mateus 11:14 e 17:9-13. Na segunda vinda, a função será desempenhada por um movimento de cristãos fiéis em meio à apostasia do tempo do fim, conforme fica claro em Apocalipse 14:6, 12:17, 14:12 e Mateus 24:14.

A profecia de Malaquias diz também que Deus orientaria o povo a se lembrar da sua lei e que muitos seriam convertidos, algo que é feito por meio de João Batista antes da primeira vinda e por esse movimento cristão do tempo do fim antes da segunda vinda. Em seguida, nos é dito que o Messias vem, trazendo salvação. Na primeira vinda isso é feito através da morte dele na cruz. Na segunda vinda, os cristãos já salvos são libertos desse mundo caído. Então, a profecia fala sobre Deus lançando a maldição pelo pecado sobre a terra. Na primeira vinda, Cristo se coloca no lugar da humanidade, recebendo a punição. Na segunda vinda, aqueles que não aceitaram o sacrifício substitutivo de Cristo recebem a maldição. Por fim, a profecia descreve a alegria dos justos por causa da vitória sobre os ímpios. Na primeira vinda, essa alegria ocorre pela certeza da volta de Cristo. Na segunda vinda, a destruição dos ímpios é concretizada. Uma tabela ajudará o leitor a visualizar melhor isso:


Semelhante a esta profecia, há outras que seguem a mesma estrutura. Não há espaço para analisar todas elas, mas irei citar algumas aqui. Uma delas se encontra em Mateus 24. Lá Jesus descreve uma perseguição que o povo cristão sofreria. A profecia, na verdade, fala de dois contextos: a perseguição que sobreviria a Jerusalém no ano 70 e a perseguição aos cristãos no final dos tempos.

Outra profecia dupla se encontra em Apocalipse, capítulos 2 e 3. Ali são descritas sete cartas, uma para cada igreja que existia na região da Ásia. A mensagem a cada uma delas é verdadeira e fazia menção aos seus defeitos e virtudes literais. Mas cada igreja literal também representava um período do cristianismo. Elas foram escolhidas para essa representação justamente por conterem os defeitos e as virtudes de cada período que precisava ser representado. Assim, temos uma mensagem àquelas igrejas literais e aos períodos que elas representavam.

Ainda outro exemplo de profecia dupla se encontra no capítulo 56 de Isaías. Lá podemos ler que Israel se tornaria Casa de Oração para todos os povos. Essa profecia se estende para dois contextos: antes e depois de Cristo. Antes de Cristo, entre os anos 400 a.C. e 1 a.C., o judaísmo foi bem espalhado por vários lugares, fazendo com que pessoas de muitos povos se unissem a Israel em suas crenças. Depois de Cristo, com a fundação da Igreja, essa tendência continuou, mas agora com mais força.

Uma vez compreendido que existem profecias duplas, devemos nos perguntar: será que os textos de Isaías 14 e Ezequiel 28 não se tratam de profecias duplas? Há boas razões para se pensar que sim. Perceba que ambos os textos utilizam uma linguagem simbólica muito exagerada para se referir ao rei de Babilônia e o rei de Tiro. E não é só exagerada. Note: ela possui vários símbolos que formam juntos a descrição de outro personagem. Não se trata apenas de algumas metáforas alheias para descrever os dois reis, mas de metáforas que montam uma história, uma descrição.

Caso estejamos lidando realmente com profecias duplas, devemos entender o seguinte: em Isaías 14 o autor quer mostrar que o rei babilônico era muito orgulhoso, guerreava contra nações e desejava ser o homem mais importante e lisonjeado do mundo. Para expressar isso, o autor escolhe a história de outro personagem como metáfora para o rei. Este personagem é chamado de estrela da manhã, filho da alva.

O leitor poderia argumentar que o autor estava falando meramente de uma estrela (tal como usamos flor como metáfora para uma menina bela e meiga). Mas ele diz que essa estrela desejava estar acima de Deus e se assentar no trono de Deus. Isso extrapola a metáfora simples. Não estamos mais falando de um rei que se compara a uma estrela. Estamos falando de um rei que se compara a uma estrela que quer estar acima de Deus. Trata-se de uma história metafórica no qual a estrela é um personagem e não um mero elemento comparativo. Essa história pode ser fictícia ou não.

Em Ezequiel 28, o autor quer mostrar que o rei de Tiro era muito orgulhoso, tendo se corom-pido por causa disso. Resolve, como fez Isaías, escolher um personagem para servir de metáfora para o rei. O personagem é chamado de querubim da guarda ungido. Mais uma vez o leitor poderia dizer que Ezequiel não está se referindo a ninguém especial, mas apenas comparando o rei a uma figura criada. Mas o autor diz que esse era perfeito, que permanecia na morada de Deus e que se corrompeu. Mais uma vez, não temos uma metáfora simples, mas uma história metafórica. Pode ser fictícia ou não.

Como a maioria dos cristãos chega à conclusão de que essas histórias metafóricas são verda-deiras? Observando que elas se complementam entre si e são idênticas à história de Satanás já informada e deduzida em outros textos bíblicos. Note: em Ezequiel 28, nosso personagem é um querubim. Querubim é um tipo de anjo. Satanás era um anjo. O querubim habitava jardim de Deus e o monte santo, termos que são termos pra o que chamamos “céu”, a morada de Deus. Satanás também morava no “céu”. Este céu não é literal, mas nós chamamos assim a morada de Deus porque fica fora da terra. Tudo o que fica fora da terra para nós está no céu. É natural, portanto, que em Isaías 14, nosso personagem seja identificado como uma estrela. Se as estrelas literais estão no céu literal, as estrelas simbólicas estão em um céu simbólico. E se Satanás é essa estrela simbólica, o céu simbólico é a morada de Deus.

Isaías 14 continua dizendo que nosso personagem debilitava as nações? Mas havia nações no céu? Certamente não as que conhecemos na terra. Mas é bom notar que nação significa um conjunto de pessoas com semelhanças étnicas. No campo simbólico, nações poderiam ser muito bem conjuntos de seres pelo universo, tanto anjos quanto outras criaturas inteligentes das quais não temos conhecimento. Isaías 14 continua dizendo que nosso personagem deseja sentar no tono de Deus e ser como o Altíssimo. Como vimos antes, há bons indícios de que Satanás sempre almejou isso. Em Ezequiel 28, nosso personagem deseja a mesma coisa: ser o próprio Deus. A partir daí, nosso personagem deixa de ser perfeito, assim como Satanás deixou de ser perfeito um dia.

Voltamos a Isaías 14 e percebemos que Deus profere uma maldição sobre a Babilônia. A Bíblia fala em uma Babilônia literal e em uma Babilônia simbólica. A literal é governada pelo monarca, evidentemente. Mas a simbólica é governada por Satanás. Assim, Deus promete a destruição tanto de uma quanto de outra. Em Apocalipse 18 lemos sobre essa segunda destruição. Então, vamos mais uma vez para Ezequiel 28, onde o autor diz que um fogo destruiria Tiro e seu monarca. Da mesma maneira, um fogo destruirá Satanás no fim dos tempos.

Conforme o leitor pode ver, utilizando bem os princípios de interpretação é possível chegar à conclusão de que os dois textos realmente fazem uso da história de Satanás para se referir aos dois reis. Por que isso foi feito? Provavelmente para nos ensinar que os dois reis padeceram do mesmo mal do Diabo: o orgulho. Também para deixar claro que aqueles que se deixam usar por Satanás tornam-se espelhos dele, de modo que sua história é reencenada e rememorada nos ímpios.

Outra pergunta interessante é: será que a metáfora foi entendida na época? Eu não tenho como afirmar que sim. É possível. Até porque muito provavelmente a história de Satanás deve ter sido difundida desde o princípio, fazendo parte de muitas culturas. Certamente a história foi distorcida na maior parte dessas culturas, mas há boa possibilidade de que a ideia de um anjo caído que almejou ser Deus fosse conhecida, sobretudo entre os israelitas. Contudo, mesmo que ninguém tenha entendido a metáfora na época, ninguém disse que ela era para ser entendida pelos primeiros leitores/ouvintes. Talvez Deus tenha inspirado a metáfora para que a Igreja entendesse e não as pessoas anteriores a ela.

Fica provado, então, que é uma enorme tolice dizer que a história tradicional de Satanás é uma mentira. Ela está bem amparada por diversos textos bíblico, independentemente da interpretação de Isaías 14 e Ezequiel 28. Não obstante, há boas razões para se enxergar os dois textos como profecias duplas, cuja mensagem se refere aos reis da Babilônia e Tiro, mas também ao Diabo. A importância de se provar isso não está tanto no fato de conhecer melhor a história do inimigo de Deus, mas de preservar o entendimento de que Deus é bom e o mal veio e vem de uma criatura livre que se corrompeu. Creio que a ideia de lançar dúvida sobre a história de Satanás é um plano do próprio Diabo para levar cristãos a colocarem dúvida em outros pontos claros da Bíblia. O objetivo final é que o cristão acabe duvidando de tudo e descartando a Bíblia. E isso, infelizmente, já aconteceu com muitos.